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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Declaração de óbito

Aníbal declarou o óbito da democracia parlamentar portuguesa. O mesmo ocorreu no dia 22 de Outubro de 2015, por volta das 20h05m. E com isto não falo da indigitação do líder do PSD como primeiro-ministro. Tal era mais que expectável, para quem sofre de um bloqueio ideológico profundo. Mas constitucionalmente intocável.

 

Essa mesma Constituição, que nos últimos anos tem servido de escudo protector para alguns dos ataques mais perniciosos por parte da coligação, no seu artigo 187.º, diz que o primeiro-ministro é nomeado pelo presidente da república, depois de ouvidos os partidos representados na assembleia. Convém realçar bem este ponto. Devem ser ouvidos todos os partidos com assento parlamentar. Não apenas os partidos que derem jeito. Ou seja, aqueles que mais facilmente se vergam à lógica austeritária e a modelos impostos pelos parceiros internacionais.

 

Na realidade, o principal obstáculo à entrada de partidos fora da bitola habitual numa solução governativa, muito para além da miopia ideológica, é o risco constante que poderá pender sobre os partidos do “arco da governação” e interesses que gravitam a sua órbita. A exposição da teia de cumplicidades, favorecimentos e compadrios, que tem dominado a economia nacional. É o final anunciado dessa estranha forma de vida. Haverá com certeza muito “boa gente” com rabos de palha… E, por isso mesmo, nada interessada que a “esquerda radical” chegue ao poder.

 

Ao próximo presidente da república, de preferência alguém que consiga entender que todos os partidos políticos têm os mesmos deveres, mas também os mesmos direitos, caberá a difícil tarefa de reconquistar a credibilidade da função. Ao mesmo tempo terá de fazer o pequeno milagre de ressuscitar a democracia parlamentar. Não se adivinha um mandato fácil...

 

Montijo, 27 de Outubro de 2015