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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Sindicato tenta destruir AutoEuropa

 

 

Em Novembro de 1917 os bolcheviques toam Petrogrado depois de meses de campanha ilusória espalhada por toda a Rússia. A luta de classes, a ditadura do proletariado, o suposto poder de decisão dos sovietes, o produzido a quem o produz… um arraial de ilusões que ainda hoje vingam em muitas cabeças apesar de muitas destas ilusões já nem sequer se aplicarem.

 

A verdade é que os sovietes passaram a seguir a doutrina de um comité central e a democracia foi pelo cano. As classes mudaram, mas mantiveram-se e o proletariado continuou só a ser isso mesmo, abelhas a trabalhar para uma causa que não é a sua.

 

E daqui saltamos directamente para a AutoEuropa (AE) onde de um lado temos uma empresa que podemos dizer ser um fiel representante do apogeu capitalista, do outro a verdadeira classe operária, aquela à moda antiga que ilustra a luta das classes, o operário fabril.

 

Factos: por diversas intervenções dos Governos, das quais não sabemos as regalias oferecidas para manter a AutoEuropa, mantivemos até hoje aquela unidade sem grandes conflitos apesar de serem praticados vencimentos acima da média nacional. Pelo caminho a unidade teve fortes flutuações de produção ao ponto de, através de negociação com a Comissão de Trabalhadores (CT), o “soviete” da casa, se chegou ao ponto, imagine-se, de baixar vencimentos a troco da não rescisão de contractos por excesso de trabalhadores face à necessidade de produção.

Hoje, através de nova intervenção do Governo, esta unidade foi seleccionada para produzir a titulo exclusivo um novo modelo e por isso, um aumento de produção.

A AE fez as contas para passar de uma produção de 90 mil para 200 mil e concluiu que tinha de contratar mais 1500 funcionários, já por ai ouvi 2 mil, e calculou que seria preciso aumentar um determinado numero de horas de produção.

Entrou em negociações com a CT e concluíram que uma proposta razoável seria um aumento de 175€ mensais acima do estipulado por lei, 25% para subsidio de turno, uma diminuição de carga horária de 40 para 38 horas semanais e um dia de férias extra.

Em contrapartida, o sábado passaria a ser um dia de trabalho com folgas rotativas, onde teriam direito a um duas folgas consecutivas por mês, de acordo com a lei, por um período de 2 anos.

O resultado da negociação entre CT e Administração, por um lado altera direitos adquiridos em que os funcionários mantêm as duas folgas, mas alternadas, por outro dá algumas regalias financeiras e de carga horária.

Os resultados foram pretórios de rejeição ao acordo e 75% disse que não!

A CT achou que a partir daquele momento não teria condições e demitiu-se dando lugar a outros que possam fazer mais e melhor.

Não conheço o contrato dos funcionários daquela unidade, mas fazendo fé do funcionário que falou na Antena 1, o fim-de-semana consta da descrição laboral como direito adquirido.

Isto quer dizer que só por acordo de ambas as partes é que esse contracto pode ser alterado.

Dito isto, e sabendo disto, os sindicatos entraram em campo.

A Autoeuropa, fazendo fé nas palavras do funcionário, não pode alterar contractos, portanto precisa de negociar uma solução para cumprir as suas metas.

Os trabalhadores da AE sabem que esta é uma unidade volátil e que só existe, ainda, porque alguém interveio, mas que amanhã pode fechar as portas e deixa de haver 1% do PIB, 3% das exportações a troco de uma muito mais pequena percentagem quase sem expressão de desempregados.

Não estou aqui a dizer que a solução encontrada entre a AE e a CT fosse a ideal nem sequer a solução final, mas sei que a conversar com as pessoas entendem-se como aconteceu até agora.

Mas os sindicatos, aqueles promovidos pelos “comunistas” que iniciaram a sua existência a defender que o importante eram os “sovietes”, mas que depois resulta no poder dado a um comité central que depois instrumentaliza sindicatos como sendo suas marionetas, aparecem no terreno e não negoceiam, querem antes impor, não a favor do trabalhador, mas a favor dos interesses do Comité Central.

