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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A Narrativa Demagógica

Abaixo transcrevo artigo de opinião publicado hoje no Diário da Região
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Nos últimos tempos, talvez por já se sentir o perfume de autárquicas no ar, começou a propagar-se uma estranha narrativa pelos lados do Montijo. A mesma sustenta que os residentes que apontam lacunas ou alertam para o que pode estar menos correcto não merecem a terra que os alberga. Tal sente-se nas redes sociais, mas também nas ruas e nas próprias reuniões do poder local.

 

Para sustentar a sua teoria, estas pessoas vão atirando uma ou duas dicas de carácter la palisseano, como por exemplo: "as coisas podiam estar ainda pior" e que "nos concelhos limítrofes é (sempre) pior". Tudo redunda num “o Muntije é Linde!” e não se fala mais nisso… Como se o importante fosse discutir o acessório ou a quem está reservado o direito de gostar mais do Montijo.


Não é preciso um raciocínio muito profundo para perceber que esta onda que se vai formando é uma pura mistificação da realidade. E sustentada por um pensamento anti-democrático. Uma clara incompatibilidade em conviver com a crítica, para além da falência completa do debate de ideias. O que se pretende dar a entender é que quem não alinha totalmente com o poder local, não quer o bem do Montijo. Quem critica, quem opina, quem alerta ou quem emenda, não pode ser uma pessoa de bem. E esta narrativa demagógica encontra terreno fértil, com as festas, festinhas e festanças, a promessa do regresso do Carnaval em ano eleitoral (já antevejo uma tolerância de ponto), os galardões, os instantâneos (que até parecem de ocasião) cada vez que uma obra pública toma forma ou encontra solução.


Ora é óbvio que quem critica ou apresenta discordância com o rumo escolhido para a sua terra se preocupa com a mesma. Se assim não fosse, não identificava a falta nem apontava outro rumo. A discordância da forma como são conduzidos os desígnios do Montijo não significa ódio à terra. Nem tampouco a crítica ao que está incorrecto ou incompleto significa discordância com o poder local. Dizer, por exemplo, que a recolha de lixo é deficiente ou que existem lotes de terreno nos quais convinha cortar o mato, são meras indicações de onde o poder local pode estar a falhar e que convém ter uma atenção redobrada. Os alertas podem não significar oposição à linha política do executivo camarário.


Aceitar com a humildade política necessária a crítica é a única forma de melhorar o desempenho. Não me parece de todo o que se passa actualmente no Montijo, pois cada vez que é apontado um lapso, imediatamente se ergue a muralha do discurso defensivo e se desfere um contra-ataque estéril àquilo que é uma posição normal em democracia. O que esta manobra revela é um certo desespero do poder instalado há tempo demais e das suas castas partidárias ou elites cúmplices, que vivem à sua sombra.


Pensar Montijo é querer o melhor para o território. A comunidade agradece um debate de ideias profícuo.


Montijo, Agosto de 2016