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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Farinha do Mesmo Saco

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Há uns tempos pensei na possibilidade de abrir uma empresa em sociedade com um amigo. Antes de avançar era preciso fazer contas à vida e perceber que tipo de lucro teríamos e que tipo de salários conseguiríamos pagar.

No fim das contas verificámos que o lucro não era compensatório e se tivéssemos de pagar salários estes ou seriam balizados no SMN ou um pouco mais por recibos verdes.

A ideia caiu porque não poderia embarcar num modelo de negocio que condeno no que toca a colocar pessoas em condições precárias.

Quando apareceu a noticia que António Costa oferecia a descida da TSU a troco do aumento do SMN, disse logo que era um erro medonho.

Não sou profeta porque se fosse teria adivinhado que Passos Coelho também se oporia, mas estava mais que visto que esta solução não podia passar. E não passou.

O que ninguém estava à espera é que o sócio-gerente da Padaria Portuguesa (PP), Nuno Carvalho, que venho a descobrir que é o primo de José Diogo Quintela, se colocaria em frente ao microfone da SIC a debitar ideologia neoliberal. Segundo este a TSU pouco lhe afeta nas contas. O que ele quer é uma descida no IRC. O que ele quer é despedir trabalhadores ao sabor da maré.

Disse ainda que não pagava a nenhum trabalhador o SMN, só que com a recente revisão em 27 euros, colocou 25% dos trabalhadores da padaria portuguesa com o vencimento equivalente ao SMN. Pergunto-me se ele pagava 535€ só para não entrar nas estatísticas de empregadores que pagam o SMN.

Mas o tipo achou-se mal compreendido e voltou a colocar-se debaixo dos holofotes para dizer que a legislação está pensada para a industria e que obriga a uma grande ginástica aos empregadores no sector terciário. Diz ele que qualquer trabalhador que queira trabalhar 60 horas semanais iria desejar trabalhar na PP. Diz ainda que é extremamente penalizador que o valor das horas extra seja majorado face à hora normal.

Para tentar criar alguma empatia com o leitor/ouvinte/telespectador, colocou-se nas nossas pantufas e diz “bom, eu antes de ser patrão, quando era funcionário, já pensava assim… “. Visto daqui ele não precisava de ser patrão para ter uma mente retorcida, mas lá teve a sorte de ter um primo que lhe patrocinou o negócio e lhe deu a visibilidade.

Melhor que este só me lembro de Armando Pereira, dono da Altice (acionista Portugal Telecom) ao declarar que só paga salários porque é obrigado.

A história já era medonha o suficiente para as redes sociais se insurgirem contra a PP.

João Miguel Tavares que afina pelo mesmo diapasão vem defender o primo do Quintela e diz que “não senhor, esta canalha de preguiçosos ganha afinal 877 euros por mês”. Bom, na melhor das hipóteses JMT teria de dizer que este é o custo da empresa e não se referir ao valor como sendo o SMN até porque faz para ali um malabarismo contabilístico convenientemente desmontado por José Soeiro.

O que ele não diz é que existem sítios no mundo onde não existem subsídios de férias ou de natal, existem até locais onde o período de férias nem é pago. Existem sítios no mundo em que não existem contribuições e os impostos até são menores. O que ele não diz é que nestes sítios o valor salarial é francamente superior e contas feitas, depois das somas e das subtrações, ficamos na cauda dos ordenados médios da Europa, isto para engordar a bolça desta malta, os que “arriscam ao investirem”.

E é mesmo isso que diz António Costa, o publisher, que continuará a frequentar a PP porque Nuno Carvalho arriscou investir (o que não era dele) num período de crise e por isso merece agora o sacrifício dos seus funcionários e portugueses em geral.

Bom, a questão não se refere propriamente à criação de emprego ou até à necessidade que esta e outras empresas possam ter de contratar com o SMN. Talvez a guerra de palavras não esteja suficientemente clara, mas o problema aqui é que Nuno Carvalho julga que é porreiro ser escravo e todos deveríamos aceitar isso como norma.

O que ninguém diz é que o tipo que trabalha 8 horas na verdade não trabalha bem 8 horas. Vamos assumir que o tipo demore 1 hora entre a sua casa e o seu emprego ao que podemos adicionar mais 1 hora de almoço, e JMT esta não é remunerada, não se preocupe. O tipo normal dedica hoje 11 horas do seu dia ao emprego. Se o senhor quiser praticar uma base de trabalho em 12 horas diárias isto quer dizer que o sujeito despende 15 horas em função do emprego e se dormir 8 horas, que é o mais natural depois de trabalhar 12, sobra-lhe 1 hora para TUDO o resto. Isto não é escravatura? JMT esta matemática não lhe serve?

A coisa já era degradante pela mão de Nuno Carvalho e os que vieram defende-lo por muitas voltas que tenham tentado dar, não conseguem defender o indefensável.

Apareceu José Diogo Quintela na sua cronica no Correio da Manha ( a ausência do til não é gralha) a tentar fazer deste enredo um tema cómico.

Não sei muito bem como sacar de uma piada quando esta tem por finalidade servir de defesa em causa própria, a coisa perde até a piada porque por ser em causa própria dá um ar de quem se está nas tintas e a gozar com a malta, sobretudo os seus funcionários.

Eu aceito que JDQ seja um tipo porreiro. Tenho amigos que não são de esquerda e tenho muitos mais que não são da minha esquerda. E percebo que ele queira defender o seu primo, a sua PP e em ultima instancia defender-se a si próprio, mas quando colocamos os outros como números de Excel como fazia Vítor Gaspar, quando a dignidade humana passa para o acessório, mais vale estar calado porque quanto mais se mexe pior cheira.

Não vou dizer que vou deixar de ser cliente da PP porque nunca fui, mas se a ocasião se proporcionar, certamente que evitarei e escolherei a pastelaria do lado.

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