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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

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O Professor Xerife

 

No mítico filme ‘2001 Odisseia no Espaço’ há uma igualmente mítica cena em que o nosso ancestral descobre a capacidade de usar ferramentas e em consequência, descobre que pode usar ferramentas para matar, para trazer a si mais poder face aos outros. E mata e todos os outros aprendem que usando ‘ferramentas’, podem igualmente matar.

 

Quando olhamos para o nosso mundo, o que nos é contemporâneo, podemos observar países em guerra, altamente militarizados, países que atravessam um período de paz, em que há muitas armas, mas estão paradas, países que atravessam um período de conflito, onde há poucas armas, mas que são muito usadas, e países de paz duradoura.

 

Nestes últimos, temos países onde o culto da arma está mais presente e outros onde está mais ausente.

Podemos comparar os EE.UU. com a EU e sabendo do numero de armas civis per capita perceber onde é que se morre mais por morte violenta.

 

Esta semana, mais um tiroteio numa escola nos EE.UU. e imagine-se, não era um terrorista, antes pelo contrário. ANTES PELO CONTRÁRIO!

Donald Trump, aquele que diz que tem um Quociente Intelectual acima… muito acima da média, saca da cartola mais uma das suas maravilhosas ideias.

Ora se nas escolas anda a aparecer malta aos tiros, o problema não é que toda a gente esteja armada, o problema é precisamente a falta de armas onde é preciso.

 

Onde?

No bolso do professor.

Portanto agora o professor vai de xerife para a escola.

Há uma frase popular que diz que o problema não está nas armas, mas nas pessoas que as empunham. É bem verdade, mas as pessoas não posso eliminar da equação.

 

Na UE temos problemas? Claro que temos. Mas o Trump não é um deles.

 

Um Rio que corre rumo ao passado

No último dia do congresso do PSD, Rui Rio apresentou, perante o país, um discurso dirigido ao passado, descontextualizado face à situação actual do planeta, da Europa e de Portugal, e pobre em propostas. É verdade que Rio soube listar desafios e é também verdade que, apesar de pobre, o discurso incluiu algumas tentativas de ideia. Mas, no essencial, tanto os desafios listados como as ideias esboçadas seriam, quanto muito, enquadráveis nalguma das décadas finais do século passado. Dirigidas ao passado, incapazes perante o futuro.

 

E é assente nessa incapacidade de perspectivar o futuro que Rio, munido de um texto para preencher uma hora ou mais, se revelou à margem dos grandes desafios que a humanidade, no seu conjunto, enfrenta no século XXI: da escassez de recursos, alicerçada numa complexa crise ambiental, à crise dos refugiados, passando pelo aprofundar da desigualdade, nenhuma destas dimensões mereceu sequer uma referência breve no discurso de um homem que quer ser candidato a Primeiro-Ministro de Portugal.

 

Poderão alguns lembrar de que este era um discurso exclusivamente focado em Portugal. Natural ao tipo de congresso que este foi. Mas é aceitável que, em 2018, se procure construir alguma ideia para Portugal fora daquilo que deve ser um entendimento atento do que se passa nas várias escalas em que nos inserimos?

 

Rio exibiu preocupação com a pirâmide etária, em Portugal, e com a sustentabilidade da segurança social. Não, ele não se estava a referir à Sustentabilidade (aquele conceito tão bizarro para tantos políticos Portugueses, que agrega ambiente, sociedade e economia). Rio referia-se apenas à sustentabilidade económica.

 

Desse prisma estritamente económico, a preocupação é legítima. Enquanto vivermos imersos num sistema de segurança social de escassa capitalização e fundamentalmente assente nos rendimentos de uma decrescente população empregada, o envelhecimento da população (em termos relativos) é, por si só, um desafio económico. Mas ensaiar uma espécie de solução em torno da questão da natalidade, como Rio fez, está ultrapassado. É um discurso antigo. Não serão taxas de natalidade mais elevadas a resolver o puzzle. Sobretudo se ‘decretadas’. A taxa de natalidade cresce naturalmente quando a população em idade reprodutiva tem condições para viver, trabalhar, planear e sonhar. As políticas da natalidade são as políticas do bem-estar, da justiça laboral e do combate à desigualdade.

