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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Do pouco que temos

E assim vamos. Ensimesmados e preocupados com nossos botões. Pouco importa o regime angolano e a prisão ilegítima de seus opositores; a guerra na Síria e a crise de refugiados; as escolhas do povo grego e as imposições por parte da União Europeia; os problemas ambientais e consequentes alterações climáticas; a fome do país e o número cada vez maior de pessoas abaixo do limiar de pobreza. Concentrados que estamos em preservar o pouco que temos, desvalorizamos tudo o resto.

 

Esse desprendimento do que nos rodeia é-nos induzido. Somos formatados para pensar assim. Devemos unicamente pensar nos nossos interesses, nada mais. Na escola, no trabalho e na própria família, o culto do individualismo ganha terreno. Este egoísmo não é mais do que uma reacção à conjuntura com que nos deparamos no dia-a-dia. Tudo se baseia na competição. Os melhores, ou antes, os que se movimentam melhor, prosperam, os outros – mais fracos – empobrecem. E deles não reza a história...

 

O neoliberalismo alimenta-se disto e ao mesmo tempo alimenta também o sistema. É a simbiose perfeita. Porque há sempre alguém disposto a desgraçar a vida de umas centenas ou milhares, a troco de melhores condições para si mesmo. Enquanto esse caminho foi sendo percorrido (e já o é há vários anos, não é de agora), pessoa a pessoa, sector a sector, milhões de indivíduos viram-se perante a urgência de proteger o pouco que restava. Honestos e dependentes do seu trabalho, acordam um dia para o medo. A intermitência constante de não saber o dia de amanhã. Dedicados à arte da sobrevivência experimentam o terror da insegurança quotidiana.

 

O trabalho, a escola, a saúde, a justiça, já nada é garantido. Ao menos sobra a Liberdade, alvitram os agiotas. Como se o sistema não estivesse suficientemente viciado, para adivinharmos sempre o final do filme. Mesmo quando a coragem rompe este manto invisível de ocultos poderes, existe sempre alguém mais a montante que fecha a torneira, deixando-nos sequioso e à beira da desidratação. Vide os gregos.

 

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Mas não nos podemos resignar. Há que lutar; lutar sempre! E pedir muito; tudo o que temos direito. A devolução dos cortes salariais e de reformas, o fim dos impostos abusivos e uma política fiscal mais justa, um serviço nacional de saúde universal e tendencialmente gratuito (e não tendencialmente pago), uma escola pública gratuita e de qualidade, um ensino superior gratuito para os mais desfavorecidos, o acesso à justiça e a recensão crítica do novo mapa judiciário, a possibilidade de implementação de um Rendimento Básico Incondicional pago a todos os cidadãos, a devolução da dignidade e segurança no vínculo laboral, o aumento do salário mínimo, a jornada laboral de 35 horas semanais para todos, o apoio efectivo às famílias para que se possa traduzir num aumento da natalidade, a defesa dos transportes públicos que façam justiça ao sem nome... Entre muitas outras coisas que se possam lembrar.

 

Para isso temos de exigir a aplicação de políticas progressistas que nos possam devolver e melhorar o nível de vida e ao mesmo tempo combater a imensa desigualdade. Se há uma lição a tirar dos últimos anos é que se nos agarrarmos somente ao pouco que temos, acabaremos, muito provavelmente, por ficar sem nada... Sejamos ambiciosos, exijamos o máximo.

 

Montijo, 12 de Outubro de 2015