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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Estranhamente português...

 

 

Portugal e os portugueses formam uma identidade francamente estranha. Passam o tempo a reclamar da sua pequena dimensão e ao mesmo tempo a relembrar as grandes vitórias.

Curiosamente tudo isto é verdade e Portugal ao longo da sua história tem estado envolvido nas grandes mudanças do mundo, muitas vezes sem se dar conta disso.

Um dos grandes eventos foi o início da globalização. Os genes portugueses são hoje um produto disperso pelo mundo devido a essa necessidade de alargar horizontes. Demos muito mais do que novos mundos ao mundo, iniciamos o processo de transferência cultural entre todas as partes do mundo. Devíamos tributar sobre isso…

Por outro lado somos igualmente responsáveis, ainda que de modo indirecto, pelo capitalismo e liberalismo.

Portugal fez-se ao mar, diz o mito que foi para levar a palavra de Deus a todos os cantos do mundo, mas diz a realidade que a questão era mais mundana, precisávamos de dinheiro e não podíamos atacar os territórios que hoje fazem parte de Espanha. “Deus” não deixava e na altura “Deus” era francamente influente na política europeia!

Fizemo-nos ao mar, e ao contrário de outros impérios, não fomos lá para conquistar mas sim para fazer nascer praças comerciais.

Em pouco tempo estávamos em todo o mundo e a fazer comércio do modo mais eficiente até ai visto.

Em menos de nada (na dimensão histórica) os outros também quiseram o seu quinhão. Com Espanha dividimos o mundo no Tratado de Tordesilhas (1494), Os ingleses, franceses e holandeses também reclamaram a sua parte.

Portugueses, espanhóis, Ingleses e franceses fizeram-se ao mar patrocinados pelo dinheiro dos cofres reais. Na Holanda a história foi um pouco diferente.

Em 1602 é fundada a Companhia Holandesa das Índias Orientais e em 1609 nasce o Bando de Amesterdão que tinha por finalidade o financiamento do comércio marítimo.

Os comerciantes holandeses não tinham, individualmente, capacidade de construir e enviar navios para o mar. A este facto era preciso considerar que naquele tempo o mar era uma verdadeira aventura e existia uma boa probabilidade do navio não regressar. O risco era elevado para um investimento tão grande.

Inventaram os accionistas. O custo do navio era dividido por diversos comerciantes. A margem de risco era reduzida e cada um teria o lucro correspondente ao seu investimento inicial.

Investir para recolher lucros é o princípio básico de qualquer investimento desde o senhor que abre um café na esquina do bairro até à grande empresa com centenas de funcionários.

Mas os mercados de valores deixaram de ser uma parcela e passaram a ter o papel principal dos nossos dias. Pior que isso, deixaram de ter por objectivo um investimento inicial para um provável lucro final para um processo que permite a transacção das acções a meio da viagem com base em especulação. Passámos a ter todo um conjunto de pessoas que não produzem rigorosamente nada e que vivem apenas das subidas e descidas do valor das acções. Se estas questões se ficassem pelas questões da gestão de uma empresa e dos seus accionistas, o mundo viveria tranquilo. Mas estas questões têm influência na vida de todos nós moldando o custo do dinheiro, o peso da balança comercial, a saúde financeira de um país ou a falta dela, as subidas e descidas do desemprego, a degradação da qualidade de vida do trabalhador.

Se de modo indirecto acabámos por causar o início deste tipo de negociação, será talvez altura, através de um processo directo, começar a corrigir este tipo de modelo económico.

É consensual quer pelas ideologias mais à esquerda quer mais à direita que a especulação corrói os mecanismos reguladores. Sabemos que é da natureza humana aproveitar-se sempre que possível, mesmo quando a cousa é regulamentada.

A única solução é acabar com a hipótese de se fazerem trocas de acções à la carte e responsabilizar o dono da acção pela posse da mesma para o bom e para o mal. Se o accionista se preocupa em recolher os seus dividendos, tem também que ser responsabilizado pelos prejuízos e danos causados pela empresa pela qual é accionista.

Casos como o BES ou PT não podem ficar impunes nem se pode colocar a responsabilidade, ainda que efectivamente exista, em cima de uma única pessoa sendo que ela lá está porque foi aprovada pelos restantes accionistas.

A transacção mobiliaria tem de ser tributada com tal força que deixe de ser apetecível viver do ar. Quem investe numa empresa tem de o fazer, naturalmente tendo em vista o lucro, mas o lucro responsável e sem esperar enriquecer da noite para o dia, ou vice-versa, porque alguém plantou a palavra “boom” ou “crise”.

Defendo, como sempre defendi que empresas estratégicas para o país devem estar debaixo da alçada do Estado. Por algum motivo se chamam de “estratégicas”. Isto não quer dizer que exerça poder que vá para além do poder de regulador no resto das empresas. No entanto a sociedade deve acautelar o bem comum numa co-responsabilização de actos. Se há cancro na nossa sociedade, ele encontra-se nas Bolsas de Valores.