Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A ignorância mata

De repente senti o sangue a escorrer pelo meu couro cabeludo. Estava prostrada no chão, mas não percebia muito bem como tinha ido lá parar. Via vidros em meu redor. Uma floresta de pernas movimentavam-se freneticamente à minha volta, para que os pés que lhes estavam agarrados punissem o meu corpo. Infrutiferamente tentava proteger-me.  

 

Recordava que antes da queda tinha ouvido alguns impropérios lançados para o ar. Não sabia que eram para mim. Não podia sabê-lo. Como sempre deslocava-me para o trabalho de metropolitano. Ensimesmada e distraída, pensando em mil e uma coisas. No que tinha a fazer durante o dia de trabalho. No que ficou por fazer em casa. No concerto que iria assistir lá mais para o final da semana. No filme que estreara e que eu queria tanto assistir… E no livro que me fazia companhia.

 

Enquanto recebia aqueles pontapés no ventre dois pensamentos interrompiam a minha dor. Não tinha dito ao meu filho o quanto ele era importante para mim quando o tinha deixado na escola; não tinha relembrado ao meu marido o papel fulcral que ele desempenhava na minha vida. E essas ideias assombravam-me, enquanto o meu corpo fazia vénias involuntárias, como que agradecendo de cada vez que era pontapeado. Só pensava em resistir para poder confessar todo o meu amor e carinho àqueles que me eram mais próximos.

 

Já não doía o castigo corporal. Antes de ficar tudo escuro ouvi um dos agressores dizer qualquer coisa do género “esta árabe já não explode mais bombas”. Tentei protestar, elucidando que era espanhola, mas a minha voz já não obedecia ao meu cérebro e no fundo nem fazia sentido objetar com a minha nacionalidade. Nenhum ser humano merecia idêntico tratamento. Ouvi outro dizer “Sim, vamos embora. Ainda tenho de levar a minha filha ao hospital”.

 

Quando recuperei os sentidos estava deitada numa cama de uma brancura imaculada. O cheiro não enganava. Conhecia-o bem. Estava num hospital. O meu filho foi o primeiro a reparar que eu abrira os olhos. Agarrou-se a mim. Rebentámos em emoções. Juntou-se o meu marido e a comunhão foi total. Há uma semana que estava inconsciente. E eles faziam questão de exprimir carinhosamente cada segundo em que sentiram a minha falta.

 

Depois lembrei-me que naquela manhã em que tinha sido selvaticamente agredida tinha marcada uma cirurgia duma pequena menina. Estava tudo combinado com a mãe. A cirurgia envolvia algum risco, mas o que era realmente importante era a celeridade, fundamental para evitar que a infecção não alastrasse. O que obrigou à modificação da minha agenda. Inquiri os que me rodeavam sobre o que acontecera àquela menina. Tinha falecido.

 

Ao fundo, o televisor pendurado na parede do quarto exibia a seguinte notícia: Criança de 5 anos morre no hospital devido à falta da médica à cirurgia marcada. A ausência foi motivada pela bárbara agressão a que foi sujeita pelo próprio pai da criança, que, em lágrimas, afirma tê-la confundido com uma bombista árabe! A agressão, levada a cabo por 3 homens já detidos pelas autoridades, teve lugar na estação de metropolitano na manhã de…

57. A ignorância mata.jpg

Montijo, 28 de Junho de 2016