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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

As sondagens - votar com consciência

Frequentemente somos confrontados com sondagens. Elas existem para todos os gostos e somos ensinados a conviver com elas desde pequenos. No fundo, não serão as clássicas questões, plenas de profundidade e conteúdo: “gostas mais da mãe ou do pai?” ou  “és do sporting ou do benfica?” formas primitivas de sondagens? Agora para que é que servem semelhantes estudos, já é um ponto que me ultrapassa.

 

Ultimamente têm proliferado as sondagens eleitorais, relativas à previsão dos resultados das próximas legislativas. Mas se há alguma coisa que os últimos tempos nos têm ensinado é que não nos podemos fiar nos seus resultados. Atente-se aos recentes casos da Grécia e do Reino-Unido, em que empates técnicos são transformados em vitórias confortáveis.

 

Em Portugal também não faltam incongruências semelhantes. Nas últimas eleições realizadas, as Europeias de 2014, nenhuma empresa de sondagens conseguiu prever o resultado do MPT. Mesmo o resultado do LIVRE apenas a sondagem de 19 de Maio da Universidade Católica esteve perto de acertar. Relativamente aos resultados apresentados para os restantes partidos, muitos caíram fora das margens de erro avançadas. Quer PS, quer PSD, viram os seus resultados inflacionados em todas as sondagens. Pior ainda tinha-se passado na eleições europeias de 2009, quando as sondagens conseguiram inclusivamente errar no vencedor.

 

Actualmente, o que está em voga parecem ser as sondagens diárias, uma espécie exótica que visa acima de tudo alimentar o circo do jornalismo mediático baseado no sensacionalismo. O modelo é idêntico nas várias empresas. São feitas cerca de 1000 chamadas telefónicas para números fixos (sim, ainda existem) durante 5 dias. No dia seguinte à apresentação dos resultados retira-se o 1.º dia de entrevistas e soma-se o anterior ao da apresentação, verificando-se nova poll. Assim todos os dias são apresentados resultados, tendo como objectivo elaborar um mapa da variação do voto. Partindo do princípio que a empresa não voltará a telefonar para as pessoas do dia cujos resultados foram expurgados, pois ninguém terá paciência de andar a responder às mesmas questões de 5 em 5 dias, acho difícil perceber uma clara variação do sentido de voto, pelo menos que faça sentido.

 

De rigor científico duvidoso, as sondagens por telefone são as mais baratas. Em média custam 10 vezes menos que uma sondagem com simulação de voto em urna. São normalmente conduzidas por trabalhadores precários, muito mal pagos e com deficiente formação para a função, que tão depressa perguntam o partido político em que iremos votar, como de seguida nos procuram qual a marca de refrigerante favorita.

 

Quem tenham umas luzes de estatística, sabe como os números podem ser flexíveis, dizendo precisamente aquilo que queremos. Quem tenha umas bases no estudo de inquéritos de opinião, sabe que essas artimanhas não são necessárias. Basta para isso conduzir as entrevista para o objectivo que se queira, através de uma elaboração específica das questões. Atente-se no seguinte exemplo: num inquérito telefónico é-nos colocada a seguinte pergunta – “Quem acha que daria um melhor primeiro-ministro? A) Pedro Passos Coelho; B) António Costa; C) Não sabe/não responde”. Esta questão dá uma falsa noção de liberdade de resposta. Ou seja, ela é fechada a priori. Indicando duas opções de respostas claras. Portanto, teríamos de considerar um destes dois nomes como mais apto para governar o país e descartar todas as outras pessoas, incluindo as que julgarmos mais capazes. Das duas uma, ou seleccionamos o mal menor ou optamos pelo campo “não sabe / não responde” e passamos por ignorantes ou despreocupados.

 

Ontem veio a lume uma notícia no Observador – LIVRE? Que partido é esse? – sobre um inquérito telefónico para uma sondagem da Universidade Católica. O entrevistador mostrava-se primeiro desconhecedor do partido que a inquirida identificou e depois perplexo porque naquela casa duas pessoas votariam no LIVRE / Tempo de Avançar. Isto é revelador do que está em causa quando falamos de sondagens e do como é perigoso desenhar cenários em torno das mesmas. No fundo, servem apenas para alimentar o “País das GORDAS” de que o João Massena falava neste mesmo blogue – http://marealta.eu/o-pais-das-gordas-7094 – e um sem número de comentadores, tradicionalmente ligados aos dois principais partidos, que projectam no céu, a régua e esquadro, futuros fictícios.

 

O problema é que esta multiplicação de sondagens, comentários e afins, acabam por condicionar o sentido de voto. Por muito que se diga o contrário, é impossível manter-se indiferente ao chorrilho de resultados apresentados como autênticos e fidedignos. O comum cidadão, aquele que penou com anos de austeridade, sentir-se-á defraudado e decepcionado ao conhecer os resultados das sondagens. A incerteza e posterior desmobilização dos eleitores deve-se em primeira linha aos partidos e suas políticas, mas as empresas de sondagens têm também grande quota-parte de responsabilidade nesta área. Por ventura, será necessário regularizar e legislar melhor nesta matéria. Para tal é essencial primeiro eleger um parlamento que leve a cabo essa tarefa. Por isso, este domingo dia 4 de Outubro, vote! E vote em consciência, não vote em sondagens...

 

Montijo, 1 de Outubro de 2015