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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Liberdade Vs. Segurança. A cultura do medo

Há uns bons anos fui a casa de um rapaz que eu conhecia do tempo de liceu e que já não o via desde essa altura.

Tornou-se amigo de um amigo, cruzamo-nos todos num café e por fora da circunstancia fomos a casa dele. Mais tarde descobri que era vigiado por tráfico de droga e deixei de ir a casa dele.

Não me apetecia ser vigiado por uma coisa com a qual não tinha qualquer relação.

O Professor Marcelo ou se preferirmos, o Presidente da República, aprovou esta semana a utilização de metadados de comunicações e internet pelas secretas.

 

 

Direi eu “quem não deve, não teme”.

Mas direi de um modo despretensioso e desponderado.

A verdade é que não devendo nem temendo, não me apetece ter do outro lado um tipo que traça a minha rede de contactos e que se porventura um dia ligo para um suspeito, passo a ser verificado não por metadados, mas pelos dados em si.

Ou através da internet, muitas vezes faço pesquisas sobre o que escrevo ou sobre as noticias que leio para fazer o que toda a gente devia fazer, verificar fontes, verificar a veracidade. O tipo lá sentado do SIS recebe os metadados de pesquisa sobre terrorismo e acha que tenho barba q.b. para ser um terrorista. Salto do cidadão dos metadados para o cidadão investigado e em virtude de não ter relação nenhuma com o terrorismo, vejo a vida, a minha, esmiuçada e devassada.

“Mas a segurança impõe-nos medidas drásticas”. Impõe tanto como o caminho único da austeridade.

Portugal é um país europeu, o primeiro a colonizar, dos últimos a descolonizar, senão mesmo o ultimo. Temos emigrado e recebido imigração que vai entrando e saindo conforme o mundo se tem modificado. O único terrorismo que há memória foi concretizado há mais de 40 anos por sujeitos tradicionalmente portugueses. (nem sequer vou chamar-lhe “normal” porque vamos entrar num debate entre etnia e cidadania que não leva a lado nenhum).

Muita gente morreu pela liberdade, mas poucos, se alguns, pela segurança. Morre-se por falta dela, foge-se da insegurança, mas a luta é sempre pela liberdade.

O que estamos a fazer é entregar a liberdade em nome da segurança. Deixamos deliberadamente que as redes sociais aglomerem os metadados para os nossos hábitos, as lojas traçam o nosso perfil de consumidores a troco de um cartão “facilitador” e com “descontos” mais ou menos imediatos.

Municípios que nos colocam como videovigiados e o Estado que nos coloca na condição de fiscais das finanças a troco de Certificados do Tesouro e agora o Estado quer controlar os metadados das minhas comunicações.

Paulatinamente passo a ser um numero numa cloud onde se pode encontrar o registo de cada passo que eu dou no meu dia-a-dia.

“eh, estás a exagerar…”

Em 1949 é publicado “1984” ou melhor, “Nineteen Eighty-Four” de George Orwell. Para quem este titulo possa ser estranho, este é o livro que mais tarde vem a resultar em programas como o Big Brother.

Mas talvez baseado neste livro e adaptado aos tempos modernos podemos ver o filme “The Circle” de James Ponsoldt com Emma Watson e Tom Hanks nos principais papeis.

Este é um bom filme muito mais ajustado aos nossos tempos em que uma empresa, como o nosso Facebook, vai somando funcionalidades que em ultima instancia acabam por controlar a nossa vida, ao ponto de se substituir ao Estado nas suas competências. Sempre subjugados ao medo da insegurança, as pessoas vão cedendo à liberdade até perderam a liberdade, até que se tenha medo do medo, até que se tenha medo dos pensamentos.

 

Paulatinamente encaminhamo-nos para o fim da liberdade e metadados é só mais um pequeno passo. Poderia dizer que isso seria algo que eu já não veria em vida, mas nos nossos dias as coisas evoluem tão depressa que já nem disso tenho certeza.