Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

De excepção em excepção até à extinção

48. Brexit - schrank_cameron.jpg

Uma das questões que domina o Conselho Europeu desta semana é a possível saída do Reino-Unido (RU) da União Europeia (UE), já apelidada de Brexit. Parece que em cima da mesa estão um conjunto de propostas que pretendem acamar as “necessidades” do RU continuar a ser uma “ilha” no interior da UE. E que exponencie assim o ciclo de excepções de que já é alvo.

 

Com efeito o RU é useiro e vezeiro neste tipo de imposições, que permitem um tratamento diferenciado relativamente aos restantes estados membros. Pelos visto querem agora ser ainda mais excepcionais na sua excepcionalidade. Não deixa de ser curioso que um país que levanta tantas vezes a voz contra os que não cumprem as regras esteja constantemente a tentar contorná-las, utilizando o mecanismo de chantagem vergonhoso da saída da UE. Ficam patentes os tiques imperialistas e megalómanos de quem ainda se julga centro do mundo e que todos necessitam da sua anuência.

 

O mais curioso neste processo é que mesmo que a UE ceda em toda a linha às condições impostas pelo governo britânico, tal não implica directamente a continuação na UE. Apenas a garantia que David Cameron fará campanha pela manutenção na UE no referendo que será realizado. Eu sou todo a favor de referendos nestas questões cruciais e estratégicas para os países. Agora a forma como o governo britânico está a conduzir este processo desvirtua esta consulta popular. O povo deve dar a sua opinião sobre a manutenção do RU na UE, tal como ela existe. Não é correcto desvirtuar os princípios fundadores da Europa e só depois fazer a pergunta.

 

A Grã-Bretanha continua a comportar-se como se a UE fosse a sua periferia, mas só se engana a si própria. Independentemente do que a Europa pode perder com a sua saída, a fuga de capitais e o recentrar dos mercados financeiros ditarão com o tempo muitos mais prejuízos que benefícios. Por parte da UE quer-se uma posição forte e enérgica no sentido de relembrar os seus princípios e valores. É certo que o respeito pela identidade nacional e suas estruturas políticas consta neste leque. Mas também consta o princípio da solidariedade e cooperação entre estados membros na persecução de um objectivo político e económico comum.

 

É evidente que muito está mal nesta Europa. Que o projecto europeu necessita de um retorno às origens nos seus princípios, mas acima de tudo de um amplo processo de democratização, que curiosamente até foi recolocado recentemente na ordem do dia através do DiEM 25 – Democracy in Europe Movement 2025, é claro e inequívoco. No entanto, a posição do RU não será a mais favorável para trilhar este caminho. De excepção em excepção chegaremos muito provavelmente à extinção da UE. Um claro retrocesso depois de tantas conquistas neste espaço comum.

 

Montijo, 18 de Fevereiro de 2016