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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A marmita do Marcelo

Um, admirou-se com o sorriso das vacas no arquipélago dos Açores. Outro, sentou-se à mesa de uma taberna local a jogar dominó. Um, faz questão de declarar publicamente o seu amor pelo bolo-rei, expondo a sua mastigação. Outro, partilha a cantina do quartel dos bombeiros voluntários de Sintra à hora de almoço, ostentando a sua marmita, numa falsa demonstração de pobreza franciscana, constituída por uma sandes de queijo, meia dúzia de bolachas Maria e uma lata de Sumol. Um, afirma que a realidade impõe-se sempre à ideologia. Outro, é peremptório ao defender que a Constituição da República Portuguesa deve ser maleável e adaptar-se ao momento... Um, Aníbal Cavaco Silva, e outro, Marcelo Rebelo de Sousa, são faces de uma mesma moeda. E esta é das más. Daquelas que tende a expulsar a boa moeda do mercado, tal como anuncia a Lei de Gresham.

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Nos idos de 2004, Cavaco recorreu a essa mesma Lei num artigo de opinião publicado no Expresso, no que foi interpretado como um recado directo à governação do então Primeiro-Ministro Santana Lopes. Isto é, por analogia, defendia que os bons políticos estavam a ser expulsos por pessoas menos capacitadas, reclamando que era necessário afastar a má moeda. Mais de uma década volvida, a má moeda habita Belém e parece agora querer perpetuar-se recorrendo a uma edição especial, com umas cores mais vivas e rasgados sorrisos.

 

Um e outro têm a mesma perversa ligação à política e um entendimento muito enviesado daquilo que significa exercer funções num órgão de poder. Tem tudo a ver com propiciar melhores condições de vida às pessoas. No caso concreto da Presidência da República, está intimamente relacionado com o cumprir e fazer cumprir a Constituição, num exercício de permanente escrutínio da acção governativa. Pouco interessa as directivas de Bruxelas ou a actualidade, quando falamos de inconstitucionalidades e atropelos à Lei maior do país, mais importante que qualquer máxima economista. Sim, a Constituição da República Portuguesa é ideológica. A ideologia patente na mesma visa, acima de tudo, a defesa dos direitos dos cidadãos e a implantação de um modelo de estado social que promova uma rota de progresso, melhorando as condições do povo. Quem está mal com esta ideologia e julga que a pode moldar às circunstâncias, principalmente em épocas de crise, nunca deveria ter apresentado a sua candidatura ao mais alto órgão de soberania nacional, muito menos exercer funções efectivas.

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A marmita do Marcelo leva uma sandes de queijo, mas leva também frases vazias, contradições e um percurso longo na política, polvilhado por estranhos relacionamentos e amizades duvidosas. A marmita de Marcelo diz tudo e o seu contrário. Ao povo resta resistir e evitar que lhe encham a “marmita”, porque o estado de graça reservado ao comentador bem-humorado terminou. Agora é o tempo da política real. Que implica ideologias; que exige escolhas. E para ocupar a Presidência da República implica também um respeito cego pela Constituição. O cargo não se coaduna com meias-tintas ou indecisões. O exercício pleno de funções, numa lógica de acrescentar valor e não de mera figura decorativa, não se consegue com mergulhos no Tejo, disfarces de taxista ou jogos de dominó...

 

Montijo, 7 de Janeiro de 2016