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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Imagina Que Não Existiam Religiões

 

Senta-te, respira fundo e pondera como seria o mundo sem religiões.

Impossível!

O Homem é o único animal religioso e não o é por acaso. Os motivos são bem terrenos. Somos nós que temos consciência dos nossos actos, sentimos a culpa e projectamos no futuro, incluindo a consciência das consequências dos nossos actos.

Curiosamente o Homem tem uma enorme dificuldade em lidar com a culpa e tendencialmente coloca-a em terceiros.

É escusado tentares contornar este facto porque é um traço comum a todos nós e só estás a tentar ocultar de ti próprio momentos em que podes sentir culpa. A culpa ou é de outros ou de outra coisa qualquer e nada mais simples que empurrar a culpa para o que não existe, sejam bruxas, demónios ou um deus que escreva certo por linhas tortas. “São os desígnios de Deus…”.

Outra coisa com a qual não sabemos lidar é com a morte. Até podemos saber lidar com a nossa morte mas temos uma supra dificuldade em lidar com a morte de outros, talvez por nos revermos naquela condição.

Assim se criam deuses que têm a hipótese de ajudar, castigar e oferecer aos meninos bem comportados uma vida para além da vida terrena.

Isto é obvio porque quais mais desesperado o sujeito mais este procura, e encontra, conforto em algo que vive dentro de si, a sua fé feita à medida das necessidades de cada um que lhe trás esperança, conforto e quando necessário, a penitencia que apazigua o sentimento de culpa.

E por isso mesmo, no nosso mundo racionalizado que a religião continua a vingar, mesmo que seja dentro das suas interpretações muito próprias.

Já as pessoas que têm um modelo de vida racional e sem conflitos internos ou externos, tendem a afastarem-se da religiosidade.

Que não restem duvidas que encontraremos sempre pessoas que sofrendo de uma qualquer perturbação mental, irão agarrar-se a qualquer argumento ou ideologia para cometerem actos de extremismo.

A religião pode, ou não, servir de desculpa, por vezes é.

Mas olhando para o mundo e procurando onde existem as maiores concentrações de radicais religiosos, seja ela qual for, verificamos que estão quase sempre, senão mesmo sempre, ligados a zonas de pobreza, precariedade e conflitos onde o dia de amanhã não é uma certeza.

Quão mais radicais e duradouras forem essas condições, mais se expressa o radicalismo.

O catolicismo não se perdeu no ocidente. As condições de vida e a projecção de futuro é que melhoraram de tal ordem que as pessoas deixaram de passar o tempo em busca de esperança e conforto externo. A única solução para acabar com o terrorismo é acabar com a precariedade e as guerras que fazem parte do dia-a-dia destas pessoas.

Esta não será uma conquista de uma geração. Talvez 100 anos sem guerras e atropelos consigam empurrar esses ódios para os livros de história e sejam usados, como nós usamos ainda hoje “de Espanha nem bom vento nem bom casamento” sem que isso nos traga verdadeira animosidade.

Ninguém nasce bom, nem mau, nem religioso e muito menos fanático.

As pessoas transformam-se naquilo que conhecemos alimentadas pela raiva e frustração de vidas que se perdem diariamente de modo arbitrário colocando a existencia no mundo terreno num segundo plano. Se amanhã não é certo, porque não aproveitar estes últimos fôlegos para vingar a morte de tantos arrastando outros tantos para morte igual à que causam?

Em última analise os causadores desta perpetuação dos conflitos recai naqueles que adquirem o conforto de vida às custas da miséria e da morte de outros.