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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Desculpa David Duarte, a culpa morre de novo solteira.

 

 

Desculpa David Duarte, a culpa morre de novo solteira.

Por norma tenho um certo amargo de boca com a imprensa porque esta gosta de mostrar o escândalo, mas nunca nos dá a resolução dos casos. Sinto eu que a coisa fica pendurada no ar sem desfecho algum, pelo menos para os que como eu esperam um final de preferência feliz.

Na verdade volto hoje a David Duarte, depois de em Dezembro de 2015 ter comparado a urgência em salvar o Banif face à ausência de urgência de salvar David Duarte, não porque se tenha concluído o caso, antes pelo contrário, não se concluiu coisa nenhuma.

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Argumentei na altura que um médico ou um enfermeiro é antes de mais uma pessoa que para alem de uma formação especifica, continua a ter uma vida pessoal e que a aceitar fazer trabalho extra, este não é voluntário. Eles não se negaram a trabalhar, negaram-se ao trabalho extra depois do corte de 50% do seu valor.

Para determinado tipo de profissões, como é o caso, há SEMPRE uma urgência a chegar, é preciso garantir que existem pessoas suficientes para atender às urgências que chegam e equipas que se revezem sem ter de chegar à exaustão. Senão, em ultima instancia são os médicos e enfermeiros que acabam de baixa porque sucumbem ao excesso e exigências de trabalho.

O Ministério Publico (MP) conclui, e bem, que não houve culpa dos profissionais de saúde. No entanto conclui que:” Relativamente às responsabilidades políticas e civis ou administrativas por parte de dirigentes e administrações regionais ou setoriais, de Ministérios, entendeu o MP que as mesmas resultam de ato ou omissão no desempenho de cargo ou função e não de ato ilícito, culposo e punível”.

Neste ponto estamos, eu e o MP, em perfeito desacordo.

Disse Raúl Labrador, congressista republicano, que “Ninguém morre por não ter acesso a cuidados de saúde.”. Direi eu, numa La Palissada que se o sujeito tiver a sorte de não ficar doente, certamente não necessitará de cuidados de saúde. Se pelo contrário adoecer e o estado for grave, há uma crescente probabilidade de falecer por falta de assistência.

Eu e o MP descordamos profundamente quando este opina que nem sequer irá avaliar, em algo que em ultima instancia leva a morte outra pessoa, não é ilícito, culposo ou punível.

Citando a minha grande amiga Constituição da Republica Portuguesa:

“Artigo 64.º

Saúde

  1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.
  2. O direito à protecção da saúde é realizado:
  3. a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito; 
  4. Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado:
  5. a) Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de reabilitação; 
    b) Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde

    O serviço nacional de saúde tem gestão descentralizada e participada.”

 

O que aconteceu foi que, não por omissão, mas por ideologia e por pressões externas, o Governo encolheu o Estado Social, sobretudo a saúde e a educação.

Os cortes cegos foram intencionais e premeditados. No que toca à saúde, e foco-me apenas nisso neste momento, não se pode esperar que “epá aos fins-de-semana não aparece cá ninguém…  ou “epá, mesmo que o gajo venha apertado, mete-se a soro e o tipo aguenta até segunda-feira…”.

A morte de David Duarte foi homicídio deliberado e ponderado pelo Ministro Paulo Macedo, pelo Governo de Passos Coelho e pela Troika. Estes são culpados e é preciso acabar com o mito que o governante é apenas um mau governante ou que estes tinham boas ideias, mas saíram ao lado pela conjuntura. Estes são responsáveis pelos seus atos e precisam ser responsabilizados por isso. Salvaram a banca, mataram David Duarte.

 

É preciso acabar com as culpas que morrem solteiras. A Troika forçou cortes cegos, e ainda agora na saída do PDE (Procedimento de Défice Excessivo) as instancias insistiram que estava tudo muito bem, mas é preciso cortar mais, sendo que este Governo tem feito precisamente o oposto. Passos Coelho instigado pela Troika, pelos tostões e milhões, acatou a ordem, assinou o papel e cortou tudo o que pôde enquanto pôde.

Estes são os culpados, têm de ir à barra do tribunal, estes têm de ser responsabilizados pela culpa que é exclusivamente sua.

