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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Enfrentando o IV Reich

 

Para quem me acompanha há mais tempo não terá duvidas que vejo a Europa como um espaço comungado por europeus e não pelo conjunto de países que partilham um espaço físico. Um espaço comungado, solidário, democrático, livre, responsável, sustentável e que em momento algum a dignidade humana se subjuga a qualquer outro valor.

Quem me acompanha há mais tempo sabe que esta visão é de nível mundial ainda que reconheça que o caminho é demasiadamente longo para o meu período de vida útil. A não ser, claro, que sejamos invadidos por extraterrestres e se crie uma união artificial em defesa de um bem comum. Mário Centeno talvez saiba de algo que eu desconheço… Pelo menos Duarte Pacheco do PSD lá foi ouvindo falar sobre os ditos.

Ainda que esta seja a minha utopia, a verdade é que as provações são mais que muitas e às vezes quase que se sente a força de lutar a esvair-se por entre os dedos das mãos.

Rui Tavares dizia no DiEM25 que nos consideram a nós, espanhóis, gregos e italianos como países periféricos porque somos a fronteira com os azarados que vivem do lado de lá do mediterrânio. Concordo com tudo excepto no motivo.

Ao longo da história assistimos ao nascimento e à morte de muitos impérios. A capital era o seu centro e a fronteira com os territórios que não faziam parte do império seria a periferia.

Fomos quase sempre a periferia de diversos impérios sobretudo por estarmos no extremo de uma península que durante muito tempo foi o fim do mundo conhecido.

Só deixámos de ser a periferia para o nosso próprio império onde passámos de periferia a centro e fomos até epicentro cultural e comercial. Também o nosso império caiu e vivemos hoje num mundo diferente em que o poder não se exerce apenas pela força das armas. Pela força da economia a Europa vive no meio do IV Reich alemão e a disputa pelo domínio deste território tem os protagonistas do costume, França como oposição e Grã-Bretanha que no seu espirito já conhecido pelos romanos quer controlar o seu próprio poder e a sua própria vivencia sem querer ceder aos continentais.

Nós somos o limite mais longínquo do que Berlim considera ser o seu império e por isso somos periféricos. Para os norte-americanos a periferia mede-se de modo diferente, onde exercem o seu poder geoestratégico. A periferia fica encostada às fronteiras dos países que não alinham na sua “democracia” e na sua “liberdade”.

Este facto é hoje mais transparente que a água.

Wolfgang Schäuble disse hoje: “Estamos atentos aos mercados financeiros e acho que Portugal não pode continuar perturbar os mercados ao dar a noção de que está a recuar face ao caminho percorrido. (...) Isso seria muito perigoso para o país”.

A ameaça é proferida pelo ministro das finanças do império. Este império faz lembrar um pouco a série sobre a mafia italiana “o polvo”.

Ao ser apresentada esta peça na SIC, José Gomes Ferreira dava voz à ideologia e dizia que Centeno tinha de aplicar mais medidas de austeridade porque senão os juros sobem. Demonstrou conhecimento nas CDS e Swaps mas esqueceu-se de dizer que os juros sobem e descem não pelo desempenho dos países mas pela especulação. Alias, ele mesmo disse que quando Wolfgang Schäuble diz que os mercados ficam nervosos, eles ficam mesmo. Mas disse mais. Disse que se os juros não sobem mais é porque Maria Luís Albuquerque deixou os cofres cheiros (de vento).

É preciso muita desonestidade intelectual para proferir uma afirmação destas quando todos tomámos conhecimento que os cofres estavam afinal vazios.

Pior, nem os portugueses receberem o reembolso da sobretaxa como se vão descobrindo mais e mais buracos tal como se soube recentemente a propósito do SNS.

Um pouco por toda a Europa temos assistido a diversos países da UE a furar as regras e isso não lhes trouxe nenhuma consequência concreta. A verdade é que praticamente todos os países saltam as regras quando querem e a UE não move uma palha.

Chamar-nos de periféricos tem diversos significados. O primeiro leva-nos um pouco para o conceito de raça em que na periferia moram uns sujeitos inferiores e por isso erram mais e como tal precisam ser forçados a compreender a doutrina dominante.

O segundo é que um país ao extremo do império pode perfeitamente servir de exemplo como um peão num jogo de xadrez. Se for sacrificado não trará grandes danos para o império. Este exemplo tanto é ideológico como económico. Portugal, tal como a Grécia, não PODE aplicar medidas políticas e económicas que divirjam da ideologia imperial. Se o fizerem, o poder instituído entrará em cena de modo directo ou indirecto para corrigir o problema, doa a quem doer. Não se pode correr o risco de tornar a ideia contagiosa.

Se o problema se encontra, não na UE mas no modo como ela é gerida, a solução não pode de modo algum passar pelo regresso ao “orgulhosamente sós”.

Regressar ao passado é um gigante retrocesso civilizacional, um regresso ao nacionalismo e ao extremar de posições nacionais e ideológicas.

Conhecemos bem onde esse caminho nos leva. Foi assim que tivemos duas guerras mundiais e uma guerra fria que se pensava acabada mas que se sente cada vez mais viva.

Não sei se o DiEM25 alberga a solução. Sei que é uma iniciativa de louvar porque procura encontrar as respostas para as perguntas certas.

Estarei atento, como sempre, e marcarei presença na luta contra impérios sejam eles de que formato forem.