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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Contra a Corrente

 

 

Às vezes não é fácil ter uma opinião sobre determinado tema, uma opinião consciente e fundamentada. Não sei se fundamentarei do melhor modo, mas estou certo que desta feita, irei contra a corrente.

Esta semana morreu uma mulher porque foi atingida por um tiro proveniente da arma de um policia.

Os portugueses em geral lidam com a policia com bipolaridade. Por um lado, pedem sempre mais segurança, por outro, a policia é alvo de odio e criticas constantes. Basta que seja uma força da autoridade para isto acontecer. Quando cumpria serviço militar, o alvo a abater era a Policia Militar e havia louvores para quem lhes desse uns cascudos e peças do fardamento deles roubada eram para nós medalhas.

Bom, mas a senhora morreu e a população começou logo a atacar as forças policiais.

Visto daqui, sou forçado a contextualizar.

Há um assalto em Almada, fuga à policia com troca de tiros e lançado um alerta sobre essa fuga com uma descrição possível da viatura em fuga.

Minutos depois há uma viatura que não respeita a ordem para parar, insiste, investe contra os policias.

A policia inicia a perseguição e a viatura continua sem parar. A policia dispara e a senhora morre.

 

Depois do jogo terminar todos sabem o resultado. Depois do jogo, todos conseguem dizer o que poderia ter sido feito para atingir um resultado melhor e diferente.

Agora é fácil dizer que as viaturas eram de marcas diferentes, mas ao abrigo da madrugada isso não é fácil, sobretudo quando o condutor insiste em não parar quieto, fugindo até.

É curioso que quando me mandam parar, mesmo sabendo que vou ser autuado, eu paro. Curiosamente nunca dispararam contra mim. Curiosamente, conheço muita gente que já foi parada, multada até e nenhum fez de alvo para a policia.

 

Tenho a certeza que depois do jogo terminado e o resultado apurado, a policia enquanto instituição não está contente pela morte e pior que a instituição, os policias que dispararam e o peso na consciência do policia que deu o tiro fatal.

Não é preciso um curso superior para se perceber que ninguém queria um inocente morto, mas é preciso contextualizar e perceber que a norma não é a policia sair a disparar atrás de alguém que não para numa operação stop. Que estava a decorrer uma perseguição a assaltantes onde já tinha havido troca de tiros.

 

Não fico feliz com o incidente nem ninguém ficou, mas se continuamos a condenar o trabalho policial, e condenar onde não há critério para alem da condenação em si, mais vale acabar com a policia e safe-se quem puder.

O culto do sangue e da personalidade

 

 

Para quem é ateu, muito gosto eu de dar exemplos bíblicos…

Em determinada altura Jesus foi até ao Monte dos Olivais e por lá se sentou. Às tantas apareceram por lá uns fariseus com uma mulher que acusavam de adultério. O objetivo era apedreja-la como mandava o Antigo Testamento de Moisés.

E Jesus resolveu a questão dizendo: “Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.”. Os fariseus foram à sua vida e alguém achou que este era um bom ensinamento para a vida. E é, mas ninguém o segue.

 

Este episódio demonstra a vontade que o homem tem do culto do sangue. Esse é um exemplo de muitos que podemos ler ao longo da história. Onde há um condenado à morte, há uma festa em torno do culto do sangue. Enforcamentos, decapitações, desmembramentos… qualquer morte por castigo era visionada por uma horda de gente. E se pela ideia do punidor o objetivo era fazer daquela morte violenta um exemplo desincentivador para determinado comportamento, a verdade é que o povo se juntava apenas para ver alguém morrer de forma violenta.

Não somos assim tão primitivos?

Qual é o jornal que mais vende em Portugal? Que tipo de noticias alimentam esse jornal?

Ao culto do sangue juntamos o culto da personalidade.

Temos vários exemplos contemporâneos desse processo de culto da personalidade. Mussolini, Hitler, Lenine, Salazar, Fidel, Trump, Marcelo…

É estranho adicionar Marcelo no meio de outros de outra dimensão histórica?

Marcelo está em TODO o lado.

Morreram pessoas nos incêndios? Marcelo está lá!

Morreram pessoas com doença do legionário? Marcelo está lá!

O homem mordeu o cão? Marcelo está lá!

Ninguém morreu? Marcelo vai ajudar na distribuição de alimentos aos sem-abrigo!

Não há nada de significativo a acontecer? Inventa-se qualquer coisa para aparecer.

 

E Marcelo aparece todos os dias, e se antes tinha direito a um resumo ao Domingo à noite, agora tem sete dias para comentar.

Marcelo é promotor de um maior numero de noticias do que todo o Governo junto.

Estou convicto que um destes dias aparece aqui à porta só porque sim, com um batalhão de jornalistas atrás, obviamente.

 

E destes dois cultos se alimentam as pessoas, e destas pessoas se alimentam as redes sociais.