David Duarte não morreu porque o médico ou os enfermeiros não estavam com vontade de trabalhar, alias, nem sequer devia estar equacionado terem de fazer horas extra exceto em situações excecionais. David Duarte morreu por erro governativo grosseiro, por homicídio da parte de um governo que negligenciou, uma vez mais, as pedras basilares da constituição.

 

Que a culpa não morra solteira e que não mais se leiam histórias de pessoas que morrem por decisão de governos e governos-sombra.

Foi dia de milagres

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Ateu me confesso, mas hoje foi dia de milagres.

O Papa Francisco veio a Portugal. Como ateu pouco me diz, como líder de uma nação sem fronteiras, reconheço que tem trazido um ar novo, fresco e jovem aos crentes. Quando tantos países começam a regredir nas mentalidades e avanços civilizacionais, no local que quase nunca avança, encontramos um líder que não cheira a bafio – apesar de agrilhoado ao lastro de seculos de conservadorismo – e empurra o Vaticano para mais perto da modernidade. Bem-haja aos que ajudam a avançar, bem-haja ao Papa Francisco por isso.

 

O dia avanço em passo acelerado e pela hora do jantar, para quem conseguiu jantar, mais um milagre.

O milagre deu-se noutra Catedral, onde a fé é outra. O Benfica, o meu Benfica, o Benfica de todos nós, em 113 anos de gloriosa história, nunca conseguiu conquistar quatro campeonatos consecutivos. Hoje somos TETRACAMPEÕES! Sem deixar recados para parte incerta, deixo o agradecimento a todos os que nos proporcionaram esta alegria, aos presentes e aos que militam agora de outras cores. Sim, agradeço também a Jorge Jesus que também ele participou neste nosso tetra. Agradecimento especial ao LFV. Podem falar nas orelhas, nos pneus ou no que entenderem, a verdade é que de 1994 até que chegou, o Benfica não ganhava nem à carica. Milagre!

Calma, ainda restava ao dia algumas horas, horas suficientes para mais um milagre.

O ultimo milagre aconteceu em Kiev pela voz de Salvador Sobral.

Devo dizer que não sou fã de Salvador Sobral nem da irmã e que esta musica pouco ou nada me diz. O Festival da canção ainda me diz menos. Direi que não me diz nada desde 1992 quando pela primeira vez na vida tive a oportunidade de mudar de canal.

Ainda assim, pessoas nasceram e morreram a ver este tal festival sem nunca terem vesti Portugal sequer perto de ganhar.

Desta vez Portugal ganhou de tal modo que ainda sobravam votos para meia vitória do ano que vem.

E podia só ser um sujeito meio desajeitado e a cantar qual corcunda de Notre Damme cheio de espasmos.

Mas não era só isso.

Quando a oportunidade lhe surgiu, levou a causa dos refugiados à Europa.

Quando ganhou e lhe pediram a declaração de vitória, deixou o recado quem venceu foi a musica que não é daquela de juntar água e já está.

Quando foi cantar, chamou pela irmã e pelo meio foi deixando agradecimentos.

Em suma fico mais impressionado com a pessoa sobre a qual foram dizendo tudo desde que ia morrer até que era toxicodependente, do que com a musica em si.

Essa, impressionou a todos os que lhe deram a vitória e ainda bem.

Ao fim de 52 anos a tentar, deu-se o milagre e ganhamos a contenda!

Eu sei que não abordo hoje, de modo critico, nenhuma questão social, de justiça ou politica.  

A verdade é que a malta do F de Fátima ficou contente, boa parte da malta do F de Futebol ficou contente, e ainda que não tenha sido Fado para completar os três F’s, foi Festival da canção e assim como assim, é musica na mesma.

 

Claro que há malta que não gosta de nada e vai dizer que isto é obra dos "Salazarentos" para controlar o povo.

 

Hoje foi dia de milagres para todos os gostos, o país está contente.

Envelhecendo tentando não perder o rumo.

 

Na época 88/89 entrei para a Escola Preparatória de Rio de Mouro. Na altura faltava quase tudo inclusive o nome de um patrono. Não havia alcatrão, a eletricidade e a água faltavam com frequência e até greve fizemos por falta de segurança, mas ainda havia a PGA!