Os meus amigos sindicalistas irão agora dizer-me que isto são injurias, mentiras, ofensas ignóbeis. Dir-me-ão da cartilha uma quantidade insana de casos de trabalhadores que não fosse o sindicato e estariam na miséria, e se aqui neste espaço provavelmente irão dizer que sou dos “laranjas” (que na verdade são iguais, mas defendem outras cores), ofender, uma corrente de ataques mais ou menos argumentados. Ao vivo são vendedores de banha da cobra, aquela promessa de 1917, ilusões que demoram a desvanecer-se como quem vende rebuçados à porta da escola.

 

Mas basta olhar para a nossa história e perceber exactamente como é que a nossa industria pesada desapareceu, e assim se vê a força do PC.

 

E não sou só eu a dize-lo. António Chora diz algo muito parecido, um homem da casa que sabe o que diz e porque o diz sem papas na língua.

 “Saiu com o sentimento de dever cumprido?
Fui o trabalhador número 144 a entrar na Autoeuropa. Estive na liderança da comissão de trabalhadores de 1996 até 2016. E orgulho-me de ter sido membro de uma CT que começou numa fábrica com 144 pessoas. Saí de lá com 4 mil, contrariamente a muitos sindicatos que entraram com 11 mil trabalhadores e saíram com ninguém, como na Lisnave, CUF ou Quimigal. Tenho muito orgulho no meu trabalho.”

 

A CT da AE deveria voltar à mesa e não um sindicato carregado de interesses externos, e estes sim, negociar pontos de convergência a bem dos próprios porque como disse, a AE hoje existe, mas amanhã não sabemos.

A inevitável vitória do MPLA

O MPLA diz que ganhou as eleições em Angola.

 

 

Comecemos por dizer que estou longe de ser um conhecedor profundo da politica angolana, para alem do que vem nas noticias, para alem do que vou lendo aqui e ali.

Ainda assim não tinha duvidas nenhumas que o MPLA iria vencer.

Olha para a história do mundo desde que existe sufrágio. Alguma vez, em algum país democrático, durante décadas foi o mesmo partido a vencer as eleições?

Nunca!

Porquê?

Porque os ciclos políticos e sobretudo económicos mudam e as pessoas tendem a votar noutro partido na esperança (às vezes vã) de mudar o rumo dos acontecimentos.

Já em sítios em que a democracia é um mito urbano, não importa o ciclo em que se esteja ganha sempre o mesmo.

Do ponto de vista económico, para quem te interesses instituídos, não quer instabilidade e não quer saber do povo, quer saber se existe estabilidade no investimento para garantir os lucros. Se a minha preocupação é o meu lucro e se um determinado regime me garante esse lucro, a minha preocupação é perpetuar essa estabilidade. Veja-se as mentiras dos EEUU para manter ou desmontar regimes. Quem quer saber do povo senão ele próprio?

O MPLA ganhou e já tinha ganho antes sequer da eleição que não passa de um tiro de pólvora seca.

A única esperança é que com a saída do líder histórico, o que se segue não tenha força para perpetuar o regime tal como aconteceu com a morte de Salazar, tal como aconteceu com a morte de Hugo Chavez.

Mas antes de melhorar, vai piorar e partidos alinhados com o comunismo dirão, como dizem, que a alternativa é patrocinada pelo capitalismo quando na verdade o interesse real é o mesmo, dinheiro e influencia. O povo para eles pouco importa.

Liberdade Vs. Segurança. A cultura do medo

Há uns bons anos fui a casa de um rapaz que eu conhecia do tempo de liceu e que já não o via desde essa altura.

Tornou-se amigo de um amigo, cruzamo-nos todos num café e por fora da circunstancia fomos a casa dele. Mais tarde descobri que era vigiado por tráfico de droga e deixei de ir a casa dele.

Não me apetecia ser vigiado por uma coisa com a qual não tinha qualquer relação.