Antigamente eram poucos os que podiam promover o seu culto da personalidade, pelo menos em larga escala tal como eram poucos a promover o culto do sangue.  Algo reservado às cúpulas do poder.

Hoje em dia isso também foi democratizado, sobretudo pelas redes sociais, e todos procuram quer encontrar sangue quer instigar a mais sangue. O culto da personalidade também se democratizou e qualquer um de nós, sobretudo se promover o culto do sangue, pode alimentar o culto à sua persona.

Descobre-se que o lado social da coisa é a disseminação em curto espaço de tempo do que posso chamar de estupidez natural.

É mais fácil eu lançar uma petição para a demissão de alguém que tenha aceite o banquete no panteão nacional do que lançar o desafio para um debate construtivo para o futuro. É mais fácil, em ultima instancia, mobilizar pessoas para destruir do que para construir.

 

Se somos os mesmos selvagens que gostavam de lapidar pessoas? Sim, lamentavelmente somos. A embalagem tornou-se muito mais refinada, mas o conteúdo é precisamente o mesmo.

Urban Beach - Uma história antiga de violencia

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O titulo da crónica é “No meu tempo não era assim” e o autor é Filipe Vaz Correia.

Não sei a idade do Filipe, mas não deve distanciar-se muito da minha e como comecei relativamente cedo…

Pessoalmente nunca tive problemas com porteiros. Não tenho espirito nem corpo para contrariar uma parede, mas desde sempre assisti a confusões na noite.

Vi rapazolas a provocar porteiros, vi porteiros cobardes a serem os primeiros a fugir, vi porteiros com a mania de serem o São Pedro nos portões do paraíso, vi porteiros porreiros e vi porteiros que bem podiam estar no zoo, na companhia dos gorilas e se calhar até estou a ofender os gorilas.

Só para situar o tempo, um dia um idiota lançou no Rock Line em Alcântara um gás de cheiro duvidoso. A discoteca ficou vazia com um tipo sozinho a dançar Smell like teen spirit dos Nirvana, todo de ganga e de braços abertos enquanto girava.

O grupo decidiu não esperar por melhorias e avançar para o Alcântara. A noite passou e no momento em que saía, em frente ao bengaleiro, um dos gorilas desatou a distribuir tareia. Não sei os motivos e enquanto um de nós queria ficar a ver, eu queria sair dali para não ser mais um.

Já cá fora, a policia procurava saber quem tinha visto o que aconteceu.

Este é só um exemplo de como “no meu tempo” já era assim.

E tanto era assim que algures no tempo, porque já eram abusadores, foram obrigados a andar identificados com um cartão emitido pela PSP.

Qual é o critério das empresas quando recrutam “seguranças”?

Certamente que o critério passa pela escolha de sujeitos que impõem a sua presença pela compleição física.

E que mais?

Há alguma avaliação psicológica para avaliar a predisposição para a violência?

Um tipo que desata aos saltos em cima da cabeça de outro, não pode ser um tipo normal e tem, certamente, um passado recheado de violência.

Dizem as noticias que no TripAdvisor existem dezenas de reclamações relativas a violência dos seguranças. Obviamente que quando aparecem imagens nas redes sociais a coisa toma outra dimensão. Mais do que as imagens, as redes sociais.

Este, e outros como este, não podem andar em liberdade. Não são homens, são selvagens. No mesmo nível coloco os dois tipos de Coimbra que fizeram algo semelhante à porta do McDonalds.

 

Mas pior que estes sujeitos é quem os escolhe e os aceita.

O primeiro culpado desta história é a direcção do Urban Beach.

Lançam um comunicado a repudiar, mas o comunicado não é para repudiar nada, é para empurrar com a barriga as culpas para a empresa de segurança, a PSG, e para o individuo.

Pior, ainda alegam que o “incidente” foi na rua e como tal, não é nada como eles, como se a questão não estivesse ligada à operação do Urban Beach.

Quem contratou a empresa? De quem é o espaço? Quem aceita ou rejeita quem trabalha no seu espaço? Quem é que não tomou medidas NENHUMAS a propósito das reclamações no TripAdvisor, de onde saiu uma peça, de um entre muitos casos, de um grupo de turistas que também serviu de descargo de frustrações?

 

Em ultima análise, são culpados por negligencia. Em ultima análise os seus comunicados são vergonhosos.

 

Depois a própria da PSG, e se aqui é a PSG é preciso dizer que o problema é generalizado, que contratam sujeitos, não pela qualidade de serviço que possam apresentar, mas pelo volume de “jarda” que usam para parecerem grandes de músculos, para terem uma aparência intimidatória.

 

E intimidam. Tanto intimidam que agora o espaço está fechado e mesmo que abra, durante algum tempo verão as receitas encolher.

 

Espero que o MP não deixe a culpa morrer solteira, ao nível dos indivíduos, porque as empresas precisam ter responsabilidade por quem contratam.