Sim, eu sou da geraçao rasca.

A preparatória tinha pavilhão de física, mas não tinha refeitório nem campo polidesportivo. A secundária, mesmo ao lado, tinha refeitório, campo polidesportivo, mas não tinha pavilhão de física.

Isto quer dizer que tínhamos de ir almoçar, com 10 anos, à secundária no meio de malta muito mais velha. Recordo-me de um dia ir almoçar e estarem dois tipos vestidos de calças elásticas de ganga, botas Doc Matens, um casaco com uma estampa nas costas de Iron Maiden, vários alfinetes-de-dama no casaco e algumas correntes a fazerem-nos a vida negra. Naquele tempo e naquela idade não entendia aquele trajar nem sabia o que era Iron Maiden.

Com o passar dos anos as escolas foram tendo melhores condições e o gosto musical foi-se adquirindo enquanto se entrava pela adolescência e anos mais tarde era eu a trajar-me de vestes negras (mas sem artifícios metálicos).

No outro dia fui a casa de um amigo e no conversa-puxa-conversa não sei bem como, acabou-se no youtube. Em menos de nada estava cada um a puxar pelo nome de uma musica que se lembrava e vendo bem estávamos a puxar de musicas com 20 ou mais anos. Não tenho nada o espirito de dizer “boa musica era naquele tempo…” mas não posso ignorar que foi naquelas musicas, naqueles discos em que se liam as letras de ponta a ponta e em que não havia internet, que cresci.

As conversas da malta de meia idade, quando toca a bandas “daqueles” tempos acabam sempre “gostava até ao álbum X, mas depois tornaram-se comerciais…”. Um exemplo fácil é Metallica que por regra desconhecem o “Kill em All”, mas dizem que foi banda até ao álbum “Metallica – Metallica” (o preto) e depois deixou de ter encanto.

Porque o exemplo desta banda é simples e conhecido vou limitar-me a esta banda.

Pelo principio da década de 90 via incansavelmente a K7 de VHS de “A Year and a Half in the Life of Metallica “. Tentava-se imitar os acordes e de uma qualquer forma absorver um pouco daquelas vidas. Por esta altura comprava-se a revista Bravo alemã para rechear a parede do quarto de pósteres “fixes”.

Hoje, quando vejo Metallica no youtube o James parece um Tintim velhote, o Lars não sei se é um lenhador ou um sem-abrigo e o Kirk parece a cabeça do “Secret of Mokey Island”.

Parece que houve um desalinhamento qualquer em que as “nossas” bandas mudaram e os seus elementos ficaram velhos e nós ficámos na mesma. Mas basta voltar à vida real e também nós deixámos de ter borbulhas no rosto, ganhámos uns quilinhos, filhos, vidas profissionais, uns pintam o cabelo, outros ficaram carecas e outros grisalhos.

O problema da má interpretação do passar dos anos poderia resumir-se à musica, no entanto não é bem assim. Por qualquer motivo que desconheço há uma parte funcional do nosso cérebro que nos incute a ideia de sermos eternos e imutáveis.

É a única explicação racional para o comportamento humano face ao mundo e aos outros.

Passo a justificar:

Tenho uma dificuldade enorme em convencer as pessoas sobre a logica da reciclagem. Por muitos, todos, os argumentos que apresente parece que o dia de amanhã ou é irrelevante ou o impacto ambiental da nossa pegada ecologia é apenas um mito.

Tanto assim é que Donald Trump foi eleito como Presidente of USA depois de dizer isso mesmo.

Mas na mesma lógica de inexistência temporal ou intemporalidade do sujeito, tratamos os outros como se fossemos eternos. É isso que justifica o apoio ao nacionalismo onde se reforça que nós e os nossos são melhores que os outros e por isso temos de estar devidamente separados. Salazar advogou o “orgulhosamente sós” e Hitler colocou essa filosofia em prática. Imaginemos num mundo paralelo onde o fascismo se tivesse vingado, em que cada país se julgasse superior ao outro. Numa espécie de jogo do Risco, mais cedo ou mais tarde apenas um sobreviveria.