 

Mas não esqueçamos: mesmo assim, a natalidade não deixa de ser apenas um factor. Políticas de imigração inteligentes ajudarão também e até se poderão relacionar de forma ágil com um daqueles desafios globais que Rio ignorou – o dos refugiados. Não obstante, é óbvia e provável a escassez crescente de verbas para pagar reformas e pensões. Seremos capazes de viver com menos? Estamos prontos para a transição? Padrões de consumo mais sustentáveis e um e um custo de vida menor, num país com um Estado Social revigorado, permitirão decerto também ajudar a resolver o puzzle. Mas quem fala de bem-estar? Quem fala da redistribuição necessária? Rio? Não.

 

Rio falou também do território e do despovoamento (já agora, repetindo o chavão típico e errado da 'desertificação'), procurando lembrar a falta de pessoas no interior do país. Soluções? Desenvolvimento sustentável alicerçado no território? Agricultura de precisão, inovação e ecoturismo? Recolocação dos serviços públicos levados pela tormenta austeritária do senhor anterior? Não. Descentralizar as sedes das instituições, sugere Rio. As sedes. O Tribunal Constitucional. Enfim.

 

Foi isto o discurso final do congresso do PSD, numa mescla que incluiu ainda as críticas corriqueiras e habituais à natureza da esquerda que apoia o governo de PS.

 

Em casa, os Portugueses que escutaram este discurso com atenção só podem tirar uma conclusão: dos partidos antigos, dos directórios habituais, pouco mais se pode esperar do que provocações, lugares-comuns e ideias antigas.

 

Entretanto, cá fora, a florir e com ideias frescas, o futuro acontece.

 

 

E-fatura em nome próprio

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Hoje é o último dia para validar o nosso consumismo de 2017.

Farto-me de reclamar que o Estado não fiscaliza e para esta ocasião ou para este efeito “aí não fiscalizamos? Então fiscaliza tu para veres como é… “.

Se bem o disse melhor o fez, é passamos a ser fiscais de nós próprios.

Se queres deduzir, tens de inserir o NIF. Se não validarmos, nem sei o que possa acontecer. Mas se me enganar é carregar o botão errado, aparece logo o aviso: “aí não, sr. João. No botão ao lado por favor… “.

O problema é que em Fevereiro de 2018 já não me lembro do que comprei em Fevereiro de 2017 e o nome fiscal da loja não ajuda nada. Faz-se uma fiscalização amadora e a despachar que a nossa vida não é fiscalizar. Quero lá saber se é cabeleireiro, oficina ou lar. Na dúvida carrego em ‘outros’ e prontos.

Fiscal amador, desleixado e apressado. Mas não me inscrevi para a função…

 

No mês passado estive na Áustria, em trabalho. De véspera, o departamento de contabilidade deu o aviso “não te esqueças de meter o contribuinte nas faturas”.

Depois de lá estar, tirando faturas normais, entre empresas, onde constam todos os dados das duas partes, não há como meter nif’s.

Onde há fatura simplificada, se pedirmos para meter o NIF, até fazem cara estranha como quem diz um disparate enorme.

Acabam a conversa a dizer que nem sequer há forma de o fazer.

Vejam bem, um país onde a Uber é proibida, não existe, pelo menos de forma legal, airbnb, os cidadãos não fiscalizamos o consumo que fazem…

 

Onde já se viu, confiarem no sistema. Ou talvez o Estado fiscaliza convenientemente em vez de delegar.

 

 

 

 

O Fim da Liberdade de Expressão

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Há dias sentei-me no avião, daqueles três lugares laterais, no do meio. Quem ia comigo nunca tinha viajado de avião e pediu para ir na janela. Obviamente que acedi ao pedido.