O Professor Marcelo ou se preferirmos, o Presidente da República, aprovou esta semana a utilização de metadados de comunicações e internet pelas secretas.

 

 

Direi eu “quem não deve, não teme”.

Mas direi de um modo despretensioso e desponderado.

A verdade é que não devendo nem temendo, não me apetece ter do outro lado um tipo que traça a minha rede de contactos e que se porventura um dia ligo para um suspeito, passo a ser verificado não por metadados, mas pelos dados em si.

Ou através da internet, muitas vezes faço pesquisas sobre o que escrevo ou sobre as noticias que leio para fazer o que toda a gente devia fazer, verificar fontes, verificar a veracidade. O tipo lá sentado do SIS recebe os metadados de pesquisa sobre terrorismo e acha que tenho barba q.b. para ser um terrorista. Salto do cidadão dos metadados para o cidadão investigado e em virtude de não ter relação nenhuma com o terrorismo, vejo a vida, a minha, esmiuçada e devassada.

“Mas a segurança impõe-nos medidas drásticas”. Impõe tanto como o caminho único da austeridade.

Portugal é um país europeu, o primeiro a colonizar, dos últimos a descolonizar, senão mesmo o ultimo. Temos emigrado e recebido imigração que vai entrando e saindo conforme o mundo se tem modificado. O único terrorismo que há memória foi concretizado há mais de 40 anos por sujeitos tradicionalmente portugueses. (nem sequer vou chamar-lhe “normal” porque vamos entrar num debate entre etnia e cidadania que não leva a lado nenhum).

Muita gente morreu pela liberdade, mas poucos, se alguns, pela segurança. Morre-se por falta dela, foge-se da insegurança, mas a luta é sempre pela liberdade.

O que estamos a fazer é entregar a liberdade em nome da segurança. Deixamos deliberadamente que as redes sociais aglomerem os metadados para os nossos hábitos, as lojas traçam o nosso perfil de consumidores a troco de um cartão “facilitador” e com “descontos” mais ou menos imediatos.

Municípios que nos colocam como videovigiados e o Estado que nos coloca na condição de fiscais das finanças a troco de Certificados do Tesouro e agora o Estado quer controlar os metadados das minhas comunicações.

Paulatinamente passo a ser um numero numa cloud onde se pode encontrar o registo de cada passo que eu dou no meu dia-a-dia.

“eh, estás a exagerar…”

Em 1949 é publicado “1984” ou melhor, “Nineteen Eighty-Four” de George Orwell. Para quem este titulo possa ser estranho, este é o livro que mais tarde vem a resultar em programas como o Big Brother.

Mas talvez baseado neste livro e adaptado aos tempos modernos podemos ver o filme “The Circle” de James Ponsoldt com Emma Watson e Tom Hanks nos principais papeis.

Este é um bom filme muito mais ajustado aos nossos tempos em que uma empresa, como o nosso Facebook, vai somando funcionalidades que em ultima instancia acabam por controlar a nossa vida, ao ponto de se substituir ao Estado nas suas competências. Sempre subjugados ao medo da insegurança, as pessoas vão cedendo à liberdade até perderam a liberdade, até que se tenha medo do medo, até que se tenha medo dos pensamentos.

 

Paulatinamente encaminhamo-nos para o fim da liberdade e metadados é só mais um pequeno passo. Poderia dizer que isso seria algo que eu já não veria em vida, mas nos nossos dias as coisas evoluem tão depressa que já nem disso tenho certeza.

 

 

Heil Pedro Passos Coelho

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Vamos ser rigorosos: a aplicação da nossa legislação que regula o acesso de estrangeiros nunca foi de larga aplicação. Lembro-me, na altura que António Guterres ser Primeiro-Ministro falar-se sobre o tema de existirem muitos ilegais e a solução ter sido abrir um período de legalização “extra” e que basicamente bastava ir lá dar o nome e passava a ter visto de residência.

Entretanto, como falei no artigo anterior, a fiscalização não abunda por terras lusas, de Guterres até hoje, passaram Durão, Santana, Sócrates, Pedro Passos Coelho e agora António Costa, e não consta que a violência perpetrada por imigrantes tenha aumentado.

