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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A Estranha Evolução do Homem

 

 

O Homem, assim como os seus antepassados, é um animal social. Mas o que é isso de “animal social”?

Antes de mais, temos de perceber concretamente o que é isso de social. Social tem a sua etimologia no latim socialis e desta fazem parte outras palavras associare (juntar, agrupar) ou adsocius (associados). Ora conseguimos assim entender que se traduz num conjunto de indivíduos que se associa em nome de algo, neste caso da sobrevivência.

A partir do momento que indivíduos se juntam são precisas regras formais ou informais para que o grupo se mantenha enquanto tal. Em todos os animais sociais existem hierarquias e papeis bem definidos e comportamentos para cada um desses papéis sociais.

Todos os animais sem excepção usam e abusam da base da pirâmide de Maslow, as necessidades fisiológicas. Quanto mais complexo for o animal mais este sobe degraus desta mesma pirâmide. E o segundo degrau justifica plenamente o comportamento social dos animais, ou seja, segurança.

A partir daqui, e já que vivem em sociedade, sobretudo nos predadores podemos começar a observar comportamentos de delegação de tarefas. Enquanto uns caçam, outros tomam conta das crias. No processo de caça, estratégias de caça complexas.

O Homem é o apogeu da complexidade social.

 

No entanto, em quase todas, senão todas as espécies de animais sociais, existem elementos denominados de Free Riders. Este tipo de individuo, conhecendo as regras da sua sociedade, contorna-as deliberadamente aproveitando-se do esforço colectivo para proveito individual.

Como o próprio nome indica, são sujeitos que vão à boleia do esforço dos outros.

Se em qualquer outro animal este aproveitamento passa por comer sem caçar, reproduzir sem cuidar das crias ou protecção sem proteger, para o Homem, em linha com a maior complexidade social segue também a variedade de modos para que alguns indivíduos se aproveitem do trabalho de outros.

Curiosamente os free riders quando são apanhados são severamente punidos podendo ser expulsos da comunidade e com isso uma provável morte antecipada.

Para o Homem actual, estas características não só não são punidas como são valorizadas.

Quando vemos casos como Isaltino Morais, condenado por fraude, abuso de poder e corrupção e ainda assim existe a intenção de o eleger.

Quando temos políticos envolvidos em esquemas, e sabemos que estão quer as provas sejam consistentes ou não o suficiente para produzir uma condenação e depois votamos nestes.

Quando acolhemos como normal o sistema financeiro actual onde os jogadores em bolsa nada fazem para além de viverem do dinheiro produzido por quem efectivamente trabalha.

Quando aceitamos que uma empresa apresente milhões de lucros e ao mesmo tempo pague salários miseráveis.

Todos estes casos são Free Riders e até são premiados como o Zeinal Bava ou Ricardo Salgado.

Foi preciso o próprio sistema de Free Riders colapsar para que eles próprios marginalizassem estes sujeitos.

Não é o médico o valorizado, mas o sujeito que gere o hospital.

Não é o cientista que é valorizado, mas o investidor.

Não são as pessoas que são valorizadas, mas sim o Deus Dinheiro em que as pessoas deixaram de ser membros de uma sociedade e passaram a ser um número resultante do seu custo face à riqueza que pode gerar.

Não é de estranhar que o Ministro japonês tenha dito que se deveriam deixar morrer os idosos. A única diferença entre este e os restantes é que este disse-o publicamente.

A tal sociedade da qual todos somos sócios, deixou com o tempo de defender a sua espécie e passou a canibaliza-la e por isso muitas vezes se defendem medidas à laia de lei da selva que não acautelam a sociedade mas curiosamente acautelam quem se pode acautelar.

Curiosa a nossa evolução social que deixou de condenar o Free Rider para o glorificar.