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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A FORMIGA E A CIGARRA segundo Jeroen Dijsselbloem

 

Há uns anos em conversa com uma historiadora, dizia-me ela que a veia austera e rigorosa dos países do norte europeu estava relacionada com a religião, mais concretamente os protestantes. Já o sul da Europa sofria da falta de iniciativa porque passámos seculos com medo de quem reinava e de quem falava em nome de Deus.

Se a norte a afirmação levanta-me certas duvidas, já pelo sul estou certo que somos mesmo ovelhas à espera da ordem do pastor e dos seus cães que mais parecem lobos.

De qualquer forma Jeroen Dijsselbloem faz desta bipolarização uma revisitação à fábula de La Fontaine “ A formiga e a Cigarra” mas sendo para adultos acusa-nos de gastar o dinheiro em mulheres e álcool.

Desde já devo discordar no que toca a álcool. Portugal consome 10,3 litros de álcool per capita enquanto os Países Baixos consomem 9,2. À cabeça da lista a Áustria com 12,2, em 3º a França com 11,8 ou o Luxemburgo em 6º com 11,4.

Se o álcool não é, teriam de ser com as mulheres. Esta afirmação começa logo mal por ser machista e ainda assim podemos esmiuçar. Numa população de cerca de 10,5 milhões de habitantes residentes, 5,5 milões são mulheres. São 4,9 milhões de homens, mas arredondo para 5 milhões já que se a ideia de Jeroen Dijsselbloem era apontar gastos com intuitos sexuais, assumo que lésbicas também possam gastar com mulheres.

Só que destes cerca de 1 milhão tem menos de 15 anos e não gasta com mulheres, pelo menos valores expressivos. Mais meio milhão está acima dos 70 anos e já não tem gastos destes.

Segundo Jeroen Dijsselbloem 3,5 milhões de pessoas, na sua maioria homens, dão cabo da economia nacional com gastos supérfluos em mulheres.

Ainda assim não podemos deixar de reparar que este tipo de gastos iria impulsionar o mercado interno e isso não se verifica. Poderíamos considerar que para alguns gastarem era porque havia consumo e com consumo alguém teria de produzir.

O que ele não nos diz é que não são 3,5 milhões, antes talvez uns 3500 que encabeçam o poder politico e económico do país e que sequestram os rendimentos da produção laboral nos seus mealheiros e o que não fica nos mealheiros destes é para os mealheiros cada vez mais gordos promovidos como canalha como Jeroen Dijsselbloem. São esses que ganham da usura. O país está assim, o sul da Europa está assim, não é por culpa das mulheres, mas porque passamos o tempo a engordar agiotas nacionais e internacionais.

Eu gasto dinheiro com mulheres. Com duas que tenho em casa. Com uma partilho custos e rendimentos, outro gasto em educação, saúde e no que lhe possa dar para ter uma infância rica, fértil e feliz. Estes são os meus gastos com mulheres. E quanto a álcool, se fosse à minha conta morriam de fome.

Quando se fala que é preciso um 25 de Abril para a Europa, é porque a União Europeia e as suas instituições são governadas por tipos como estes com agendas próprias, com preconceitos, que favorecem poucos à custa de muitos, que separam em vez de unirem.

Palavra dita não volta atrás e as desculpas subsequentes não o socorrem. Não vou aqui tentar ofende-lo de nenhuma forma. Julgo que já o fez de modo suficiente e consistente a si próprio.