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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Ditadores e revolucionários

Costumo reflectir sobre a legitimidade de impor regimes ou sistemas políticos a terceiros. Temos para nós a ideia que a democracia é o melhor sistema político e o mais evoluído. Com as suas nuances, esta pode ser parlamentar, presidencial ou uma mescla, mas no final do dia obedece à votação do povo, cuja vontade é soberana. Pessoalmente, acredito que “a democracia é a pior forma de governo, à excepção de todos os outros (…)”, tal como afirmou Winston Churchill. Mesmo assim custa-me, como já indiquei, a sobranceria de impor essa forma de organização a outros países. Mas, acima de tudo, indigna-me a incoerência como nos relacionamos, como país e como União Europeia, com diferentes ditaduras e falsas democracias. Isto também é verdade na posição perpetuada pelos partidos tradicionais, que antes de analisarem o tipo de regime ou a ausência democrática, vislumbram o alinhamento ideológico para com a sua doutrina.

 

Consoante o nosso interesse económico ou estratégico fechamos muitas vezes os olhos a determinados regimes ditatoriais. O caso de aceitação de entrada na CPLP da Guiné Equatorial é disso exemplo. O regime de terror imposto por Obiang foi propositadamente colocado em segundo plano, face aos barris de crude que fluem de seu território, um dos maiores produtores de petróleo da áfrica subsaariana. A China também tem sido parceiro de negócios de eleição, país que atropela constantemente os direitos humanos e onde se vive sobre um regime de partido único.

 

Simultaneamente, outras ditaduras são colocadas no outro prato da balança. É o caso da Coreia do Norte ou de Cuba. Como se houvessem ditaduras boas e ditaduras más… Esta é a hipocrisia da nossa sociedade, denominada de livre. O continente europeu é useiro e vezeiro neste tipo de situações. É certo que por todos os estados é o sistema democrático que vigora. No entanto, em muitos países ainda se alimentam monarquias. Não deixa de ser paradigmático que países que acreditam que o sistema democrático é o mais evoluído e o que melhor responde aos anseios da população, impondo essa crença a todo o custo, depois pactuem com sucessões dinásticas, onde o chefe de estado é escolhido apenas por uma questão de ADN.

 

Também é paradigmática a posição para com os regimes que ostentam “democracias de fachada”. É o caso de Angola, conhecida pelos constantes atropelos às liberdades individuais e pelo nepotismo e corrupção reinantes, ou da Turquia, membro da NATO e receptor de refugiados para a UE, que caminha a passos largos para o totalitarista.

 

Toda esta dissertação surge na sequência da morte de Fidel Castro e de tudo o que vem sido dito e escrito sobre a mesma. Há quem tente branquear o facto de ter implantado uma ditadura, anunciando as áreas da saúde e do ensino como atenuantes, e há quem o tente rotular como o maior sanguinário de todos os tempos. Na minha opinião é patética e desnecessária esta discussão. Tal como não existem ditaduras boas ou más, também não existem ditadores melhores ou piores. O adjectivo carrega em si todo o peso pejorativo que se lhe reconhece. Nada mais há a acrescentar.

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Fidel Castro cresceu revolucionário, mas fez-se ditador. É certo que nos tempos primordiais, em que era urgente depor o regime absolutista de Cuba, foi indispensável o recurso às armas. Esses foram tempos em que Fidel e seus companheiros se moviam por ideais e pela edificação de uma sociedade livre. Tudo o que se passou a seguir, ou seja, a substituição de uma ditadura por outra, foi uma opção. Muitos a defenderão mercê da conjuntura e dos condicionalismos geo-políticos. Eu acho profundamente errada e até mesmo “traidora” dos princípios de uma revolução que pretendia libertar o povo e não apresentar-lhe uma prisão remodelada.

 

É usual apontarem-me que todos os revolucionários se tornam ditadores. Nessas alturas costumo relembrar Mandela. Também ele se fez revolucionário e viu-se perante a inevitabilidade de abraçar a luta armada contra o brutal regime de apartheid da África do Sul. Mas, quando o seu tempo chegou, não se fez ditador; fez-se moderador e pacificador! Constituiu-se em cimento daquele grande e diverso país e com essa presença de espírito conduziu a nação na transição para a democracia, impedindo um banho de sangue e ganhando o respeito de todos. Hoje, dia 5 de Dezembro de 2016, faz 3 anos que faleceu Nelson Mandela. Esse sim, um exemplo a recordar e seguir.

 

Montijo, 5 de dezembro de 2016