A verdade é que as bandas da minha, da nossa, juventude envelheceram tal como nós e eventualmente eles, como nós, daremos por terminado o nosso contributo na forma humana e outros nos seguirão.

Uma expressão popular resume perfeitamente tudo o que disse acima: “No fim do jogo, Rei e peão, voltam ambos para a mesma caixa.”.

Se assim é, porque passamos o tempo a promover a discórdia, a guerra, a destruição, quando sabemos que esses nossos atos de resultados imediatos podem comprometer severamente as gerações futuras?

Como eleger lideres que não farão mais do que promover a degradação, a guerra e a miséria?

Há pouco tempo, falava eu destas minhas considerações com um camarada comunista. Normalmente estamos em desacordo, sobretudo desde que a PaF foi afastada por cá do poder, mas dizia ele “Percebo-te… todos os dias quando acordo tenho de reforçar a energia para continuar a luta por um mundo melhor… “

E é isso, é preciso não perder a fé na humanidade nem perder o objetivo de vista.

Estado, alegadamente, ladrão.

 

 

O Estado é, alegadamente, tendencialmente ladrão.

Não basta todas as histórias, umas provadas outras apenas que alegadamente são verdade, mas o Estado é de modo natural e oficial, ladrão.

O ano passado fiz uma encomenda de dois itens de um desses sites made in China no valor aproximado de 110€.

A encomenda demorou a eternidade costumeira, mas lá chegou a terras lusas. Os CTT enviaram uma carta a dizer que a Alfandega precisava de alguns dados para proceder em conformidade. Segundo informação os dados podiam ser enviados por email e depois de desalfandegado seguiria por correio até à morada ou posto dos CTT de proximidade.

E assim, se fez. Enviou-se a fatura, numero de Cartão de Cidadão e NIF e esperou-se. Ao fim de algum tempo que se julgou razoável, voltou-se à página dos CTT onde se pode acompanhar as entregas. A encomenda ainda dizia “Aguarda desalfandegamento.” Passado uma semana, fazendo a mesma consulta, o resultado era o mesmo. Enviou-se um email para os CTT a pedir informações e passado alguns dias responderam que estavam a averiguar. Mais uma semana, mais uma consulta e tudo ainda na mesma. Novo email e passado uns dias, a mesma resposta.

A encomenda demorou 1 mês a vir da China até Portugal e já estava há mais de um mês na Alfandega.

Ao fim de uma troca de emails inconclusivos decidi um contacto mais consequente. Telefonei para os CTT. De lá uma senhora muito simpática observou no seu fabuloso computador o mesmo que eu via em casa. Ainda assim indicou-me o numero da Alfandega. Lá telefonei para a Alfandega a questionar qual era o problema para tamanha demora. Disse-me a senhora que a encomenda já tinha sido desalfandegada, que estava com os CTT e depois de lhe explicar que que já tinha ligado para os CTT e tinha sido de lá encaminhado, disse-me “aperte com eles…”. E assim fiz… sem sucesso.

Basta o que basta. Fui lá pessoalmente.

A senhora da alfandega responde-me de pronto ao olhar para o papel que a encomenda já estava desalfandegada, que tinha de ir aos CTT.

Mas não podia passar dali. Disse-lhe que alguém me tinha de dizer exatamente onde estava a encomenda porque estava farto de parecer uma bola de ténis. E ela foi francamente solicita na ajuda. Foi para os bastidores e descobriu o Santo Graal. Como a encomenda era apenas uma, mas tinha dois volumes, os CTT tinham levado um volume e deixado o outro para trás. Ao fim de três meses ninguém conseguiu dar resposta ao cidadão.

Bom, carimbou a caixa e encaminhou-me para o guichet dos CTT onde iria pagar e levantar a encomenda.

Paguei o IVA e 2,50€ de taxa de urgência. É gozo, não é? Ao fim de quase dois meses de reclamação ainda paguei taxa de urgência. Para memória futura, paguei IVAmais2,5€.

Mais ou menos um ano passou e encomendei mais um item no valor total de 35 euros, portes incluídos. Pela experiencia passada não me apeteceu atravessar mais um romance e fui logo à alfandega consciente que isso me iria custar 2,5€ extra.

