Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Desculpa David Duarte, a culpa morre de novo solteira.

 

 

Desculpa David Duarte, a culpa morre de novo solteira.

Por norma tenho um certo amargo de boca com a imprensa porque esta gosta de mostrar o escândalo, mas nunca nos dá a resolução dos casos. Sinto eu que a coisa fica pendurada no ar sem desfecho algum, pelo menos para os que como eu esperam um final de preferência feliz.

Na verdade volto hoje a David Duarte, depois de em Dezembro de 2015 ter comparado a urgência em salvar o Banif face à ausência de urgência de salvar David Duarte, não porque se tenha concluído o caso, antes pelo contrário, não se concluiu coisa nenhuma.

.

Argumentei na altura que um médico ou um enfermeiro é antes de mais uma pessoa que para alem de uma formação especifica, continua a ter uma vida pessoal e que a aceitar fazer trabalho extra, este não é voluntário. Eles não se negaram a trabalhar, negaram-se ao trabalho extra depois do corte de 50% do seu valor.

Para determinado tipo de profissões, como é o caso, há SEMPRE uma urgência a chegar, é preciso garantir que existem pessoas suficientes para atender às urgências que chegam e equipas que se revezem sem ter de chegar à exaustão. Senão, em ultima instancia são os médicos e enfermeiros que acabam de baixa porque sucumbem ao excesso e exigências de trabalho.

O Ministério Publico (MP) conclui, e bem, que não houve culpa dos profissionais de saúde. No entanto conclui que:” Relativamente às responsabilidades políticas e civis ou administrativas por parte de dirigentes e administrações regionais ou setoriais, de Ministérios, entendeu o MP que as mesmas resultam de ato ou omissão no desempenho de cargo ou função e não de ato ilícito, culposo e punível”.

Neste ponto estamos, eu e o MP, em perfeito desacordo.

Disse Raúl Labrador, congressista republicano, que “Ninguém morre por não ter acesso a cuidados de saúde.”. Direi eu, numa La Palissada que se o sujeito tiver a sorte de não ficar doente, certamente não necessitará de cuidados de saúde. Se pelo contrário adoecer e o estado for grave, há uma crescente probabilidade de falecer por falta de assistência.

Eu e o MP descordamos profundamente quando este opina que nem sequer irá avaliar, em algo que em ultima instancia leva a morte outra pessoa, não é ilícito, culposo ou punível.

Citando a minha grande amiga Constituição da Republica Portuguesa:

“Artigo 64.º

Saúde

  1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.
  2. O direito à protecção da saúde é realizado:
  3. a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito; 
  4. Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado:
  5. a) Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de reabilitação; 
    b) Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde

    O serviço nacional de saúde tem gestão descentralizada e participada.”

 

O que aconteceu foi que, não por omissão, mas por ideologia e por pressões externas, o Governo encolheu o Estado Social, sobretudo a saúde e a educação.

Os cortes cegos foram intencionais e premeditados. No que toca à saúde, e foco-me apenas nisso neste momento, não se pode esperar que “epá aos fins-de-semana não aparece cá ninguém…  ou “epá, mesmo que o gajo venha apertado, mete-se a soro e o tipo aguenta até segunda-feira…”.

A morte de David Duarte foi homicídio deliberado e ponderado pelo Ministro Paulo Macedo, pelo Governo de Passos Coelho e pela Troika. Estes são culpados e é preciso acabar com o mito que o governante é apenas um mau governante ou que estes tinham boas ideias, mas saíram ao lado pela conjuntura. Estes são responsáveis pelos seus atos e precisam ser responsabilizados por isso. Salvaram a banca, mataram David Duarte.

 

É preciso acabar com as culpas que morrem solteiras. A Troika forçou cortes cegos, e ainda agora na saída do PDE (Procedimento de Défice Excessivo) as instancias insistiram que estava tudo muito bem, mas é preciso cortar mais, sendo que este Governo tem feito precisamente o oposto. Passos Coelho instigado pela Troika, pelos tostões e milhões, acatou a ordem, assinou o papel e cortou tudo o que pôde enquanto pôde.

Estes são os culpados, têm de ir à barra do tribunal, estes têm de ser responsabilizados pela culpa que é exclusivamente sua.

David Duarte não morreu porque o médico ou os enfermeiros não estavam com vontade de trabalhar, alias, nem sequer devia estar equacionado terem de fazer horas extra exceto em situações excecionais. David Duarte morreu por erro governativo grosseiro, por homicídio da parte de um governo que negligenciou, uma vez mais, as pedras basilares da constituição.

 

Que a culpa não morra solteira e que não mais se leiam histórias de pessoas que morrem por decisão de governos e governos-sombra.

6 comentários

Comentar post