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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Crise de identidade (momentânea)

Saí do barco com a sensação de não saber quem era. Levei a mão ao bolso e percebi o porquê desta dúvida – tinha deixado a carteira no barco, com todos os documentos que me identificam como cidadão. Sobressaltei-me e por segundos senti-me perdido. Reagi e enfrentei a maré humana, com o vigor de quem luta pela sua própria existência.

 

Pelo caminho alguém me diz que se é uma carteira que procuro está em poder do pessoal da Transtejo. Atrapalhado agradeço... Ou agradeço atrapalhadamente, já não me recordo bem. Continuei a correr no sentido do barco, antes que zarpasse e levasse nas suas entranhas parte de mim.

 

Com a respiração inconstante justifico o meu regresso ao marinheiro: Esqueci-me da carteira. “Está lá em cima, com o Mestre” – responde-me. Apresso-me e subo as escadas do catamarã de dois em dois. Entro na cabine de comando e o Patrão da embarcação, diligente, tem a minha carteira na mão. Prontamente a entrega dizendo: “Íamos agora tentar averiguar de quem seria.” Agradeço, sem sentir qualquer necessidade de verificar o seu conteúdo. Não por pudor, apenas por ter a certeza que tudo estava bem. Só abri a carteira quando fui ao café e, até ao momento, não efectuei nenhuma busca exaustiva. É desnecessária.

 

Já por uma vez tinha passado pela traumática experiência de perder a carteira nos transportes públicos. Na altura nada apareceu. Foi um ver se te avias de burocracias. Hoje, o medo de travar novamente uma batalha de formulários voltou a assolar-me.

66. Catamara.jpg

Felizmente esse cenário não se confirmou. A minha momentânea crise de identidade foi rapidamente curada. Ao pessoal da Transtejo, especialmente à tripulação do Sé, e a quem possa ter encontrado a minha carteira estou profundamente agradecido.

 

O presente relato serve também de aviso à navegação para todos os que se acotovelam para criticar e rebaixar os funcionários do sector público. No cômputo geral o funcionalismo público é eficaz e de trato afável. E houvesse melhores condições de trabalho, que mais competente seria. Na esmagadora maioria das experiências que tive com instituições públicas conto pelos dedos de uma mão as vezes que fui maltratado. Claro que bestas há por todo o lado. Incluindo no horário nobre televisivo, em que inúmeros comentadores debitam o seu ódio visceral a tudo o que é público, incluindo os seus funcionários.

 

Os trabalhadores da Transtejo zelam pelo transporte dos seus utentes de forma segura e o mais eficiente que lhes é possível. Prestam um serviço público inestimável e fazem-no de forma cordata, muitas vezes ao arrepio daquilo que estão a sentir e das injustiças que são alvo. Queira o Governo e a Empresa Pública, olhar para estas pessoas doutra forma, devolvendo-lhes dignidade profissional e melhorando as suas condições de trabalho.

 

Montijo, 10 de Agosto de 2016