Temos problemas sociais que são problemas do país e tocam a todos os cidadãos, mas não tem relação directa com imigração.

Pedro Passos Coelho, uma pessoa de quem se espera elevada responsabilidade nas palavras porque foi Primeiro-Ministro e que é o líder do, ainda, maior partido de oposição, cola-se ao discurso de André Ventura, atirando-se aos que têm sido marginalizados como sendo os malfeitores do país.

Pedro Passos Coelho anuncia, como fez no passado em que vinha aí o diabo, que teremos um futuro negro pela frente, porque seremos invadidos por imigrantes.

Não passa de um discurso populista a encostar-se cada vez mais ao PNR e quando se pensava que o espaço vago no espectro politico seria entre o PCP e o PS, é afinal entre o PS e o PSD que se encontra agora à direita do CDS.

Pedro Passos Coelho embarca no discurso de Trump, Boris Johnson ou Marine Le Pen em que na falta de um plano alternativo de Governo, cria um inimigo minoritário que não afecta muito o numero de votos, mas que alimenta e se alimenta do medo ao desconhecido.

 

Para um país que deu a conhecer novos mundos ao mundo, para um país que tem tantos emigrantes espalhados pelo mundo, primeiras, segundas e terceiras gerações, muitos deles empurrados pelo próprio PPC, só não tendo escrúpulos, responsabilidade e seriedade é que pode embarcar neste tipo de discurso populista e pré-xenófobo.

Offshore Onshore, Concorrência Fiscal

 

 

Há uns anos ficámos por cá muitos escandalizados porque a Gerónimo Martins mudou a sua sede fiscal para a Holanda.

Hoje aparece uma noticia no mesmo jornal a dizer-nos que gigantes da economia online só pagam 2,8 milhões de euros ao fisco espanhol. Um dos exemplos dados é a AirBnB que por cá tem andado na boca do povo através da polemica do turismo de habitação.

A questão aqui é a mesma da Gerónimo Martins que tem actividade num país, mas paga impostos noutro. Mais se torna isto evidente porque o negocio virtual não tem efectivamente um espaço físico para existir.

Mas antes de começar a criticar é preciso calçar os sapatos de quem está à frente destas empresas. Vivemos no tal mercado aberto no qual se defende a livre concorrência, aquela que se diz amiga do consumidor final. A questão é que parte deste mercado aberto é o mercado fiscal e os Estados passam a funcionar como empresas.

Cada Estado tem packs fiscais e de incentivos diversos para atrair as empresas e estas, obviamente, tendo em vista a maximização dos lucros (e não de melhor servir o consumidor final), mudam-se para onde têm mais vantagens.

Se te disserem que se receberes o teu vencimento de outra forma e que manténs as regalias, mas o que sai em contribuições é muito menor, diminuindo a diferença entre o vencimento bruto e o vencimento liquido, não mudas para essa opção? Claro que mudas. As empresas também.

 

Portanto dizer que é indigno não é solução.

 

A solução é harmonizar a fiscalidade na União Europeia de modo a que cada país não seja concorrente com os outros do mesmo espaço e em ultima instancia, o imposto ser cobrado pela própria União Europeia e depois redistribuído pelos países em função das necessidades de manutenção, investimento em obras publicas e convergência.

Isto funcionaria se a carga fiscal fosse igual em todos os países, o que a seu tempo, acabaria por harmonizar vencimentos e condições por toda a União Europeia.

Naturalmente que se nada mais for feito, as empresas mudam as suas sedes para um país fora da União Europeia. Para isso é preciso criar uma carga fiscal para as importações e sobretaxa para empresas que tentem fugir aos impostos de modo a tornar pouco apelativo ter as sedes fiscais fora da União Europeia.

Enquanto andarmos a fazer de conta que se luta contra offshores tendo offshores onshore, a União Europeia não avançará e andaremos sempre a ver se vamos no comboio da frente, no comboio de trás ou quase a cair do comboio.