Ao meu lado, para a coxia, uma rapariga roliça, loira e de olho claro. Guardou a sua bagagem e sentou-se.

O avião começou a fazer-se a pista e a rapariga pegou num livrinho, tanto quando percebo, em árabe, e começou a lê-lo e assim continuou até que o avião já ia bem alto, acima das nuvens.

Fez-me lembrar o relato de Heitor Lourenço que foi preso por estar a meditar num avião…

Terminada a subida, pegou numa daquelas almofadas em U para o pescoço. Estranhamente, colocou-a ao contrário, enfiou a cabeça no meio dela como se fosse uma tartaruga a recolher a cabeça para a carapaça, e assim ficou a dormir, até à refeição.

À chegada, enquanto a rapariga se sumia num passo apressado, um rapaz jovem tinha o seu pequeno filho ao colo. Era judeu. A sua roupa que usava tornava essa informação óbvia, e se disser que usava calça preta, casaco preto, camisa branca, chapéu, barba  e o cabeço encaracolado nas suíças, também não terias duvidas.

 

Talvez em busca de um fraldário, passou em passo acelerado à minha frente. Estranhamente o tronco dele não se movia na vertical. As pernas moviam-se como se tivessem suspensão e o tronco não fosse influenciado pelo processo de caminhar.

Um e outro caso, relatei-os como estranhos, não porque tinham uma religião, mas porque fizeram algo de estranho ou caricato e que poderia ter sido feito por qualquer pessoa do planeta.

Sinto por vezes que começo a ser dos poucos neste mundo que não procurar nenhuma forma de violência, nem de receber nem de promover.

A rapariga não me incomodou porque lia, nem por parecer uma tartaruga. O rapaz não me inquietou nem pela roupa nem pela pressa nem pelo modo de caminhar. E nenhum deles mostrou animosidade ao cruzarem-se. A única pessoa com alguma animosidade era a senhora dos serviços alfandegários, de regresso a Portugal, que queria ver o que a malta trazia nos sacos.

Mas esta conversa não se fica por aqui.

Um rapaz, lá para Israel, partilhou um vídeo precisamente com estas preocupações. Ele é Vlogger, está na rua a gravar um vídeo e passa por ele um judeu. Ele explica o que faz, quantas pessoas o seguem e a determinada altura ele refere que é muçulmano e começa o debate entre eles.

Ele preocupa-se mais com o facto da irmã do primeiro judeu, aos 15 anos ter odio aos muçulmanos sem os conhecer. A mim, preocupou-me que o judeu, para justificar que aquele muçulmano afinal era um tipo normal, não podia ser muçulmano, mas francês. Ele tinha pinta de francês. Refiro-me ao judeu como judeu, não como sinal depreciativo, mas como única referencia que tenho para o distinguir do vlogger, esse chamado Nas, que é muçulmano. Ele próprio fica indignado que vizinhos, que alimentam ódios através do que lhes é vendido nas televisões, não possam viver em comunhão.

 

Deixo o vídeo para que possam ver como eu vi.

 

 

Mas não acabo os problemas de liberdade por aqui.

Mesmo no ocidente, pelo menos pessoas que procuram melhorar de modo moderado, não forçando nem sendo forçado, sinto que hoje em dia não posso dizer nada sem correr o risco de ser atacado por alguém.

Quem se expões como eu, a escrever o que pensa, arrisca-se a ser criticado, mas o meu problema não é estar sujeito à critica, é a tentativa de me tirarem a liberdade de expressão.

É até, tirando na esfera muito privada, proibido brincar com a vida. Uma piada que inclua doenças, minorias, franjas sociais, preconceitos, conceitos, maiorias, religião, politica, futebol, vida em geral, equivale a uma quantidade imensa de dedos acusadores. E não sou só eu que o digo. Os comediantes, esses que vivem de fazer humor com o que a vida oferece, dizem que o humor já hoje está castrado.

