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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Envelhecendo tentando não perder o rumo.

 

Na época 88/89 entrei para a Escola Preparatória de Rio de Mouro. Na altura faltava quase tudo inclusive o nome de um patrono. Não havia alcatrão, a eletricidade e a água faltavam com frequência e até greve fizemos por falta de segurança, mas ainda havia a PGA!

Sim, eu sou da geraçao rasca.

A preparatória tinha pavilhão de física, mas não tinha refeitório nem campo polidesportivo. A secundária, mesmo ao lado, tinha refeitório, campo polidesportivo, mas não tinha pavilhão de física.

Isto quer dizer que tínhamos de ir almoçar, com 10 anos, à secundária no meio de malta muito mais velha. Recordo-me de um dia ir almoçar e estarem dois tipos vestidos de calças elásticas de ganga, botas Doc Matens, um casaco com uma estampa nas costas de Iron Maiden, vários alfinetes-de-dama no casaco e algumas correntes a fazerem-nos a vida negra. Naquele tempo e naquela idade não entendia aquele trajar nem sabia o que era Iron Maiden.

Com o passar dos anos as escolas foram tendo melhores condições e o gosto musical foi-se adquirindo enquanto se entrava pela adolescência e anos mais tarde era eu a trajar-me de vestes negras (mas sem artifícios metálicos).

No outro dia fui a casa de um amigo e no conversa-puxa-conversa não sei bem como, acabou-se no youtube. Em menos de nada estava cada um a puxar pelo nome de uma musica que se lembrava e vendo bem estávamos a puxar de musicas com 20 ou mais anos. Não tenho nada o espirito de dizer “boa musica era naquele tempo…” mas não posso ignorar que foi naquelas musicas, naqueles discos em que se liam as letras de ponta a ponta e em que não havia internet, que cresci.

As conversas da malta de meia idade, quando toca a bandas “daqueles” tempos acabam sempre “gostava até ao álbum X, mas depois tornaram-se comerciais…”. Um exemplo fácil é Metallica que por regra desconhecem o “Kill em All”, mas dizem que foi banda até ao álbum “Metallica – Metallica” (o preto) e depois deixou de ter encanto.

Porque o exemplo desta banda é simples e conhecido vou limitar-me a esta banda.

Pelo principio da década de 90 via incansavelmente a K7 de VHS de “A Year and a Half in the Life of Metallica “. Tentava-se imitar os acordes e de uma qualquer forma absorver um pouco daquelas vidas. Por esta altura comprava-se a revista Bravo alemã para rechear a parede do quarto de pósteres “fixes”.

Hoje, quando vejo Metallica no youtube o James parece um Tintim velhote, o Lars não sei se é um lenhador ou um sem-abrigo e o Kirk parece a cabeça do “Secret of Mokey Island”.

Parece que houve um desalinhamento qualquer em que as “nossas” bandas mudaram e os seus elementos ficaram velhos e nós ficámos na mesma. Mas basta voltar à vida real e também nós deixámos de ter borbulhas no rosto, ganhámos uns quilinhos, filhos, vidas profissionais, uns pintam o cabelo, outros ficaram carecas e outros grisalhos.

O problema da má interpretação do passar dos anos poderia resumir-se à musica, no entanto não é bem assim. Por qualquer motivo que desconheço há uma parte funcional do nosso cérebro que nos incute a ideia de sermos eternos e imutáveis.

É a única explicação racional para o comportamento humano face ao mundo e aos outros.

Passo a justificar:

Tenho uma dificuldade enorme em convencer as pessoas sobre a logica da reciclagem. Por muitos, todos, os argumentos que apresente parece que o dia de amanhã ou é irrelevante ou o impacto ambiental da nossa pegada ecologia é apenas um mito.

Tanto assim é que Donald Trump foi eleito como Presidente of USA depois de dizer isso mesmo.

Mas na mesma lógica de inexistência temporal ou intemporalidade do sujeito, tratamos os outros como se fossemos eternos. É isso que justifica o apoio ao nacionalismo onde se reforça que nós e os nossos são melhores que os outros e por isso temos de estar devidamente separados. Salazar advogou o “orgulhosamente sós” e Hitler colocou essa filosofia em prática. Imaginemos num mundo paralelo onde o fascismo se tivesse vingado, em que cada país se julgasse superior ao outro. Numa espécie de jogo do Risco, mais cedo ou mais tarde apenas um sobreviveria.

A verdade é que as bandas da minha, da nossa, juventude envelheceram tal como nós e eventualmente eles, como nós, daremos por terminado o nosso contributo na forma humana e outros nos seguirão.

Uma expressão popular resume perfeitamente tudo o que disse acima: “No fim do jogo, Rei e peão, voltam ambos para a mesma caixa.”.

Se assim é, porque passamos o tempo a promover a discórdia, a guerra, a destruição, quando sabemos que esses nossos atos de resultados imediatos podem comprometer severamente as gerações futuras?

Como eleger lideres que não farão mais do que promover a degradação, a guerra e a miséria?

Há pouco tempo, falava eu destas minhas considerações com um camarada comunista. Normalmente estamos em desacordo, sobretudo desde que a PaF foi afastada por cá do poder, mas dizia ele “Percebo-te… todos os dias quando acordo tenho de reforçar a energia para continuar a luta por um mundo melhor… “

E é isso, é preciso não perder a fé na humanidade nem perder o objetivo de vista.