Falha a Fiscalização

“António Costa ao Expresso: “PT provocou colapso do Siresp””

 

 

 

 

Vamos ser rigorosos, não li a noticia e baseio-me: 1º nas noticias que já saíram sobre o tema; 2º na relação entre o titulo e o que é normal nos governos.

 

Ao longo de vários anos tenho abordado a relação contratual entre o Estado e terceiros, que por norma, enriquece, corra bem ou corra mal, o terceiro.

O processo contratual é entregue a uma firma de advogados que coloca nas clausulas tudo e um par de botas que possa desculpar o incumprimento do contratado para que este possa SEMPRE receber, mesmo que não cumpra a sua parte. Já o contratante nunca, ou raramente, exerce o seu direito de denuncia do contracto. Ia colocar “nunca” mas lembrei-me do caso do túnel do Rossio que ao fim de muito tempo lá foi denunciado.

 

E quem fala em contractos, fala em boa parte da relação entre o Estado e os “outros”.

O Estado tem a ideia, mas terceiriza todo o processo, demitindo-se das suas responsabilidades, sobretudo a responsabilidade de fiscalização.

Cada vez que observamos uma polémica o que falha é o processo de fiscalização do Estado.

Reclamamos da subsidiodependência? O que falha? A fiscalização que permite que pessoas que deixaram de necessitar, continuem a deturpar o sistema.

Os valores das obras publicas derrapam constantemente? Falha preventiva da analise do contracto e falha na fiscalização durante a execução da obra.

O SIRESP falha constantemente e há vários anos? A falha cai no contracto e na fiscalização.

 

Quando António Costa aponta o dedo à PT, agora Altice, é um facto que há uma falha crassa da cablagem da PT, mas…:

  • Existe uma exigência clara em contracto que indique que os cabos têm de sobreviver ao fogo?

Se existe, o Estado falha na fiscalização da implementação do projecto no terreno e ao fim de diversos fogos e outros desastres naturais, por falta de fiscalização e acção do Governo, não foi capaz de corrigir essas suas falhas ou denunciar o contracto.

 

  • Não existe uma exigência clara que os cabos que servem o SIRESP sobrevivam ao fogo?

Neste caso existe uma falta de ponderação inicial quer por quem redigiu o documento, sendo intencional ou não, uma falha de quem o aprovou, e um erro ao logo de vários anos face a diversos fogos.

 

O Estado só se preocupa em fiscalizar o que garante receita, e mesmo assim não o faz do melhor modo. Veja-se o caso dos milhões que fugiram para as offshore sem ninguém ter dado conta ou da banca que consegue deturpar a contabilidade a seu favor recorrendo à engenharia e criatividade contabilística.

Tudo o resto tem uma fiscalização residual que muitas vezes serve para dizer que existe, mas não opera por falta de contingente ou falta de interesse, ou é residual para, de quando em vez, poder aparecer nas noticias uma operação de fiscalização.

 

Muitas vezes se diz que os funcionários públicos são ociosos e neste campo podemos ver por duas vias: alguns de facto são, outros ficam presos no processo burocrático que é preciso reconhecer, hoje em dia está muito simplificado. Mas não vamos perpetuar esta ideia ad eternum porque muitas vezes avaliamos as novas gerações pelo que outras fizeram.

Facto é que faltam funcionários públicos, pelo menos no que toca à fiscalização, e porventura, contas feitas, sairia muito mais barato pagar os vencimentos a estes funcionários do que o dinheiro que se escorre por falta de fiscalização.

 

As desculpas de António Costa, Pedro Passos Coelho, José Sócrates, Santana Lopes, Durão Barroso, António Guterres, Cavaco Silva, Mário Soares… São apenas isso, desculpas de quem não fiscaliza o que os próprios legislaram.

Alexis Tsipras, um Judas na Europa

O jornal Sol.pt faz uma peça sobre o momento politico grego, dois anos de mandato do Syriza.

Logo a abrir temos a mensagem que se as eleições fossem hoje, o Syriza perderia por grande margem.

