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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Abertura partidária

Hoje lembrei-me de um episódio peculiar ocorrido durante a campanha eleitoral. No Pinhal Novo, durante uma acção de distribuição de jornais de campanha, uma senhora muito indignada com a minha oferta, recusa-a peremptoriamente com as palavras: “isso é bom é para limpar o cu!”. Instintivamente respondo-lhe “pois então leve um, que sempre serve para alguma coisa”. Por uns breves segundos a senhora ficou parada no espaço e no tempo. Como se estivesse a sofrer uma reacção vagal. Depois desperta e afasta-se dizendo que eu era um porco. A criança que ia por sua mão, presumivelmente filha, assistia atónita a tudo isto...

 

Diverti-me com o sucedido e ainda troquei umas risadas com restantes camaradas, mas depressa esqueci o assunto. Agora, recordo-o. Na realidade, o que aquela senhora quis dizer foi que as propostas programáticas e promessas eleitorais para ela nada valem. Exteriorizou de uma forma mais vulgar o sentimento de descrédito para com os partidos políticos, que grassa pela generalidade da população. E isto é da maior importância. Os principais culpados desta agressividade e/ou desinteresse são os próprios partidos e a forma como se organizam, sempre de costas voltadas para as pessoas. Cerca eleições vão para a rua, banhar-se de povo, mas isso só não chega.

 

Também o permanente incumprimento das promessas eleitorais, em nada favorece a imagem dos partidos. As ordens impostas pelas direcções, a disciplina de voto, o silenciamento dos críticos, as lutas internas pelo poder ou as obscuras negociações para decidir os nomes dos candidatos e candidatas, são algumas das razões pelas quais as pessoas vêem a democracia como muito pouco democrática.

 

No meu humilde entendimento parece-me que o caminho para reverter este descrédito passa obrigatoriamente pela abertura dos partidos. Quer no seu seio, aos seus militantes e simpatizantes, quer exteriormente, através da participação de cidadãos ditos independentes que possam acrescentar valor contribuindo com novos métodos e ideias. A escolha dos candidatos para eleições por via de primárias abertas, por exemplo, é, sem sombra de dúvida, uma forma de abrir a participação política à cidadania. Simultaneamente deixa uma mensagem clara que não serão as direcções partidárias, distritais ou centrais, que decidirão os seus candidatos, mas antes os próprios eleitores.

 

É bom não esquecer que os partidos não se bastam a si mesmos. Existem para as pessoas e para influenciar positivamente as suas vidas. Catalisam aqueles que se identificam ideologicamente com seus princípios. Mas caso se recusem a ouvir a voz de todos, mais cedo ou mais tarde definharão.

 

A cada eleição temos uma variante que não pára de crescer – a abstenção. Isso fragiliza o regime democrático e pode mesmo colocar em causa a sua legitimidade. Julgo que todos prezamos a liberdade que o actual regime político possibilita. Para que possamos continuar a viver em democracia, devemos apelar aos partidos que façam o seu caminho no sentido de serem organizações mais abertas e transparentes. Mas também que sejam mais íntegros e que não dêem o dito pelo não dito. A credibilização do discurso político é essencial para reconquista a confiança do eleitorado.

 

O LIVRE já deu o primeiro passo em matéria de abertura partidária. Tem inscrita a obrigatoriedade de primárias para escolha das candidaturas nos seus estatutos, os quais foram corrigidos, emendados e votados pelos seus membros. O mesmo se passa com todos os documentos do partido, dos simples regulamentos aos programas políticos. Tem também previsto outros mecanismos de participação como os referendos internos, nacionais ou locais, ou o facto das suas reuniões políticas serem, por norma, públicas.

 

Está dado o mote, Os restantes partidos podem começar a adoptar estas ideias. A democracia agradece...

 

Montijo, 8 de Outubro de 2015