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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Eutanásia - Vive e Deixa Morrer

Publicado originalmente em 15-02-2016

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Ainda que muito se fale e escreva sobre o direito à vida, a verdade é que a vida, e a morte, são condições. A primeira não depende do vivo que usufrui mas de outros vivos que o antecederam e a segunda, a morte, é uma condição incógnita e indefinida. Fora dos livros de ficção uma não existe sem a outra.
Assim, quando nos referimos ao direito à vida, referimo-nos não à condição mas sim a uma existência com dignidade onde se pretendem preencher pelo menos em papel, um determinado número de requisitos que preencham essa dignidade: Garantia de educação, saúde, liberdade, igualdade, habitação, alimentação…
Apesar desdás “garantias” que afinal pouco mais que nada garantem, a verdade é que socialmente e até legalmente, a vida não é um direito mas sim um dever para com… Deus.
Ao longo da história a morte teve, e tem, diversas formas de ser encarada. A nossa está assente na teoria que Deus escreve direito por linhas tortas e independentemente da nossa sorte e da nossa vontade, temos de aguentar até à última gota de energia do corpo. E tanto é assim que aos suicidas não é garantido o reino dos céus já aos que matam, este não lhes está vedado sobretudo se matarem em Seu nome.
E que não se julgue que esta ideia se perdeu no tempo. Os mesmos que defendem a pena de morte são muitas vezes os que são contra a IVG ou a eutanásia.
Conclui-se assim que o exercício de liberdade sobre a própria vida, que é a única coisa que cada um de nós possui, é limitado penalmente com base em deveres.
Saltemos aqui um pouco sobre a filosofia da vida e aproximemo-nos aqui um pouco mais da morte.
Tal como referi, a morte é a condição e condicionante da vida. Nada que esteja vivo permanecerá vivo e a morte interrompe a vida. Não me refiro à interrupção objectiva da vida mas à experiencia da vida.
Para a maioria de nós falar da morte é algo de subjectivo porque não conhecemos quando será a ultima hora.
Para alguns essa hora foi-lhes revelada e mais do que essa hora, como irão decorrer os dias até lá. Nada será mais definitivo que este conhecimento e cada um de nós lida com o facto de modo diferente. Uns atravessam uma loucura mais ou menos permanente. A mente esconde-se dentro de si própria da certeza que ai vem. Outros procuram resolver tudo o que deixaram pendente ao longo da vida. Outros procuram fazer o que nunca tiveram oportunidade e atravessar os últimos dias em felicidade. Alguns procuram solução onde nunca julgaram procurar. Alguns acolhem a notícia e esperam não sofrer até ao último suspiro e alguns procuram abreviar o seu sofrimento e o sofrimento para que são arrastados os que lhe são próximos.
Quando Isabel Galriça Net, deputada do CDS, diz que não se pode falar levianamente sobre eutanásia porque ela tem efeito nas pessoas que rodeiam o sujeito que quer abandonar a vida, é preciso recordar a senhora que esse sujeito é um doente terminal para o qual não há cura e a sua família e amigos JÁ estão embrulhados no pesar. As únicas diferenças residem no quão degradada e degradante chega a vida do moribundo, quanto e durante quanto tempo arrastará essa degradação todos os que o rodeiam e a data do funeral.
Em Portugal a morte é um tabu. Os novos não acreditam na sua existência e os velhos, afinal já devem anos à cova. Portanto fica-se num limbo (já abolido pelo Vaticano) em que não se faz grande coisa sobre os temos do desagrado comum, para o caso a morte.
Ainda antes de falarmos sobre eutanásia deveríamos garantir cuidados paliativos para todos os que precisem. E não me refiro a subsídios a instituições privadas ou IPSS’s. A malta de berço de ouro tem acesso a cuidados paliativos porque pode pagá-los.
Quem não os pode pagar no privado é que fica condenado a um quarto do IPO – se tiver sorte – ou vai para casa e aguarda pacientemente que um tumor o vá comendo lentamente por dentro entre uma sessão e outra de quimioterapia que muitas vezes só servem para iludir o paciente.
Muitos, senão a maioria, não querem abdicar de nenhum segundo de vida e se assim é, que sejam providenciadas todas as condições para que o sofrimento seja minimizado ou até anulado.
Alguns de nós, os vivos, pensam de outro modo. Podem considerar que já cumpriram com a sua missão, ou que já sofreram o suficiente para terem de sofrer mais um pouco, ou que lhes falta as forças e a coragem para os mementos finais ou simplesmente não querem, nem para si nem para os seus familiares, a visão da decadência humana, o definhar de dia para dia, o fim do controle sobre o corpo, a incapacidade de se locomover, da sua higiene, a incontinência… e perda de consciência e do reconhecimento de si próprio.
Para quem já ouviu falar em eutanásia mas não sabe muito bem o que é ou a etimologia da palavra, eutanásia é constituída por Eu “boa” thanatos “morte”, ou seja, abrevia-se a vida para que não se chegue à morte através do sofrimento.
Se a vida foi condicionada pelo desejo dos seus progenitores e a morte é uma condição da vida, o que não pode ser condição e deve consagrar na liberdade individual é a possibilidade de ter uma boa morte ao abrigo da vontade do que morre.
O sujeito que deseja abreviar a sua dor já o faz hoje. Chamam-lhe suicídio e depois de morto dizem “coitado, tinha um cancro…”.
A diferença é que hoje o sujeito pode sofrer muito mais para morrer ainda que durante menos tempo ou pode durar o mesmo tempo com mais sofrimento que lhe é adicionado por um suicido ou eutanásia falhada.
O sujeito que quer acabar com a sua vida, acaba com ela de um modo ou de outro, numa ou varias tentativas. Este sujeito, o doente terminal, para alem da motivação sabe o seu prazo de validade, não quer ser passa de gente, não quer sofrer nem fazer sofrer.
Que se faça a vontade ao que parte e deixe-se partir à sua vontade e dignidade.
A liberdade não é algo que se referende. É um direito por defeito sobre a única propriedade que é exclusiva a cada um de nós.

 

Publicado originalmente em 15-02-2016