 

 

 

A larga maioria das pessoas não é contra a Europa, melhor dizendo, contra a União Europeia. A maioria das pessoas é no entanto contra imposições na sua vida e se a nível de um Governo nacional garantem manifestações, para uma força externa os anticorpos serão ainda maiores.

Mas a falta de vontade de sair é evidente até mesmo na Grécia em que o Syriza foi eleito depois de varias tentativas consecutivas nos partidos do centro. Lembro-me de uma reportagem em que um cidadão dizia isso claramente, já tinha votado num e noutro partido dos que normalmente governam, sem sucesso. Tinha chegado a hora de embarcar num partido chamado de “radical” que pudesse mudar o rumo do país. Não era convicção politica, era tentar outra solução já que os medicamentos tradicionais não estavam a resultar.

Varoufakis aparece como popstar politica do momento e o que ele diz é que não vai deixar de pagar as dividas do país, mas que tinham em mente outro plano para sair da crise, outro que ia em oposição pelo plano da Troika, em oposição às ideias de Schäuble.

Varoufakis teve por Judas o Primeiro-Ministro Alexis Tsipras que vendeu o seu ministro por 30 moedas de prata.

E Alexis Tsipras, hoje um vendido que há dois anos foi apoiado pelos europeístas que queriam mudar a UE e sobretudo pelos que queriam e querem acabar com ela, hoje subjugou a Grécia, os gregos e o seu partido a mais um, do regime.

Ninguém diz que a Grécia não tinha os problemas apontados pelos memorandos de entendimento. Todos, até Varoufakis estava de acordo que esses problemas precisavam de solução. A diferença estava no trajecto a fazer para a recuperação.

A ideia de recuperação grega nada tem que ver com as soluções impostas pela troika, antes ao trabalho do BCE e isso é visível em TODOS os países afectados pela crise que comemora hoje 10 anos sobre o seu inicio.

Prova que Varoufakis estaria pelo menos em parte certo é a Geringonça, que sem a urgência de uma resposta a um poder oculto, mas com o poder sobre os cordões da bolsa, inverteu as medidas de austeridade e hoje a solução é elogiada até por Schäuble.

A Grécia deixou de facto de aparecer no turbilhão mediático, mas não por mérito próprio e Tsipras que até fez um referendo porque a Troika lhe impunha uma solução contra as suas promessas, acabou por ir até contra o seu próprio referendo defraudando todos, excepto quem vive do sistema.

Se a União Europeia pode mudar? Claro que pode, pode e deve. Já sabemos que o poder instituído muda quando não tem outra solução e Tsipras teve esse poder na mão porque estava no olho do furação, porque tinha apoio Espanhol e Português.

Falhou em toda a linha. Não me arrependo de ter apoiado o “Oxi” mas não darei mais apoio a Alexis Tsipras.

Um dia no Hospital de Évora

imagem de: http://www.hevora.min-saude.pt

 

 

Esta semana fiz uma visita às urgências do hospital de Évora. Não sei exactamente se era situação de emergência, mas às vezes a mania é pior que a doença e a mania estava a tomar conta do acontecimento. Tentei uma consulta através do seguro do trabalho, mas só havia consulta “amanhã” e quando se está com a mania, “amanhã” é tempo demais.

Sobre o hospital? Estive lá 4 horas de tubo enfiado na veia, para alem disso, como observador.

Não falo apenas de mim, mas do que pude observar, equipa competente e atenciosa e fazer jus à qualidade da saúde pública.

Mas ali sentado por horas, dá para pensar bastante, afinal não há muito mais que fazer enquanto o saquinho por cima da cabeça pinga para dentro da veia ao compasso do cante alentejano.

Ao meu lado um senhor de idade profética e com disposição a condizer. Estar ali foi uma perturbação temporal e tem aquele aspecto de não ter a idade que tem, a disposição que a idade tenta esconder. Um jovem num corpo antigo, mas ainda assim, um jovem.

