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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

BANIFicação

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À mesa do Estado sentam-se os gordos banqueiros. Está prestes a ser servido mais um banquete de injecções de capital público para saciar apetites privados. São como bolinho de CoCo cozinhados com ardil. É sempre bizarro observar aqueles que vêem a despesa pública como uma conta de mercearia arranjar sempre uma despesa repleta de mantimentos quanto toca a alimentar os privados. Quando há lucros, os dividendos pertencem aos accionistas. Quando há bancarrotas, é o contribuinte que paga a factura. E neste caso nem se pode colocar o NIF para depois entrar nas despesas de IRS… Seria interessante que as declarações de rendimentos dos contribuintes portugueses passassem a mencionar a quota-parte devida a cada um nos resgates bancários.

 

Mas tem de ser assim… Os gestores privados são do mais competente que existe. Eles sabem o que estão a fazer. E o risco é sistémico. O sector da finança está claramente sobredimensionado para a nossa economia. Mesmo na realidade europeia isso acontece, mas não podemos deixar bancos falir. Passa uma mensagem errada. Nestes casos o melhor é pagar o Estado, com os seus cofres cheios. Já não há dinheiro? Pede-se à troika. Já não há troika? Pede-se aos mercados. Os mercados estão nervosos? Dá-se-lhes um xanax. Não há dinheiro para xanax prescreve-se um genérico e garante-se a cura financeira com o esforço do contribuinte. Vai mais uma dose de austeridade para manter a confiança dos investidores. É remédio santo.

 

Assim se faz economia no actual paradigma neoliberal. Depois das nacionalizações e das privatizações, eis que surgem as “banificações”. Um modelo híbrido onde o que é tóxico nacionaliza-se e o que é lucrativo privatiza-se. Ao Estado cabe os riscos, dívidas e prejuízos, aos privados cabe a difícil tarefa de ficar a gerir a parte boa do negócio. Não há alternativas a isto? Evidente que sim. O que não há é vontade política para romper com este círculo vicioso e terminar de uma vez por todas com a imposição de regras ao poder político pelos grandes interesses económicos.

 

Estas influências podem ser invisíveis, mas as consequências são bem reais. Que o diga a carteira do contribuinte. Muito provavelmente não sobreviveremos a outra “banificação” sem mais uma dose maciça de austeridade. É preciso perceber o quanto antes que lixo foi varrido para debaixo do tapete da alta finança. E sanear tudo de uma vez. Nada pior para a confiança do que a constante suspeita de que um novo BANIF, BES, etc., vem a caminho. Alguns economistas gostam de utilizar a expressão “não há almoços grátis”. Nestes banquetes estatais tem sido o contribuinte sempre a pagar a conta. Mas já chega de caviar. De futuro, comam bifanas. Diz que a carne de porco está muito em conta…

 

Montijo, 14 de Janeiro de 2016