Devo dizer que não sou fã do Rui Sinel de Cordes. Nada relacionado com as polémicas, mas prefiro outros registos. E à conversa com Rui Unas no seu programa “Maluco Beleza” ele diz que em Londres fazer piadas sobre etnias, minorias, deficientes e afins é meio caminho andado para não trabalhar no mundo da comédia. Só aqueles que são velhos humoristas do humor negro podem hoje abeirar-se desse tipo de piada.

 

E não é só no humor.

Ainda há pouco tempo disse que a palavra feminista me leva para a ideia de uma posição oposta ao que existia, ou seja, sair-se de uma sociedade patriarcal para uma sociedade matriarcal, e que defendendo uma palavra de igualdade entre cidadãos, porque de tudo, quando um cidadão nasce tem direitos iguais a qualquer outro na mesma condição, fui logo atacado, até pelos meus pares que noutras circunstancias pedem “igualdade”.

E neste caso pedem-no também, mas não engolem que eu não aceite a palavre “feminismo”.

 

Rui Sinel de Cordes, neste especto tem razão. As pessoas hoje juntam-se em matilhas através das redes sociais e castram a liberdade de qualquer um, pelo menos até que ele se silencie com posições contrárias ao main stream. E se este não encontra uma falange de apoio, o melhor é meter a opinião no saco da viola e seguir viagem.

 

Valha-me a liberdade que me resta para continuar a escrever…

A RTP voltou a constar na minha lista de canais

 

 

Sou um defensor do Serviço Publico. Parece-me que há aspetos da comunidade que precisam de ser senão do domínio publico, pelo menos tê-lo como referencia e salvaguarda.

Saúde e educação não terão de ser na totalidade da esfera publica, mas esta terá de assegurar a existência de um serviço de qualidade, no mínimo, razoável.

No que toca à televisão, tenho tido ao longo dos anos muita dificuldade em definir o serviço como cousa publica.

Visto daqui tenho tido sempre muita dificuldade em diferenciar o produto oferecido pela RTP do produto oferecido pelos outros canais generalistas. Tenho passado anos a olhar para a RTP como um canal que tenta fazer o mesmo que os outros, mas que por norma o faz de forma mais enfadonha.

A espaços, lá aparece alguma coisa que me atrai como é o caso do “Conta-me como foi” que me fez regressar ao passado, “Os filhos do Rock” ou “Os boys”.

Curiosamente tudo séries de ficção.

É certo que eu não sou exemplo de telespectador. Vejo pouca televisão, quando o faço ou vejo programas informativos ou sigo diretamente para os canais das séries. Fora isso, já vou fazendo a minha programação no youtube.

Dito isto, muito me espanta que agora comece a sentir algum serviço público e comece a passar pela RTP para ver se está alguma coisa a dar que mereça ser vista.

O primeiro momento deixo-o a “Fugiram de casa dos seus pais” de Bruno Nogueira e Miguel Esteves Cardoso. Uma parelha inesperada de gerações muito diferentes, que falam sobre tudo em geral e nada em particular. Faz-me parecer um pouco as conversas com amigos quando tentamos fazer com que a vida seja pesada demais, brincando com coisas sérias com a liberdade que nos resta.

 

Depois tropecei em António Raminhos na sua missão em busca de se transformar num cidadão 100% português. Quando vi este programa, foi o momento que senti que aquilo era verdadeiro serviço publico.

António Raminhos esvaziou a sua casa e a sua vida de tudo o que não era feito em Portugal, salvou-se a casa, a mulher e as filhas, ao que consta todas made in Portugal, e durante 6 meses, tentarão viver com produtos exclusivamente nacionais. Vestuário já está garantido e até já tem telemóvel. Veremos como correm os próximos episódios.

Passe a publicidade, devo dizer que tinha escutado a entrevista da IKI na Antena 1 e na hora do programa tentei aceder à página para conhecer os telemóveis. Com surpresa verifiquei que a página estava em baixo devido ao excesso de acessos. Mais me animou o programa enquanto serviço publico. Não tenho quota da empresa, mas num mercado sem expressão de empresas nacionais, deixar ali o link é apenas uma pequeníssima ajuda para ampliar a presença portuguesa neste segmento de mercado.

