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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

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Infante D. Henrique num mural austriaco

A semana passada, fomos jantar a um palácio (escreverei sobre isso noutro artigo) e outra pessoa presente insistia em ir, numa tradição bem portuguesa, beber um copo depois de jantar. O nosso anfitrião agarrou-se ao telemóvel e começou a pesquisar quais as melhores opções ali da zona. Quando me refiro a “zona”, falo de um raio de 30km. Outras realidades.

Para um enquadramento geográfico, estamos na Áustria, junto da fronteira com o Liechtenstein, da Suíça, perto da Itália e da Alemanha.

A caminho de um bar, em Dornbirn, passámos em frente a uma igreja com um enorme mural.

 

6045928248_47b1ab4de4_b.jpg

  https://goo.gl/dgYCLG se quiseres ver o local no google maps

 

Para quem me conhece sabe que não perco uma oportunidade para uma brincadeira. O nosso anfitrião é nativo daquela zona e sem qualquer conversa relacionada, pergunto-lhe:

“sabes quem é aquele tipo, ao fundo, o de chapéu preto?”

Naturalmente que não sabia… digo-lhe prontamente “é português, é o Infante D. Henrique, uma figura importante dos descobrimentos portugueses…”

Sem deixar cair a bola no chão, saco do telemóvel, e mostro—lhe esta fotografia:

 

4f99a13e4ba8146eb565227309da56bb-Infante-D. HenriqAo longe e de noite, com o mesmo tipo de chapéu e roupa, são parecidos o suficiente para parecer verdade

 

Ele ficou com aquela cara de perplexidade entre o meu largo conhecimento sobre um mural de uma igreja austríaca de que ele não tinha conhecimento, e … que raio faria um navegador português ali, tão longe e onde não há mar?

Mas não disse nada.

Em terra de cegos quem tem um olho é rei e na falta de melhor, aquele argumento, sustentado pela imagem do google, pareceu verdadeiro o suficiente.

Deixei passar o momento e repus a verdade. Se não o fizesse, se calhar, no futuro ele diria a alguém, igualmente cego, que aquele era um navegador português.

 

 

 

Esta é uma historia de uma brincadeira, mas de como a verdade pode ser deturpada usando factos ou moldando-os, com determinado objetivo.

Não é recente a tentativa de oferecer uma justificação a um facto desconhecido, pouco conhecido ou ambíguo. Afinal, é assim que Deus aparece na nossa existência como justificador de tudo o que não compreendemos.

Só que antigamente essa deturpação ou manipulação dos factos, resumia-se a espaços pequenos e a poucas pessoas, o que era escrutinavel.

Vamos colocar o caso dos jornais com noticias, como hoje, manipuladoras. Aparecia logo outro artigo, noutro jornal, na mesma direção, mas em sentido oposto.  

Hoje, as redes sociais não têm critério e quando mais uma “noticia” apelar ao nosso lado mais selvagem, aos instintos primários, mais vezes ela é partilhada.

 

No outro dia, falava com um colega, que trabalha num dos países menos desenvolvidos do mundo, que quem manda, não quer que as pessoas aprendam para não saberem o que há a perguntar.

Devo dizer que por cá as pessoas aprendem, supostamente aprendem até a ter espirito critico, a usarem a razão em vez da emoção, e ainda assim, genericamente, são apenas bons selvagens… e bons quando a maré está de feição.

Isso é cada vez mais obvio com os acontecimentos na Venezuela, no Brasil, a eleição de Trump, a reeleição de Putin, Brexit, elevação de muros nas fronteiras da UE, cada vez mais poder dos partidos nacionalistas… e reporto-me só a um mundo que já teve um ar minimamente civilizado.

As redes sociais banalizam a morte, normalizam a selvajaria.

É um facto que uso internet desde o tempo do mIRC, mas é igualmente verdade que cada vez me sinto mais afastado desde conceito de social. É bem provável que a curto prazo abandone este tipo de espaços porque não quero alimentar o monstro populista que alimenta a soma de todos os medos.