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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Fora de Jogo

Que não me levem a mal... Eu até aprecio o desporto-rei. Palavra que sim. Algo me seduz naquele estranho ritual no qual 22 pessoas vestidas de calções se espalham por um rectângulo relvado formando duas equipas, sendo que cada uma delas tenta conduzir um objecto esférico na direcção das redes do adversário, concretizando um golo. O futebol ou a “bola”, como é carinhosamente apelidado pelo povo, é mais que o desporto nacional. É um fenómeno educacional e social. Crescemos com ele, rodeia-nos e até nos aprisiona. Em certos casos desempenha um papel de extrema importância na vida de alguns.

Não conseguimos decorar os nomes dos/as ministros/as do governo ou os reis da primeira dinastia, mas ai de quem não tem na ponta da língua o 11 titular da sua equipa do coração. O futebol é gerador de paixões e de ódios, de violência e de solidariedade. Caberia o campo do racional, mas fizemos dele sentimento.

Evidentemente que essa matriz cultural está profundamente enraizada na nossa sociedade. Isto não será necessariamente mau nem bom. O problema está quando se tenta vender o desporto-rei como a única coisa a que devemos dar importância. Pouco interessa a alteração da TSU, os cortes nas pensões e salários ou os aumentos de impostos, pois o meu clube até ganhou este fim-de-semana... Esse é o verdadeiro devir da realização pessoal.

Tudo isto vem a propósito da marcação de jogos do campeonato nacional de futebol profissional para o dia 4 de Outubro, dia das eleições legislativas. Tradicionalmente o campeonato pára nesse fim-de-semana ou pelo menos no dia eleitoral. Este ano, tal não sucede. Alega a Liga de Clubes, na pessoa do seu presidente, que não havia outra disponibilidade para albergar estes encontros. Com efeito, o ano conta com apenas 365 dias o que dificulta sobremaneira a marcação para outra data.

Esta situação, não sendo de forma alguma ilegal, reveste-se de uma enorme falta de bom senso e contribui, mesmo que involuntariamente, para retirar a solenidade e superior importância para o país deste acto eleitoral em concreto. É também reflexo da falta de cultura democrática e de uma cidadania muito pouco activa politicamente, onde tudo serve para nos desresponsabilizar da decisão que teremos de tomar.

Passar um lei que proíba a realização de eventos desportivos em dias de sufrágio podia ser uma solução. Mas, particularmente, não sou muito favorável a proibicionismos. Julgo que a resposta deveria partir do povo, espontânea ou organizada. Atendendo ao cenário traçado, apelo a que se faça um boicote aos jogos da liga profissional de futebol do fim-de-semana de 3 e 4 de Outubro. Seria uma mensagem muito clara e forte se todos os estádios estivessem vazios e se os canais televisivos específicos não tivessem audiência.

No domingo de 4 de Outubro vamos fazer da democracia o nosso campeonato e apoiar quem desejarmos com o nosso voto, como se do nosso clube se tratasse. Deixemos fora de jogo outras questões menores. Porque nesse dia joga-se muito mais que um título de futebol, jogam-se as nossas vidas e o futuro do nosso país.

 

 

Montijo, 24 de Setembro de 2015