Podia ficar-me por aqui, mas não o faço. Na sequencia vejo um documentário relevante sobre a nefasta atividade da Monsanto. Não, não me refiro a Monsanto em Lisboa nem a Monsanto da Beira Baixa. Refiro-me à empresa que domina, abomina, devasta e corrói a agricultura mundial. Não vou nesta instancia fazer o manifesto anti-Monsanto, mas agrada-me ter assistido a “Semente – A História por Contar” que deu ontem na RTP1.

E para finalizar, o Prós e Contras de hoje onde o tema foi a poluição no Rio Tejo. Não vou aqui por hora alongar-me sobre o conteúdo porque ainda não o vi na totalidade, mas muito me alegra que tenham sentado o Ministro da tutela ao lado de Arlindo Marques, o defensor do rio Tejo.

 

Este foi o resumo do pouco tempo que tive em frente à televisão durante o fim-de-semana e devo dizer que desde que me afastei das televisões generalistas, e já faz muito tempo, que vejo uma grande melhoria na RTP no que toca ao que eu considero serviço publico.

 

Não vou voltar aos anos 80 onde passávamos, sobretudo no inverno, os serões em frente ao televisor e sem muito mais para entreter, mas estou certo que pelo menos eu, se continuarem assim, tomarei muito mais atenção ao que se passa no canal e assistirei a muito mais conteúdos.

O perigoso Adolfo.

No Expresso do dia de ontem, 10-2-2018, Adolfo Mesquita Nunes, vice presidente do CDS-PP revelou uma parte importante e não pública da sua vida privada. Toda a gente já leu, toda a gente já comentou e, pelo menos no meu circulo de amigos virtuais, todos já aplaudiram a coragem de Adolfo. Não é para menos. Num país de velhos e maus costumes, assumir a homossexualidade quando se é dirigente num partido de direita, com a serenidade e coragem com que Adolfo o fez, não é para todos. E, por tudo isto, junto-me aos aplausos que lhe são merecidos e confesso a minha admiração pela coragem de Adolfo.

 

No entanto,a entrevista é muito mais do que isto. E aí entra em campo o meu, nosso, adversário político e defensor de uma ideologia que não aplaudo mas pretendo combater no campo político. Adolfo revela que se sente confortável num partido de centro-direita, ocupando o espaço num setor anteriormente ocupado pelo PSD. Na sua entrevista não fala da inspiração cristã, ou de humanismo cristão, deixando que o eleitorado mais conservador fique cativado pela religiosidade de Assunção Cristas e o eleitorado, mais liberal nos costumes, fique cativado com Adolfo. Esta estratégia, pensada e bem montada pelo CDS, coloca-o bem posicionado para responder aos setores mais conservadores do PSD que se revêm no chavão “liberal nos costumes e conservador na economia”, seja lá o que isso for.

 

Depois, Adolfo conta a sua história familiar, comum a muitos portugueses. Conta a falência das empresas da sua família, deixa-se fotografar junto a uma delas e assume a derrota que é sempre pesada e marcante. Esta parte pessoal é muito importante, porque permite que muitos portugueses se revejam nesta história de luta e de falhanço, sem mágoas e sem culpas. Num país onde só se elogia o sucesso, as histórias de fracasso são essenciais para muitos portugueses, que tudo arriscaram e tudo perderam, se revejam e se sintam acarinhados pela partilha da história familiar do Adolfo. Mas atenção, Adolfo descreve a história do seu avô e não a sua própria, recordando que uma das coisas que mais o emocionaram na campanha, foi o número de pessoas que o foi abraçar por “ser neto,bisneto de quem era”. E aqui está o busílis da questão “ neto de quem era”, a pertença a uma elite, que era caridosa com o povo. Adolfo descreve os micro-créditos concedidos pelo avô, colocando em campo o valor da caridade e não da solidariedade. E, como todas as histórias de insucesso têm um culpado, Adolfo identifica-o bem: Cavaco Silva.

