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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Eu não sou racista, mas…

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O autocarro vinha cheio, como é habitual num dia útil pela manhã. Eu estava de pé quando vagou um lugar. No entanto, ao perceber que na paragem entrava uma senhora de idade, faço um compasso de espera para perceber se pretende sentar-se. A senhora passa pelo lugar e por mim e faz questão de ficar de pé. O lugar vago era um daqueles bancos duplos, onde as pessoas se sentam de costas relativamente ao sentido da marcha. Pensei que a senhora pudesse não gostar de viajar daquela forma, como aliás é usual. Assim, decidi tomar o lugar vago.

 

Na paragem seguinte vagou outro lugar o qual foi prontamente ocupado pela senhora de idade. Nada de anormal se o lugar não fosse idêntico ao anterior, ou seja, num banco duplo e de costas… Apenas uma diferença entre estes dois casos. No primeiro o lugar do lado era ocupado por uma senhora negra, no segundo era ocupado por uma senhora caucasiana.

 

Podem dizer que não tem nada a ver; que a senhora cansou-se de estar em pé, que preferiu dar primazia a que já estava no autocarro, que teve uma tontura ou uma mudança de vontade. Todas as explicações são válidas. Posso estar a ser profundamente injusto ao vislumbra um gesto preconceituoso neste episódio. Mas a realidade é que se andarem atentos no dia-a-dia deparar-se-ão com inúmeros pequenos exemplos similares a estes. E por não serem evidentes são tão ou mais graves, pois perpetuam o eco da xenofobia, numa sociedade que insiste em negar a sua existência.

 

São estas ocasiões que me relembram aquele célebre início de frase com que determinada pessoa pretende enunciar a sua tolerância: “Eu não sou racista, mas…”

 

Montijo, 12 de Fevereiro de 2016