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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Desesgotar a Geringonça

Os acordos à esquerda estão a ficar esgotados? - a questão tem vindo a ser, cada vez mais, recorrente. Os partidos da Geringonça negam-no, mas para, por exemplo, P. Passos Coelho e Arménio Carlos (duas personagens difíceis de confundir), a resposta é afirmativa. Se, por um lado, o assunto tem vindo à baila a propósito do impacto político e mediático da revogação da descida da TSU - antecipada e sucedida por várias outras divergências e faltas de articulação dentro da maioria parlamentar - também é verdade que grande parte das medidas inscritas nos documentos de «posições conjuntas» entre PS e Bloco, PCP e Verdes foram já cumpridas ou estão previstas no Orçamento de Estado de 2017. Podemos perguntar-nos como é que, no espaço de tempo curto de pouco mais de um ano, estes acordos tão marcantes estão já a ser considerados “esgotados”: foi falta de ambição?, excesso de prudência? ou não há nem havia, afinal, muito mais áreas e propostas em que as diferentes esquerdas estejam de acordo?

Talvez a resposta possa estar escondida atrás de um talking point muito apreciado à direita: o de que a Geringonça não passa de uma coligação negativa. Apesar deste argumento poder ser parafraseado como “fomos tão radicais e violentos que três forças que se odiavam mutuamente durante 40 anos se puseram de acordo só para correr connosco”, não deixa de ser verdade que, na maior parte das áreas da governação, os acordos assentam em larga medida na ideia de reverter a acção do governo PSD/CDS-PP - que se traduz num cancelar de medidas concretas ou, mesmo quando não é o caso, pelo menos em seguir como linha orientadora a ideia de reversão da austeridade. A importância do gesto de rejeição da PàF não deve ser menosprezada, mas, com a maturidade que a maioria de esquerda está a ganhar, faz sentido começar a pensar num novo plano. Há dois anos atrás, poucos concebiam como possível uma solução de governo com todos os partidos de esquerda; hoje em dia, tornou-se natural e rotina que PS, BE e CDU negoceiem compromissos diariamente. Chegou a altura de se ultrapassar a fase em que nos unimos por medo do regresso da direita e começar, sem prejuízo de se continuar a anular o mal que foi feito, a discutir uma agenda mais estruturada e coesa que possa responder à raiz de problemas.

Francisco Louçã propusera, ainda em Novembro, um novo acordo, que incidisse sobre o sistema bancário. Esta semana, o secretário-geral da CGTP pediu um compromisso à volta das questões laborais. Sobre que áreas incidiria, afinal, um entendimento mais alargado? E que forma assumiria? O que poderia estar em cima da mesa?

Para fazer um parêntesis e voltar um pouco atrás, pensemos na força relativa, por esses Europa e Mundo fora, de duas abordagens diferentes. Não é muito difícil, por exemplo, comparar o poder e popularidade de Bernie Sanders com o de Jeremy Corbyn ou Alexis Tsipras. Ou compreender que Benoît Hamon conseguiu gerar uma mobilização muito maior do que Arnaud Montebourg. Devemos olhar para estes exemplos de vários pontos de vista e ter em conta muitos, muitos outros factores; mas não creio que seja irrelevante a dimensão maioritariamente positiva ou negativa de cada projecto. E aqueles que vão para além da resistência aos cortes no estado social, do combate à desregulação financeira, da reversão da austeridade sobre a classe média, da luta contra o armamento nuclear e as intervenções militares (por exemplo), e dão mais um passo - seja esse o RBI, o salário mínimo europeu, uma transição energética, a expansão do serviço de saúde, etc - têm tendência a conseguir um entusiasmo maior. Num país como Portugal, assolado por anos e anos de crise, pessimismo e depressão, esse entusiasmo faz falta.

Nas circunstâncias actuais, e com os constrangimentos orçamentais que continuam a limitar a nossa liberdade de acção e a exigir do Governo um malabarismo difícil, não é imaginável que a esquerda se sente hoje à mesa para amanhã implementar um rendimento básico para todos, ou um sistema de ensino radicalmente diferente. Mas podemos, pelo menos, aproveitar o momento de indefinição para ultrapassar uma nova barreira, e começar a negociar um projecto transformador de longo prazo, uma espécie de agenda de esquerda para a década que inclua o acesso gratuito ao ensino superior, uma meta ambiciosa de produção de energias renováveis, a laicização total do estado, a implementação de mecanismos de democracia directa - etc, etc, etc…