E nessa subtileza nada subtil, Adolfo faz-nos esquecer os anos da troika em Portugal, quando o CDS-PP fez parte do Governo mais destrutivo desde o pós 25 de Abril, que levou à falência milhares de empresas e famílias.

 

Adolfo é perigoso sim. E cá estaremos atentamente para o escutar, para o combater e para lhe relembrar, sempre, os trágicos anos recentes que vivemos e dos quais o CDS-PP fez parte.

A velocidade dos Estados é um estado de espírito

 

 

Há cinco dias atrás, escrevia eu sobre a poluição no Rio Tejo.

Ontem, no jornal Publico.pt, um artigo diz o seguinte: “Na quarta-feira, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) concluiu que as descargas das empresas de pasta de papel a montante do açude de Abrantes, onde há uma semana foi detetada uma grande mancha de espuma, tiveram um “impacto negativo e significativo” na qualidade da água do rio Tejo, que resultaram num acumular de carga orgânica. A agência detetou níveis de celulose “cinco mil vezes” acima do normal.”.

 

Não há duvidas nenhumas, o rio está poluído. Não há duvidas, sabemos que há culpados. Não há duvidas, sabemos que as instituições publicas só não ignoram o óbvio porque as redes sociais e a comunicação social ainda não largaram o tema. Esperam por outro tema emocionante…

Bom, na segunda entrei num táxi em Zurique e das primeiras coisas que o senhor me disse foi que o clima estava mudado. “estamos no fim de janeiro e não há neve. Por esta altura tudo devia estar branco, e nada…”.

A viagem ainda demorava um pouco e o excesso de tempo disponível é propicio à conversa de cerejeira. Não sei bem o motivo, mas a determinada altura dizia ele que nos tempos livres pescava. Está quase na idade da reforma e pretende andar por aí a pescar. Tinha a ideia, errada, que pescar em Portugal era coisa cara.

Bom, na conversa do peixe, e no meio das indicações turísticas, dizia ele que o peixe no lago Constança estava cada vez menor. Nas margens, toda a água passava pelas estações de tratamento e com a falta de matéria orgânica, o peixe não tinha forma de se alimentar o suficiente para crescer. A água do lado pode ser bebida diretamente de lá porque não faz mal, dizia ele.

O lago é partilhado por três países e zelam tanto por ele que acaba por ser demais. Tornam-no estéril de tanta limpeza que lhe fazem. ´

Por cá, as fabricas não querem saber, as instituições que tutelam o ambiente e os rios, não querem saber, a presidente de Camara de Abrantes diz que uma coisa com décadas não pode ser resolvida de um dia para o outro, o Governo não quer saber, e é preciso um punhado de pessoas irredutíveis a publicar constantemente os atentados, é preciso um mar de espuma poluente invadir o rio e ser partilhado e repartilhado nas redes sociais, para se tornar tema e se dizer “agora é que vai ser, agora é que vamos resolver o problema”.

 

Fico irritado quando dizem que Portugal é um país atrasado.

Atrasado não é o país, é quem o governa e mais do que estes, quem os elege.

Aquela velha máxima do “são todos iguais” para depois servir de desculpa para as nossas frustrações populares quando todos iguais somos nós os que os elegemos.

Sacrificar a Caixa

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Marcelo, diz que a recuperação da Caixa exige sacrifícios que em geral se justificam. António, afirma que apesar do Estado ser o único accionista da Caixa, o Governo não se intromete na sua gestão. E desta forma dão carta-branca a Paulo Macedo e seu bando, administradores que na sua maioria são oriundos do BCP e BPI, desconhecedores do que é a realidade de um banco público e de tudo o que isso implica.