Os 2,5€ extra por defeito já seguem um preceito errado porque aos CTT poupo o transporte e ordenado de quem faz o transporte e comissão dos CTT locais. Eu poupo-lhes custos e ainda pago por isso…

Bom, mas lá fui eu perder tempo consciente que já ia pagar IVA e os tais 2,5€.

Lá fui chamado à Alfandega, sem problemas, onde fui encaminhado para o guichet dos CTT onde iria pagar as taxas e receber a encomenda.

Ora bem, relembro que o item custou 35 euros já com portes de envio.

A senhora dos CTT pede 27 euros de taxas. Já tinha feito contas aproximadas a 23% de IVA sobre os ditos 35 euros mais os tais 2,5€ de taxa de urgência. Daria pouco mais que 10 euros.

Quão errado poderia eu estar…

Foram 10,95 euros de IVA, 1,80 pelo impresso (qual impresso?!?), 2,46€ de taxa de urgência e 10 euros por apreciação da Alfandega. A apreciação foi pegar no papel, carimba-lo e dar 6 passos para dá-lo aos CTT. A encomenda NUNCA foi apreciada senão por mim já no automóvel enquanto rosnava sobre os 27 euros.

Conclui-se que o Estado só pode ser, alegadamente, ladrão ao incutir um valor de taxas equivalente ao custo do produto.

Depois perguntam porque é que a malta foge aos impostos? Porque ninguém gosta de levar o dinheiro a casa do, alegadamente, ladrão.

Vão, mas é, alegadamente, roubar para a estrada!

E para os fundamentalistas que já estão a preparar as respostas “devias era comprar em Portugal para desenvolver o mercado interno!”, pergunto se o telemóvel foi fabricado em Moimenta da Beira ou se o Tablet foi feito na Baixa da Banheira. É que caso assim não seja estou certo que foi fabricado no mesmo país ou arredores, com a mesma carga fiscal e ainda tenho de enriquecer um tipo que explora funcionários, alegadamente foge a impostos e é alegadamente apanhado em escutas obscuras e cobra-me o dobro do preço pelo mesmo produto.

E para os que pensam em sair da UE, pensem que isto seria aplicado a todos os países da Europa.

 

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Marcialidade Fiscal

Ao que parece uma pessoa terá sido alegadamente vítima de agressão por parte de um elemento da GNR na Repartição de Finanças do Montijo. Digo propositadamente pessoa, para evitar denominações como brasileiro, cigano, negro ou mulher, arredando o preconceito que se instala sempre que falamos de alguém que não representa a bitola de homem caucasiano de meia-idade. Ponho assim de lado o preconceito apriorista que encerra este tipo de caracterização. Até porque as forças de segurança devem ser daltónicos relativamente à etnia, sexo ou faixa etária.

 

Vamos ao que interessa. Todos devem ter visto o vídeo que alastrou pelas redes sociais, onde um contribuinte se filma com recurso a um telemóvel na Repartição de Finanças do Montijo. Segundo o próprio afirma, estava ali para resolver uma questão relacionada com o seu IRS. Vê-se um segundo indivíduo aproximar-se e a imobilizá-lo pelas costas, recorrendo a um golpe vulgarmente denominado de “mata-leão”, enquanto lhe pedia para parar com a filmagem. O contribuinte acaba por perder os sentidos e quando volta a si, numa altura em que apenas há um registo áudio e deixa de haver imagem, recebe ordem de detenção pelo suposto GNR. Isto é o que se conhece e que pode ser atestado por todos e todas que visualizaram esta filmagem. Sobre o que se passou antes ou depois, pouco ou nada sabemos.

 

Um ponto prévio. Esta filmagem nunca devia ter ocorrido. A mesma é claramente ilegal, mas permite que discutamos agora este assunto e quais os limites à intervenção policial.111. Marcialidade Fiscal_Jair Costa.jpg

 

Assim sendo, é extemporâneo tecer grandes considerações quanto a este caso. Não sabemos o que tinha acontecido anteriormente e que conduziu àquele triste desfecho; não sabemos qual a atitude dos funcionários das finanças, do contribuinte ou do militar da GNR; se houve ou não coação sobre os funcionários; se o militar já tinha avisado o contribuinte. Neste momento, o julgamento que decorre na praça pública é baseado em suposições, especulações e boatos.

