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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Arrufo de namorados ?

Não sou pessoa de alinhar em teorias da conspiração. Costumo estruturar a minha linha de pensamento em factos e dados concretos. Mas é inevitável que, de quando em vez, o nosso pensamento vagueie por campos mais recônditos, formulando hipóteses aparentemente fantasiosas, mas que podem ser verosímeis. Vem isto a propósito do ataque químico na Síria e consequente escalada entre os dois lados conflito, que, invariavelmente, são a Rússia e os Estados Unidos da América (EUA). Na sequência dessa acção Trump decide bombardear uma base aérea do governo sírio, supostamente responsável pela utilização de gás Sarin. Putin denuncia o ataque, ensaiando algumas palavras de ocasião, pois para os russos os rebeldes sírios é que devem ser responsabilizados.

 

Mas não eram estes dois senhores da guerra que ainda há pouco tempo trocavam rasgados elogios? Não foi o regime russo acusado de ter influenciado as eleições estado-unidenses no sentido de Trump ser eleito? Não têm ambos um discurso crítico da União Europeia? Todas estas manobras em torno da Síria parecem orquestradas. E este interesse súbito de Trump, com a desculpa de que o ataque químico o sensibilizou, é uma clara falácia, pois o que não têm faltado nestes últimos anos na Síria são atentados aos direitos humanos.

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A Síria serve de palco para estas duas nações, que durante décadas dominaram o Mundo. Actualmente vêem a sua hegemonia ameaçada pela Europa. Por um lado temos uma Rússia de volta as costas à União Europeia, extremando posições. Por outro, uns Estados Unidos que se congratula com o Brexit e anseia por outras saídas. Portanto, podemos dizer que ambas as potências apostam todas as fichas no desmoronamento da União Europeia.

 

Mas é pertinente perguntar em que medida a questão Síria pode ameaçar o edifício europeu. Na minha modesta opinião, duas questões fundamentais têm abalado a União Europeia e ameaçado a sua coesão: a austeridade imposta, consequência do modelo neoliberal, como resposta à crise económica; e a crise dos refugiados, mercê da instabilidade no Norte de África e no Médio Oriente, mas com origem principalmente na Síria. E é este último ponto que pode ser fulcral em toda esta situação.

 

A cruel encenação criada por EUA e Rússia em terreno sírio perpetua a guerra civil. Isso continuará a alimentar a vaga de refugiados que pressiona a União Europeia, onde esperam encontrar a paz necessária para encetarem uma vida normal. Tal cenário, associado à ainda frágil situação económica, desbrava o terreno para que os populismos floresçam, vistos como resposta por uma população europeia habituada a um nível de vida e progresso indisponíveis no quotidiano. A congratulação com o Brexit ou o apoio a movimentos populistas deixam clara a agenda dos EUA. A Rússia vai pressionando a Ucrânia e criando consensos aqui e além, sempre na tentativa de atingir a União Europeia.

 

É simples perceber qual o resultado para a União Europeia caso os populistas cheguem ao poder ou influenciem o governo das maiores economias da União e não apenas de países como a Hungria ou a Polónia. As medidas proteccionistas ganharão terreno e as fronteiras voltarão a erguer-se. Os referendos ao euro ou à continuação na União Europeia ocorrerão em catadupa. A previsão lógica é o desmoronamento da União Europeia e a sua extinção.

 

Com o fim do projecto europeu renasceria o mundo dos dois blocos, onde a hegemonia seria repartida por Rússia e EUA. Esse seria o objectivo das duas potências, que desta forma retirariam o bloco Europeu da equação. A Europa estaria novamente dividida e as tensões entre os diversos estados escalariam, podendo mesmo colocar em causa o mais longo período de paz que o velho continente já viveu.

 

Certamente que só daqui por muitos anos perceberemos o que está por trás da situação síria. Se é que alguma vez saberemos a verdade. Podemos nunca descobrir se este arrufo de namorados entre Trump e Putin é verdadeiro ou uma mera encenação. Sinceramente espero que a hipótese que levanto nestas linhas seja uma ideia delirante e sem qualquer relação com a realidade. E julgo que a maioria de vós também…

 

Montijo, 22 de Abril de 2017