É uma posição cómoda e confortável para os decisores políticos descartarem-se de responsabilidades relativamente à Caixa, mas é um crime para a economia nacional não interferir na defesa do banco público. Muitos dos clientes que a Caixa alberga seriam pessoas à margem do sistema bancário caso não existisse um banco público. Um banco cujo único objectivo não é, nem deve ser, a prossecução do maior lucro possível. À Caixa é exigido um serviço público que pouco diz à restante banca comercial, mas que muito diz aos portugueses.

Quando Paulo Macedo afirma que ninguém pode pedir à Caixa Geral de Depósitos para ficar em todos os sítios onde os outros bancos não querem ficar, está no fundo a dizer que não acredita nem perfila da ideia de que a Caixa dever prestar um serviço público. Esta afirmação implica condenar inúmeras comunidades à exclusão bancária. Pois se não for a Caixa a prestar esse serviço bancário, nenhum outro banco o fará.

Ao mesmo tempo Paulo Macedo afirma que a qualidade dos serviços deve ser paga. Mas de que qualidade ao certo é que o CEO está a falar. Das agências com tempos de espera muito acima do desejado e com quadros subdimensionados? Ou será da rede de dependências que definha e dá cada vez menos opções aos clientes? Provavelmente fala das comissões bancárias que orgulhosamente afirma estarem finalmente ao nível da restante banca, o que apenas fará com que mais clientes voltem as costas à Caixa. Convém perceber que podem subir-se as comissões bancárias na proporção que se entender, mas se não houver cliente para as pagar dificilmente estas serão uma fonte de rendimento considerável.

No fundo, esta Comissão Executiva pretende fazer da Caixa um banco igual aos outros. Quando o que tornava a Caixa Geral de Depósitos interessante e importante no sistema financeiro nacional era ser precisamente um banco diferente dos demais. Onde os trabalhadores cultivavam junto dos clientes relações de confiança vitais para o negócio bancário e para a construção da imagem de solidez da Caixa. Uma marca de credibilidade que parece agora estar a ser desbaratada.

Mas a recapitalização lá se concretizou e o plano de reestruturação avança a todo o vapor. Reestruturação que, como todos sabemos, é um eufemismo muito utilizado quando o que se pretende dizer é que se irá reduzir o número de trabalhadores. O desrespeito pelos trabalhadores é bem patente na Caixa e no sector bancário em geral. Os sindicatos e comissões de trabalhadores bem têm denunciado as pressões e atropelos. Jornadas laborais intermináveis e não remuneradas. Objectivos inatingíveis. Transferências de local de trabalho constantes e arbitrárias. Perda de direitos e retrocessos na contratação colectiva. O medo instala-se e a cultura do individualismo ganha terreno. Tudo é permitido para embaratecer e amansar uma classe de trabalhadores bancários que já foi sinónimo de prestígio, mas que caminham a passos largos para serem os novos precários. Para a opinião pública, que assistiu nos últimos anos aos milhares de milhões de euros de dinheiro público injectado pelo Estado para resgatar a banca, é difícil explicar que a culpa não é dos trabalhadores do sector bancário mas dos banqueiros. Perniciosamente, os ciclos de decisão dão-se muito bem com essa confusão, pois torna mais fácil tomar medidas que por princípio seriam mal recebidas e impopulares. Desta forma, a generalidade da população não contestará a “necessidade de reduzir” mais de 2200 trabalhadores na Caixa Geral de Depósitos até ao ano de 2020…

O rumo que a Caixa está a tomar pode muito bem apresentar resultados imediatos. Disso não terei dúvidas. É bem possível que a actual gestão apresente resultados positivos já em 2018, mercê de cortes e recortes e redução de trabalhadores. Mas quando o efeito imediato dessas medidas passar, de onde virão os resultados positivos e lucros necessários? Esta instituição secular não chegou aos nossos dias por decisões efémeras. As medidas que estão a ser postas em prática podem muito bem hipotecar o futuro do banco público e os decisores políticos assistem impávidos e serenos; cúmplices por omissão.