 

Eu não sei se o contribuinte foi excessivo na sua reclamação, se os funcionários da repartição foram cordatos, nem tampouco se o elemento da GNR se identificou como tal desde a primeira hora. Mas sei que a minha primeira reação foi de repulsa, questionando se o uso da força foi inevitável. Pareceu-me excessiva a actuação do militar perante aquele cenário. Mesmo considerando que tudo o que se tenha passado antes funcione como atenuante, nunca pode ser justificação para tal excesso. Tal como corrobora uma circular interna da GNR de 2014 que o Expresso alude.

 

A Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda – ASPIG (um parenteses para felicitar a escolha do nome que derivou numa sigla tão sui generis e adequado a uma associação de agentes das forças de segurança) já veio a público afirmar a obrigatoriedade do uso da força quando necessário. O meu problema com esta declaração está na obrigatoriedade expressa. O que a ASPIG deveria ter dito é que os guardas podem recorrer à força quando as situações assim o exijam. Pelo que me foi possível assistir, lamento dizer que não me parece o caso. E assusta-me a padronização do recurso à violência como solução para sanar um conflito verbal mais ou menos intenso. Nem mesmo a ilegalidade em que o contribuinte incorre ao gravar aquele episódio pode explicar a argumentação musculada por parte do militar da GNR.

 

Gosto de me identificar como parte de um grupo de pessoas (que espero vasto) que acredita na máxima “violência só gera violência”. Nada, do que visualizei, me leva a crer que aquela imobilização fosse a única solução possível. Gosto de viver num país onde as forças de segurança existem para defender os cidadãos, o que acontece na generalidade, verdade seja dita. Não para agredi-los em caso de diferendo com o Fisco. Fosse essa a norma e as repartições de finanças deste país rapidamente se tornariam campos de batalha.

 

Montijo, 11 de Maio de 2017

O Perigo Iminente da Pàfização

Na esmagadora maioria da música que ouvimos no nosso dia a dia, é possível falar de «harmonia funcional». Isto significa, resumidamente, que os diferentes acordes utilizados pelo compositor ou cançonetista desempenham papeis específicos, que cada um tem uma «função» - de tensão, ou de resolução, ou ainda de transição, de decepção… Intuitivamente, estamos à espera que a música conclua num conjunto de notas que represente uma resolução; mas estranharíamos a ausência de elementos de instabilidade. Sobretudo, é do jogo entre estes vários papéis e do seu equilíbrio que vive a maior parte dos géneros musicais a que somos expostos.

Por comparação com as democracias liberais, também num sistema político-partidário que não seja, por oposição, disfuncional, há uma série de funções a desempenhar pelos diversos partidos e forças sociais. As mais óbvias são aquelas de «governo» e «oposição»; mas uma democracia saudável pede também a existência formações de «esquerda» e de «direita», «progressistas» e «conservadoras», «moderadas» e «radicais» - para mencionar alguns exemplos. Se, nas esferas partidária e mediática, uma destas funções estiver bloqueada ou descompensada em relação àquele que seria o equilíbrio mínimo expectável, é o sistema inteiro que sofre; a representatividade dos cidadãos como um todo que fica ameaçada.

Antes de 2015, o sistema político português corresponderia a uma peça de música bizarra. No caso, eram os papéis esquerda/direita que estavam viciados. Não que ambos os lados do espectro não fossem representados no poder legislativo; mas, como sabemos, e por via de uma regra aberracional chamada «arco da governabilidade», a governação, na maior parte das matérias, era sempre, de uma forma ou outra, ancorada à direita. O recente colapso dessa regra trouxe a esperança num sistema mais harmonioso e compensado, em que, para um lado e para o outro, alternância e alternativa deixassem de ser conceitos ténues - oportunidade única numa altura em que, pelo contrário, um pouco por toda a Europa, o desmoronar dos partidos tradicionais está a tornar os sistemas político-partidários completamente instáveis e bloqueados (nem é preciso ir mais longe do que a nossa vizinha Espanha).