No canto um homem. Francamente não parece um homem. É claramente um ser humano na forma, mas parece saído de uma prisão de Auschwitz tal é a magreza. Os olhos afundam-se no fundo da cara semitapada por uma mascara de oxigénio. Vai acenando um recipiente com urina na esperança que alguém lhe tire aquilo das mãos. Ao meu lado um homem com os seus setenta e muitos anos, daqueles que ficam doentes só de pensar em ter de ir ao médico. Precisava de oxigénio, mas ia dizendo que os médicos só o faziam ficar pior e pedia incansavelmente a sua roupa para sair dali.

Ao fim de umas horas saiu dali à responsabilidade da família, mas levando o oxigénio.

Para o seu lugar entrou outro homem de idade aparentemente avançada. Tinha consigo todas as maleitas que podem surgir com a idade e pela discrição já fazia anos que estava naquela condição. Uma pessoa faz-se velha assim mesmo que o tempo não passe. Aquilo não era já um homem, era apenas um conjunto de células que ainda funcionavam, mal, no formato aparente de algo que foi alguém noutro tempo.

E por fim o homem que me levou a escrever estas linhas.

Um homem, talvez na casa dos oitenta anos. Aparentava sofrer entre diversas coisas de Parkinson. Tinha um saco de tubos e tubinhos sobre a sua cama. Alimentava-se por sonda, tinha soro, oxigénio…

Não sei qual o grau de consciência deste homem. Passou o tempo a olhar para o tecto como se não estivesse ali tecto nenhum. Parecia estar à espera que se abrisse ali um buraco de luz para o levar para o céu e acabar-lhe a tormenta.

No outro dia falava com um colega e dizia-me ele que era mais difícil ter fé do que não ter. Disse-lhe o oposto. É muito mais fácil viver com fé, sendo teísta, do que sendo ateísta, em que as adversidades são atravessadas sem conforto da suposta ajuda de uma entidade divina.

Não há o conforto de uma vida para alem da vida, a vida acaba efectivamente. Não há milagres nem regalias para quem se porta bem.

Se estás doente é apenas a tua força de vontade que te move em frente e nunca tens o bónus do “se Deus quiser”.

E sabendo isto, lá estava eu a olhar um homem com a expressão oposta.

A determinada altura muda o turno e na passagem de testemunho é indicado que àquele, não haveriam medidas intrusivas de cura.

O que eu pensava para mim era não ter de chegar àquele ponto. Se um dia não puder responder por mim, desliguem-me. Eu sei que o fim é mesmo o fim, pelo menos para mim que sou ateu. Mas aquilo não é vida, aquilo é tortura, é castigo.

A não ser que alguém, vivo e consciente, me consiga condenar por algum mal que tenha feito em vida e mereça estar de castigo, não há razão nenhuma para chegar àquele ponto e assim permanecer.

Sim, falo de eutanásia.

Estou no Alentejo, num hospital publico, e os pacientes representam uma população envelhecida e também conservadora. Por ser envelhecida é fácil encontrar gente no fim de linha nos hospitais.

Talvez esta coisa da eutanásia não seja famosa por estas bandas, mas eu não sou nem destas bandas nem desta geração.

A vida, para mim, tem um principio e um fim em data a determinar e com causas por apurar.

A maioria de nós deseja uma morte breve, de preferência no sono, mas depois, quando se fala de eutanásia vai-se de frente contra um muro invisível.

Aqueles dois sujeitos já não estão entre nós. São apenas corpos, pelo menos um deles, mantido porque a família se alimenta da sua “existência”. No fim dirão “assim já não sofre mais…”.

A sala de urgências tinha varias pessoas, numa urgência a sofrerem, mas em silencio. Não havia gritos ou gemidos de dor. Dava bem para ouvir os pensamentos.

Eu não sei se enquanto teve consciência, aquele homem alguma vez considerou a eutanásia como uma opção ou sequer se alguma vez pensou no assunto. Até podia ter sido o padre da paroquia, mas dele não sei nada senão o que vi. Sei que independentemente do que tenha sido a vida dele, ninguém merece este fim.

Se um dia não puder responder por mim, não me metam de castigo…