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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Essa vidinha?

O relatório é da OCDE. Chama-se “Como vai a vida?” (How’s Life? no original) – título sem dúvida sugestivo. Tenta fazer uma análise do bem-estar populacional com base numa vasta bateria de indicadores. O estudo (notícia do Público aqui) defende que são vários os factores que influenciam a vida das pessoas e que passam muito para além do PIB. Adianta também que aos decisores políticos não cabe apenas impulsionar o crescimento económico, mas também desenvolver estratégias que melhorem a coesão social e o bem-estar das pessoas.

 

Ficamos a saber que a vidinha não vai bem por este cantinho. A título de exemplo adianta-se que “o rendimento médio disponível das famílias baixou 8,9% entre 2009 e 2014 e encontra-se bem abaixo da média da OCDE”. Existe também “um risco acima da média de ficar desempregado, sendo o desemprego de longa duração de 8,3%, bastante acima dos 2,6%”, média dos restantes países. Nada que não intuíssemos já por experiência própria.

 

Mas gostaria de me debruçar sobre um aspecto em particular. Falo dos designados “horários longos” laborais. Considera-se como horário longo, aquele que, por rotina, implica 50 ou mais horas de trabalho semanais. Em Portugal, 9,6% da população empregada em 2013 estava dentro desta categoria. Isto contra os 5,2% no ano de 2009, quase duplicando o número de empregados com horários laborais longos em 4 anos. É isto do que se fala quando se diz que os portugueses passam horas demais no local de trabalho. Aqui levanta-se a ponta do véu nesta matéria, concluindo-se que quase 10% da população empregada tem jornadas laborais longuíssimas. E esta é a parte que está documentada...

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Fica assim exposta umas das faces da pressão brutal a que os trabalhadores têm estado sujeitos desde o início da crise. Por um lado, as constantes alterações legais aos diplomas que regem o trabalho e que retiram cada vez mais direitos. Por outro, a pressão quotidiana fomentada nas empresas e serviços que exigem cada vez mais das pessoas e que lhes dão cada vez menos. Estes atropelos implicam grandes sacrifícios pessoais. A ausência de tempo para a família ou para a normal convivência social é um deles e isso traduz-se numa minoria óbvia da qualidade de vida. Mas também deverão ser ponderados os danos na saúde que os horários longos poderão causar. O aumento do stress e a diminuição do tempo de descanso e de sono, não ajudarão ao equilíbrio físico e mental do indivíduo.

 

Ironicamente, esta exigência cada vez maior de permanência no local de trabalho poderá significar que, no final do ano, entre baixas e faltas, o trabalhador estará menos tempo ao serviço e sem a disponibilidade necessária à tarefa. O que por ventura resultará, numa menor produtividade em relação a quem detenha um horário laboral de 35 ou 40 horas semanais.

 

Frequentemente recorre-se a exemplos de terras do Norte Europeu para fundamentar esta ou aquela decisão. Da Suécia surgem notícias de soluções em contraciclo. Por lá, os horários laborais estão legalmente fixados nas 35 horas semanais. Esta é a bitola. Recentemente começaram experiências em serviços públicos de cidades como Gotemburgo, nas quais se testa o horário de 30 horas semanais. Os resultados destas experiências estão a ser animadores e os responsáveis acreditam que no final as pessoas estarão mais felizes, empenhadas e com mais tempo livre para dedicar ao que julgam mais importante, e tal reflectir-se-á no aumento da produtividade e na diminuição de faltas e baixas médicas. Mas que não se pense que este modelo é exclusivamente defendido para o sector público. A sucursal da Toyota nesse país, por exemplo, implantou a jornada laboral das 30 horas semanais há 3 anos e nada indica que pretenda reverter esta situação. Os trabalhadores mantiveram o nível salarial e foram contratadas mais pessoas para colmatar as falhas de horário. Segundo dizem, os ganhos de produtividade compensaram o investimento.

 

Cai assim um mito. Trabalhar mais horas não significa mais produtividade e nunca significou mais qualidade. Por cá vai-se fechando os olhos a essa evidência, como confirma o relatório da OCDE. A qualidade do nosso trabalho continua a ser medida pelo número de horas que passamos no emprego. Junto do patrão fica sempre bem visto o funcionário que sai mais tarde; que às 19 horas ainda está à volta dos papéis. Enquanto isso, o seu camarada que desempenha as mesmas funções e faz o mesmo serviço dentro do horário normal de trabalho, que entra e sai a horas, fica rotulado de “mau colaborador”. É evidente que esta mentalidade não mudará da noite para o dia. Será um caminho longo. Tratemos portanto da nossa vidinha, mas coloquemos um travão aos abusos. Aos poucos, devemos alertar as pessoas para esta temática. Pode ser que quando os nossos descentes comecem a tratar da sua vidinha, as mentalidades já estejam diferentes.

 

Concluindo, já que não há dinheiro, como nos dizem, que haja tempo para gastar. Teremos sem dúvida uma vidinha mais completa e feliz...

 

Montijo, 15 de Outubro de 2015