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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A Desfaçatez

Ao que parece a Galp alargou o seu negócio. O grupo dedicou-se agora ao turismo, nomeadamente a um nicho particular dessa actividade, o apoio logístico a deslocações de secretários de estado para eventos desportivos de monta. O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais – Fernando Rocha Andrade, foi assistir a jogos da selecção nacional no Euro 2016, em França, às expensas da Galp. E sim, isto passou-se realmente.

 

Também João Vasconcelos, Secretário de Estado da Indústria, se viu envolvido no pacote turístico da empresa petrolífera. Embora este faça a ressalva de que pagou o bilhete de avião e já entrou em contacto com a empresa para perceber se existe mais algum valor por saldar. Situação que Rocha Andrade pretende plagiar, pois após a polémica estoirar já veio afirmar que vai acertar contas com a Galp. Já durante o dia de hoje, veio o secretário de estado da internacionalização (Jorge Costa Oliveira) a terreiro confessar que também estava incluído na excursão, mas que pretende pagar todas as despesas. Isto parece uma epidemia.

63. Rocha_Andrade-Joao_Vasconcelos-Costa_Oliveira.

Entretanto veio à discussão o diferendo entre o grupo empresarial e o fisco. O valor de impostos em dívida reclamados pelo Estado supera os 100 milhões de euros. Coisa pouca… Recorde-se que Rocha Andrade tem a tutela da Autoridade Tributária.

 

Mas esta questão não se prende somente com o possível conflito de interesses que se apregoa. Este tipo de oferenda é reprovável em qualquer contexto. Mesmo que estivéssemos a falar do secretário de estado da educação e que a empresa em causa fosse a mais fiel cumpridora da lei fiscal em território nacional.

 

O despudor com que se tratam estes assuntos não vem de agora, todos o sabemos. Os convites, as ofertas, os favores, os empregos... Estes expedientes levados a cabo pelo sector privado, sendo certo que só existem porque do outro lado alguém é conivente, alimentam um contínuo estado de suspeição. E isso não é bom, nem para os detentores de cargos políticos e/ou públicos, nem para as instituições públicas (e privadas).

 

Ao mesmo tempo, nunca parecem advir consequências de episódios desta índole. Na minha opinião, estes secretários de estado deviam estar seriamente a equacionar a demissão. Caso tal não aconteça, convém a António Costa relembrar, como o fez a João Soares, qual a conduta que um governante deve ter mesmo quando sentado “à mesa do café”.

 

Em tempos escrevi, sobre Passos Coelho e o caso Tecnoforma, que a um primeiro-ministro não se exige nada por aí além. Apenas que seja impoluto. Isso é expansível a todos os detentores de cargos políticos. Devem fomentar uma postura de integridade e verticalidade. Desempenhar as funções no estrito cumprimento da ética republicana. Sempre deveria ter sido assim, sem necessidade de qualquer chamada de atenção. Pode ser que o constante escrutínio a que estão actualmente sujeitos possa contribuir para terminar, de uma vez por todas, com tanta desfaçatez.

 

Montijo, 4 de Agosto de 2016

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