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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Daniel Blake, vive

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Por um momento fiquei apático… Eu disse por um momento? Deve antes ter sido por um período considerável. Lembro-me de terem passado todos os créditos, mas não ter fixado nenhum nome, das luzes se ligarem, de todas as pessoas saírem da sala, incluindo aquela senhora de idade de andar arrastado. Eu continuei sentado. Olhos húmidos e incrédulo com o que acabara de visionar. Lembro-me do silêncio sepulcral na sala de cinema, apenas interrompido pelos regulares fungar dos espectadores (e alguns meus). Emocionei-me verdadeiramente ao ver “I, Daniel Blake”. Nada fazia antever este desfecho perante um diálogo surreal de abertura, ainda com o ecrã todo negro.

 

Desenganem-se aqueles que pensam que é somente um filme. É tudo menos um filme. É como ser arrastado por uma onda de realidade; perdão, arrasado por um tsunami de veracidade. Um olhar atento e profundamente crítico de uma sociedade moderna que perdeu os valores humanistas. E que maltrata que é fraterno e solidário. Extremamente materialista, mas que faz um esforço enorme em se desmaterializar. Não por uma visão de eficiência ou sustentabilidade. Mas por poupança. De quê? De tudo. De papel, de tinta, de energia, de espaços, de tempo, mas, acima de tudo, de pessoas. Na secreta esperança que se tornem invisíveis. Que desapareçam dos ficheiros e das estatísticas e dos indicadores. Que não sejam um número na taxa de desemprego, mas também que não sejam um peso para o Estado nos serviços de pensões. No fundo o ideal é que estas pessoas não existam…

 

Mas Daniel Blake não é um personagem ficcionado. E não desaparece quando a película do filme termina. Ele é bem real. É aquele com que partilhamos o banco do autocarro ou com que nos cruzamos na rua; é nosso parente distante ou nosso vizinho do lado; é o amigo de longa data ou o desconhecido que estende a mão. Daniel Blake, que só quer ser, nem mais nem menos, que um vulgar cidadão. Que cumpre seus deveres e espera que lhe sejam reconhecidos seus direitos. Mas que se vê vencido, melhor, esmagado por uma máquina burocrática especializada em fazer com que as pessoas simplesmente desistam. Num momento ou noutro da nossa vida, a maioria de nós certamente sentiu o mesmo. E nesse campo específico, todos somos, ou podemos vir a ser, Daniel Blake.

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Montijo, 8 de Janeiro de 2017

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