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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Deitando dinheiro à rua

 

Dinheiro é daquelas coisas que para além de quase todos nós sabermos que é caro e nunca temos o suficiente, para alem disso parece algo que se escreve e fala numa língua alienígena ainda que passem muitas horas a falar do tema nas televisões. Ao que parece lançam apenas ai umas palavras-chave para dizer se está bem ou mal mas tudo o resto é linguagem pare eles se entenderem uns aos outros e facto é que para nós só é perceptível quando a coisa está a correr bem ou mal ao interlocutor ainda que não se saiba bem o motivo.

 Imagina que o país é um espaço fechado e que o dinheiro no país é sempre o mesmo. Mesmo que ele esteja inicialmente bem distribuído, aplicando as leis de mercado tal como elas existem actualmente em pouco tempo ele estaria todo na mão de meia dúzia de pessoas. Isso não é difícil de entender quando tens pessoas que só por serem “investidores” recebem parte da produção do trabalhador sem que tenham contribuído em nada para a riqueza gerada. Aplica-se aquela frase “dinheiro atrai dinheiro”.

Mas nós não somos um país fechado nem o valor de dinheiro dentro das fronteiras é sempre o mesmo.

A questão é que países como Portugal que são tendencialmente mais importadores do que exportadores, com a politica económica actual estarão SEMPRE em risco de crise, sobretudo com politicas praticadas como as do (des)Governo anterior.

O (des)Governo anterior entrou a dizer que Portugal viveu acima das suas possibilidades, o que é verdade ainda que seja verdade porque praticou precisamente as politicas da sua cor.

Não muito depois destas palavras terem sido ditas o mesmo (des)Governo dizia que era preciso mais investimento e Cavaco Silva, afinado pelo mesmo diapasão dizia que era preciso promover o investimento externo.

Mas qual é o problema do investimento em Portugal?

A larga maioria do investimento em Portugal seja privado seja comercial é feito a partir de financiamentos cedidos pela banca que nem sempre acautela o risco.

Quer isto dizer que muitas vezes a banca financia e depois é forçada a assumir o risco da falência e em última analise lá andamos nós, aparvaloreneados, a pagar a ingerência da banca.

Mas para alem disso quando pedimos um financiamento à banca quer dizer que parte da riqueza gerada pela empresa que se financiou irá fazer parte do lucro da banca nacional e sobretudo da banca externa que concedeu crédito ao banco nacional.

O mesmo principio se aplica ao empréstimo pessoal. Parcela do que cada um de nós ganha de ordenado e se destina a pagar um empréstimo para pagar a casa irá fugir para a entidade que emprestou o dinheiro primeiramente ao banco onde cada um de nós se foi financiar.

Somando todos os financiamentos nacionais quer individuais, quer empresas quer publico, podemos ter uma boa ideia da quantidade de riqueza produzida que acaba fora do país.

Mas não bastando este incentivo ao investimento desenfreado, temos de adicionar os apelos ao investimento estrangeiro.

O investimento estrangeiro só é uma coisa espectacular se essa empresa vier criar cá algo de totalmente novo que por cá ninguém saiba fazer ou que nos traga vantagens claras quer para os cidadãos quer para o Estado.

Tudo o resto é deitar dinheiro à rua.

Exemplo concreto:

A China Three Gorges comprometeu-se a investir 2 mil ME na aquisição da EDP e detém actualmente cerca de 23% da quota da empresa. Grande parte deste investimento já foi concretizado no entanto recupera 400 mil euros diários, ou seja, 146 milhões de euros anuais. Vamos para o efeito ignorar que este investimento tem por finalidade entrar em mercados mais exigentes que o nosso e que com alguma facilidade aceitam investimento português mas que dificilmente aceitarão investimento chines.

Olhando apenas para números, os investidores chineses, e mantendo as margens de lucro, irão recuperar o investimento em 13 anos e a partir dai levam de Portugal 146 milhões de euros por ano para a China.

Este é apenas um exemplo. Boa parte das empresas do PSI20 têm investidores estrangeiros envolvidos a receber elevados dividendos. A banca nacional é já quase toda estrangeira.

Isto quer dizer que muita da riqueza produzida é canalizada para os “investidores” que depois a levam quer para os seus países quer para outros investimentos fora de Portugal e nem sequer estou a falar de negócios obscuros.

Este tipo de economia funciona bem apenas para as potências exportadoras. É fácil ser-se alemão e dizer-se produtivo quando quase tudo o que fazem é exportado ou exportável com elevadas margens de lucro.

Em Portugal ficamos em bicos de pés por vendermos cortiça, pasta de papel, azeite e vinho.

Naturalmente que estou neste ponto a exagerar mas facto é que os produtos que exportamos são de baixa margem de lucro e os que são de elevada margem de lucro são em número reduzido.

Quando a geringonça fala em dinamizar o mercado interno eu só posso concordar e ao mesmo tempo lamentar nas vistas curtas dessa vontade.

Quando olhamos para a balança comercial, e aqui não é preciso ser economista, percebemos que estamos a perder muito dinheiro.

Pensemos que perdemos o ano passado, no 3º trimestre, 1000 milhões de euros na compra de combustíveis, o valor mais desequilibrado de toda a lista. Em cima deste, no mesmo período 1948 mil milhões de euros em viaturas e componentes para viaturas automóveis. Nessa rubrica o défice é de “apenas” 200 milhões de euros face às exportações. Sublinho que estes dados reportam a apenas um trimestre.

Não quero deixar de relembrar que agarrada à aquisição de automóveis surge normalmente um financiamento bancário que como já disse é mais uma maneira do dinheiro sair do país.

Se combustíveis e meios de transporte são um problema pesado para o país, aliando-se as questões financeiras às ambientais, o Governo nessa palavra de incentivo ao comercio interno, o que deveria fazer era promover o desenvolvimento de empresas que desenvolvam e criem automóveis e motociclos eléctricos, uma melhor e mais capaz rede de transportes públicos e uma reorganização do território para levas as pessoas a morarem perto do emprego ou o emprego perto de casa.

Hitler teve muitos defeitos e ainda hoje lidamos com a sua herança mas houve um momento da história que tomou uma medida acertada para a época: investir no carocha como um automóvel acessível a todos.

Seguindo exclusivamente este exemplo Portugal deveria apostar neste campo tanto para consumo interno como para as exportações futuras criando uma marca à frente do seu tempo.

O futuro faz-se hoje e os governantes que temos tido, com poucas excepções, têm navegado à vista e a favor de outros que não os portugueses.

Julgo ser hora disso mudar e verificando os problemas, resolve-los pela raiz:

 

Acabar ou limitar significativamente com financiamento externo;

Redistribuição efectiva da riqueza produzida forçando a diminuição das margens de lucro das empresas e penalizando fortemente as transacções em bolsa de valores e mercados especulativos;

Reduzir significativamente as importações de combustíveis sólidos;

Reduzir a aquisição de automóveis e promover a criação ou evolução de marcas nacionais viradas para as energias renováveis;

Reforçar o parque de energias renováveis, sobretudo fotovoltaico de modo a compensar a diminuição de combustíveis fósseis e sustentar o aumento de viaturas eléctricas;

Reforçar a rede de transportes públicos;

Promover a reorganização do território.

São propostas simples mas que poderiam relançar o país para a independência de recursos.