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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Aves Raras ou O estranho caso das críticas à nova segunda-circular

Recentemente foi conhecido um projecto da Câmara Municipal de Lisboa para a segunda circular, que pretende modificar profundamente esse eixo rodoviário. A ideia é reduzir a largura das faixas, baixar a velocidade máxima de circulação, repavimentar com um material que diminua o impacto sonoro e, o ponto principal deste plano, arborizar as laterais e o separador central da segunda circular. Boa iniciativa, certo?

 

Errado. Pelo menos para 3 entidades que se apressaram a criticar o projecto, mal este foi colocado em consulta pública. São elas a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, o Automóvel Clube de Portugal e a Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea (APPLA). Já seriam de esperar reacções negativas das duas primeiras entidades, no fundo eles representam um sector que aposta na mobilidade numa perspectiva individualista tendo no carro o seu veículo de eleição. Tudo o que seja feito para diminuir a acessibilidade de veículos à cidade, regrar as velocidades ou disciplinar o trânsito, é visto como um vil ataque à liberdade de “levar e deixar o meu carro onde muito bem queira ou me apeteça”. É evidente que este tipo de medida tem de ser contrabalançada com uma aposta efectiva no transporte público. Com esta equação resolvida poderemos finalmente começar a quebrar a hegemonia do automóvel, principalmente nos grandes certos urbanos, locais de maior concentração populacional, onde nos deparamos com graves problemas no que concerne à qualidade do ar.

 

Mas é a posição da APPLA que mais curiosidade me suscita e sobre a qual me queria debruçar. Diz esta associação que a plantação de árvores nas imediações do Aeroporto da Portela, constitui um perigo para a aviação, pois são um chamariz para os pássaros. É certo e sabido os problemas que a aviação enfrenta com as aves. A convivência num mesmo espaço aéreo é o principal. A associação afirma estar atónita com o facto da Câmara de Lisboa não ter ouvido previamente as entidades aeronáuticas. Em sua defesa, a edilidade afirma que este projecto não colide com a segurança aérea, pelo que não se julgou oportuna qualquer consulta prévia. Até pode ser verdade... Mas mal, não fazia.

 

No entanto, é curioso cruzar isto com as declarações da APPLA feitas a propósito da opção normalmente designada por Portela + 1, relativamente às Bases Aéreas para complementar a actividade do aeroporto de Lisboa. Em Maio de 2012, o presidente da associação à data, rejeita liminarmente as bases militares de Sintra e Alverca das possíveis opções – http://noticias.sapo.pt/nacional/artigo/aeroporto_complementar_3592.html. Já no que respeita à Base Aérea n.º 6 no Montijo admite alguma penalização ambiental, mas que seria possível adoptar procedimentos para minorar esses impactos. Para o leitor mais incauto que não percebe muito bem o porquê deste revivalismo, gostava de esclarecer que a Base Aérea n.º 6, no Montijo, é banhada pelas águas do rio Tejo. O estuário deste rio é considerado como um refúgio para diversas espécies de aves, que aí vivem e nidificam durante todo o ano. Isto quer dizer que é muito perigoso plantar árvores junto de um aeroporto, pois tal pode atrair as aves. Mas é perfeitamente viável espetar com um aeroporto comercial de voos low-cost no meio de uma área de especial importância ecológica, onde as aves já lá estão.

45. Base aerea.JPG

Fica portanto claro que o problema está nas aves esbarrarem com os aviões; o contrário, ou seja, os aviões esbarrarem com as aves é uma não-questão...

 

Montijo, 20 de Janeiro de 2016