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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A Direita e a deturpação do discurso político

O discurso político não muda. Como uma cassete em modo contínuo. Se calhar agora já em formato digital, tipo mp3, mas sempre com a mesma mensagem; a mesma ideia. A Direita é a guardiã da verdade, o supra-sumo da honestidade o exemplo acabado do rigor. Sempre que as coisas correm mal, é colocada a culpa na Esquerda, cujos membros são sempre apelidados de radicais, no sentido pejorativo do termo, piegas ou perigosos e que não sabem fazer contas.

Isto serve também para quando existem posições contrárias às da Direita. Pois, com efeito, como é que é possível negar a verdade? Serão por ventura os críticos adversos ao rigor e à honestidade? Colocando a questão neste patamar, a Direita incute no eleitorado o sentimento de insegurança e a dúvida plausível. E esse medo, essa incerteza, é invariavelmente potenciado em votos. Só assim se consegue explicar que após o descalabro nacional dos últimos 4 anos, a coligação responsável pelo Governo apresente uma intenção de voto ainda superior a 30% (embora esta seja a mais baixa em 40 anos de democracia).

A Esquerda não está imune à crítica, sendo cúmplice desta situação. Permite que o discurso se mantenha no campo do certo e errado, do bem e do mal, do moderado e do extremismo, deixando-se arrastar na ressaca dos conceitos vagos e politicamente indefinidos. Fica assim claro que o método da Direita tem resultado. Continuam a apresentar-se como senhores da verdade e tal tem colhido frutos. É forte a mensagem transmitida de que fora do seu campo ideológico não há alternativa; é o vazio. Descredibilizam totalmente as ideias alheias, adjectivando-as de erradas, radicais, demagógicas. Este é o método e é isto que a Esquerda tem de combater.

O primeiro passo será contrapor ao defendido pela direita factos e casos incontestáveis e que invertam a polaridade da dúvida plausível. A título de exemplo peguemos no caso do emprego. A coligação destruiu 400 mil postos de trabalhos. Nos últimos 2 anos criou 200 mil, defendendo com isso que é a retoma que está a caminho. Entretanto a taxa de desemprego recuou para valores de 2011, segundo dados do próprio INE. Então, se foram extintos 400 mil postos e criados 200 mil, havendo um saldo negativo de outros 200 mil, como é que o desemprego diminui? A resposta sabemos onde está. No mito urbano da emigração, nos que desistiram, no contratos de inserção e nos estágios bonificados. E são estes pormenores que a Esquerda deverá explorar.

O segundo passo será a desmistificação da ideia de radicalismo. Se larga franja dos especialistas económicos, muitos do campo conservador, indicam que a nossa dívida externa é impagável, como é que é possível continuara a considerar o processo de renegociação da dívida um acto de radicalismo? Ou iniciamos já esse procedimento ou seremos ultrapassados (e talvez cilindrados) pelos acontecimentos.

O terceiro passo deverá ser o de esclarecer que em política nem tudo o que parece é, especialmente na Direita. Esta, que se apresenta tantas vezes vestida de imaculada honestidade, é sistematicamente acometida por casos de corrupção, seja especificamente por via partidária, seja por via dos interesses instituídos e da banca e alta finança, campos ideologicamente ligados ao liberalismo, logo à Direita nacional.

Por último temos o passo mais difícil. Rebater um sentimento tão humano e natural como o medo, a insegurança. Libertar as pessoas do medo é também libertá-las da subserviência e do conformismo, os 3 vértices que compõem aquilo que eu gosto de chamar de “triângulo vicioso” que domina a nossa sociedade. Para isso, a Esquerda deve dotar o seu discurso de esperança. Só através da visão de um caminho, de um rumo e de um futuro, pode o povo compreender que existe alternativa e que a mesma é de Esquerda. Que abraça o progresso, a evolução social e que luta sem quartel as desigualdades. Que não é nem extremista nem radical. “É de esquerda; e ponto!*”

Traduzir o discurso da Direita e torná-lo mais acessível à população é meio caminho andado para a sua derrota. Cabe à Esquerda ser competente e prestar este serviço público...

 

Montijo, 20 de Setembro de 2015

 

*frase proferida por Ricardo Alves, aquando da entrega da documentação no Tribunal Constitucional para formalização do LIVRE