Devemos, contudo, começar a ficar preocupados: eis que - hélas! - essa esperança se vê cada vez mais ameaçada à medida que a legislatura avança. Não que haja um risco provável de voltarmos atrás; não que a solução encontrada para resolver o enviesamento à direita esteja a falhar. Muito pelo contrário, o perigo advém do facto de estar a ter demasiado sucesso.

A última sondagem da Aximage (talvez a empresa de sondagens que previu com maior precisão o resultado das eleições de 2015), realizada no início de Abril, dá ao conjunto dos partidos da direita com representação parlamentar um valor inferior a 30% das intenções de voto. Se se confirmasse, não só PSD e CDS teriam juntos o seu pior resultado de sempre - 29,4% - como ficariam com um valor que é menos de metade daquele dos votos somados de PS, BE e CDU - 59,1%. Ainda mais dramática é a diferença na preferência para primeiro-ministro: António Costa bateria Pedro P. Coelho por 43 pontos.

Não é preciso ser-se um ultra-conservador para achar inquietantes estes números. Ter um dos campos políticos a superar o outro na proporção de 2 para 1 é, sem dúvida, uma anomalia. E esta aritmética é perigosa não só porque qualquer governo precisa de uma oposição forte para responsabilizar e fiscalizar o seu desempenho, nem só porque a viabilidade de uma alternativa é um requisito básico da democracia. É também assustadora porque, na época que corre, o vazio à direita abre caminho para um substituto bem mais sinistro que a antiga PàF. Na era de Marine Le Pen, Donald Trump e Geert Wilders, a extrema-direita portuguesa, remetida desde há quarenta e três anos para um buraco obscuro, por força do trauma com décadas de ditadura, parece estar a começar a dar alguns, ainda tímidos, sinais de vida. Podemos recordar, como exemplos, uma tentativa de invasão da sede do LIVRE por parte de militantes do PNR, e as ameaças, em Março, a alunos da Associação de Estudantes da FCSH. E o que hoje são meras provocações pode, brevemente, vir a representar um fenómeno de dimensão aterradora.

Corremos esse risco, sobretudo, se PSD e CDS continuarem sem conseguir afirmar-se como uma oposição séria. E tal afirmação não se faz sob a liderança de Pedro P. Coelho, ou com invocações de seres sobrenaturais como o Diabo. Ou com candidatos que faltam a mais de metade das reuniões de câmara. Ou com posições incoerentes a respeito da descida da TSU. Ou com irónicas acusações de autoritarismo, enquanto se escolhe para liderar uma lista autárquica Teresa Leal Coelho, que defendia a possibilidade de sanções ao Tribunal Constitucional. Ou com críticas desdenhosas a tentativas de aproximar os países do sul da Europa. Ou com a incapacidade de assumir responsabilidade, como no caso das offshores.

 

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Enquanto toda esta estranha estratégia prossegue, a erosão de PSD e CDS é real e não promete contribuir para a saúde do sistema político-partidário. Há uns tempos atrás voltou a falar-se, a propósito do Partido Trabalhista holandês, da palavra pasokização; um termo que entrou nos dicionários de política depois da implosão impiedosa do principal partido de centro-esquerda grego. Pelo caminho que o nosso panorama político tem vindo a tomar, Portugal arrisca também, brevemente, vir a baptizar um novo conceito; algo a que a imprensa internacional se poderá vir a referir como a «pàfization».

 

Erdogan demite-se antes que o demitam

 

 

Sabes quando um funcionário sabe que vai ser despedido com justa causa e antes que o patrão o despeça, aos gritos ele diz “quem se demite sou eu!” enquanto vai batendo a porta atrás de si?

Este “funcionário” é Erdogan.

Já há muito tempo que a Turquia tenta entrar para a União Europeia (UE) mas a sua entrada sempre foi contestada e adiada.

Com os recentes eventos e contantes atropelos da liberdade, democracia e direitos do Homem uma nova tentativa de aceder à UE seria agora muito mais contestada e com muito mais argumentos do que foi no passado.

Mas o processo ainda está em curso.

A única maneira de Erdogan não ser rejeitado, o que seria uma derrota, é parecer que é ele que já não quer fazer parte da UE alegando que esta não presta.

A União Europeia tem muito par melhorar na certeza porem que não é com base no caminho que a Turquia de Erdogan quer percorrer.