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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Andava por aí alguém

Andava por aí alguém que tinha previsto todos os cenários… E tinha soluções preparadas para todos os resultados eleitorais possíveis. Espanta portanto a demora. A urgência, a estabilidade, os mercados, os compromissos internacionais, de repente deixaram de fazer diferença. Já não há sinais que resistam, porque anda tudo muito ocupado em engendrar uma teoria do caos.

 

Andava por aí alguém que tinha previsto todos os cenários… E que habita a política há 30 anos. Tempo suficiente para ter aprendido alguma coisa. No mínimo, perceber que o voto de um deputado tem sempre o mesmo valor, independentemente da posição onde se senta no hemiciclo. Que este é composto por 230 lugares e quem conseguir o apoio de 116 terá, em princípio, a estabilidade suficiente para cumprir o programa e chegar ao fim do mandato.

 

Andava por aí alguém que tinha previsto todos os cenários… Bem, todos menos este talvez. O cenário no qual os partidos de esquerda tiveram a ousadia de falarem entre si e o atrevimento de bater o pé às ordens de Belém. Isto estava tudo a ir tão bem. A mensagem do medo e do caminho único tinha-se incrustado no eleitorado. Estava tudo tão alinhadinho à direita. Oh raça de povo, que continua com a mania de escolher em liberdade.

 

Andava por aí alguém que tinha previsto todos os cenários… Na pueril esperança de que iriamos perpetuar os últimos 4 anos. Que se continuaria a desconstruir Abril, tijolo a tijolo. Para que as castas triunfassem e o povo fosse devotado à escuridão. Que tem assistido com cumplicidade à influência dos poderes dominantes. Que estava convencido que tínhamos retornado à monarquia e que a partir de agora seria sempre igual. Que éramos todos conservadores e que depois havia meia dúzia de rebeldes com a mania de ser do contra. Não tem a mais vaga ideia de como é o povo português

 

Andavacavaco.jpg por aí alguém cheio de certezas… E que agora, aparentemente, se afoga em dúvidas. Está, provavelmente, perante a última decisão do seu longo e tenebroso mandato. E quis o destino que se depara-se com tal dilema: indigitar a minoria de direita, empáfio como sempre o foi; ou ter de engolir o seu gigantesco orgulho, com o sério risco de sufocar, e viabilizar a maioria que se perfila à esquerda.

 

E anda para aqui um tipo, a assistir aos tempos interessantes que vivemos, na certeza de que, qualquer que seja o desfecho, as coisas não mais serão as mesmas na política nacional. E isso só pode ser bom.

 

Lisboa, 21 de Outubro de 2015