Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Ética empresarial ou O Estranho Caso dos Estágios Profissionais

Em verdade não posso afirmar estar surpreendido com esta notícia - http://www.jn.pt/nacional/interior/patroes-obrigam-estagiarios-a-devolver-salarios-5350110.html. Desde a primeira hora em que foram criados os estágios “bonificados”, que suspeitei que algo parecido viesse a acontecer. Nunca vi com bons olhos a criação artificial de emprego. É até perverso que se cortem lugares e a possibilidade de contratação em serviços públicos carentes de funcionários, para depois se financiar estágios profissionais na iniciativa privada. O actual governo já devia ter feito alguma coisa para alterar esta situação.

70. Ética empresarial ou o estranho caso dos est

 

No entanto, embora não me declare surpreso, sinto-me escandalizado com este assunto. Isto revela a classe de empresários que temos no nosso país. Na sua generalidade são pessoas mal preparadas e muito mal formadas. Só assim se justifica o cúmulo de solicitar a devolução do valor subsidiado pelo Estado ao abrigo destes estágios profissionais. Para se ter uma noção dos valores que envolvidos, um estagiário pode receber entre € 419,22 (correspondente ao Indexante dos Apoios Socias – IAS) e € 691,71 (1,65 vezes o IAS). Uma fortuna, portanto. O Instituto de Emprego e Formação Profissional financia 65% a 80% deste valor. Pode chegar mesmo a 95%, mas apenas em caso específicos, como de pessoas com deficiência. Assim, o empresário que contrata estagiários e exige a estes a restituição do valor participado pelo Estado ainda recebe pelas pessoas que tem a trabalhar para si.

 

Irrita-me acima de tudo, a forma ligeira como está a ser tratada esta polémica. Para além do monte de ilegalidades cometidas, estes empresários tiram partido de pessoas que agora iniciam o seu trajecto profissional. E é este o primeiro cartão-de-visita que recebem quando entram para a chamada vida activa. O chico espertismo e a ganância como forma de vencer na vida. São estas as primeiras lições recolhidas. É moralmente asquerosa a ética empresarial portuguesa

 

Em muitas profissões os estágios são essenciais e noutras são mesmo obrigatórios. Portanto, os jovens muitas vezes não têm outra solução senão aceitar as regras impostas pelos patos bravos. Gostaria no entanto de apelar a que as vítimas deste esquema denunciassem a situação junto das entidades competentes. Só com queixas formalizadas os prevaricadores podem ser investigados e responsabilizados pelos seus actos. Não podemos continuar a pactuar com este estado de coisas. Assobiando para o lado e esperar a nossa vez na cadeira do poder, para continuar a perpetuar este ciclo de abuso e exploração dos trabalhadores. Essa não é a solução para por cobro a semelhantes atropelos.

 

Hoje tenho o que gosto de apelidar de um normal vínculo de trabalho. Rejeito liminarmente o rótulo de privilegiado. Até porque isso é alinhar na retórica neoliberal de que o mundo mudou e que a relação laboral tem hoje de ser outra, leia-se, sem qualquer segurança ou dignidade nas funções e retribuição monetária. Mas sei muito bem o que significa ter um vínculo precário ou mesmo não ter qualquer vínculo. Passei por aí e não gostei. Sei que é difícil viver na constante dúvida, sempre a necessitar comprovar o nosso valor mais que provado. Sempre numa posição de subserviência para ter um amanhã viável com um mísero salário no bolso. Mas sei também que isso não tem de ser assim. Principalmente se todos os trabalhadores, cientes e cumpridores dos seus deveres, exigirem e lutarem pelos seus direitos.

 

Uma última nota para alguns arautos que andam por aí a declarar que esta notícia é uma espécie de cortina de fumo para distrair a opinião pública da descida da taxa de desemprego. Mesmo dando de barato e alinhando nesta teoria da conspiração, dar destaque a situações relacionadas com a exploração laboral apenas podem pecar por defeito, nunca por excesso! Todos sabemos muito bem o tipo de emprego, principalmente ao nível do vínculo contratual, que tem sido criado nos últimos tempos. Afinal, quem precisa de um emprego onde se paga para trabalhar?

 

Montijo, 23 de Agosto de 2016

1 comentário

Comentar post