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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Desajustamento

Subitamente tropeço. Olho para a calçada e lá em baixo, muito em baixo, vejo os juros da dívida soberana. Não admira que não tivesse dado conta dos mesmos, de tão baixos que estavam. Numa vulgar atitude achei melhor apanhar tão estranho objecto do chão, antes que alguém incauto como eu também tropeçasse.

Aproximo-me do contentor do lixo e qual não é o meu espanto ao vislumbrar no seu interior o “rating” português. Já não entendia nada… Então com juros tão baixinhos, como é que o nosso “rating” não saía do nível do lixo?

Segui o meu rumo habitual, a pensar com meus botões. Instintivamente baixei-me, pois era comum bater com a cabeça naquele ramo de árvore. Mas fiquei com a sensação que desta vez ficara longe desse vulgar incidente. Voltei-me e reparei que o ramo, baptizado de dívida externa, não estava na sua posição normal. Estava antes muito mais elevado. E a cada minuto esta árvore parecia crescer, avolumando assim o valor da dívida e colocando o ramo cada vez mais alto.

Resumindo, os juros baixam, a dívida aumenta e a nossa reputação nos mercados continua ao nível do lixo. Agora expliquem-me muito devagarinho, para que é que serviu tanto “ajustamento”?

É portanto urgente desajustar o voto ao seu sentido tradicional nas próximas legislativas. É inadiável votar a favor da renegociação da dívida e contra o tratado orçamental. Deixar claro que rigor orçamental, que é desejável, não é sinónimo de austeridade cega. Ou arrepiamos caminho ou tornamo-nos num povo de contorcionistas saltimbancos, de tanta “flexibilização” a que estamos sujeitos. Desajustemos!

 

Montijo, 11 de Setembro de 2015