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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A Democracia em PCP e BE (ou a falta dela)

Logo no inicio do nosso percurso escolar aprendemos algo de fundamental que por vezes queremos esquecer. Refiro-me a matemática e ao tópico dos conjuntos, subconjuntos, pertence e não pertence.

Não, não vou dar lições de matemática a esta hora, uso apenas isto para referencia inicial.

Eu faço parte de um conjunto lato: vivo no planeta terra, faço parte do reino animal, Homem. Este é o conjunto grande no qual eu não tenho qualquer diferença de qualquer outro Homem neste planeta. 

A partir daqui faço parte de uma quantidade enorme de subconjuntos que no seu todo me fazem ser único.

Um destes subconjuntos a que pertenço é o da democracia ou dos democratas. Independentemente do tipo de democrata que o outro possa ser, eu e este outro, pertencemos ao mesmo subconjunto. O que não é democrata é de outro subconjunto ao qual não pertenço.

E isto leva-me diretamente para França, para as eleições presidenciais, para a escolha da segunda-volta e para a ausência de preferência do BE e do PCP/PEV.

 

Nesta altura do campeonato todos sabemos que a esquerda foi excluída da hipótese de eleger um dos seus candidatos. Sobre Marine Le Pen e Macron. Macron é um democrata, e escuso-me até de trazer para aqui outros pontos comuns que possa ter com ele como o europeísmo, Le Pen é de extrema-direita, ou seja, não é democrata.

Macron pode ter ideias politicas e económicas que me desagradam, mas que como democrata irá sujeitar-se a sufrágio no fim do seu mandato. Com Le Pen não há essa certeza. Com o primeiro a liberdade continuará a existir tal como o respeito pelos direitos do Homem. Com Le Pen o conceito de Homem não abrange todos os Homens e alguns passam para uma categoria inferior, na melhor das hipóteses de sub-Humano.

Eu sei que a ideologia do PCP e do BE não passa pela democracia. A democracia é-lhes como uma espécie de calvário que precisam atravessar para que no fim possam implementar a sua ideologia. Argumentar que estamos a escolher entre democracia e outro regime para estes partidos não é argumento de peso porque nem eles são pela democracia.

Também sei que o PCP tem facilidade em olhar para o lado perante atrocidades contra o Homem e só se lembra de fazer barulho quando elas não têm origem na sua esfera de influencia. Se for na sua esfera, arranjamos uma desculpa qualquer e o caso fica por aí, como aconteceu com a abstenção na votação da condenação aos campos de concentração para gays.

A ausência de opção do BE, PCP e PEV pouquíssimo ou mesmo nada terão influencia nos resultados de 7 de maio, mas é um sinal claro para os portugueses o que estes partidos defendem.

Macron não seria de modo algum a minha opção da primeira volta, mas neste momento o candidato que eu teria escolhido já não está presente assim como todos os que partiram das fileiras da esquerda.

E é preciso lembrar que até Álvaro Cunhal um dia disse aos seus militantes “Se for preciso tapem a cara [de Soares no boletim de voto] com uma mão e votem com a outra”, e ainda reforça Carlos Brito do PCP na altura que Soares era um mal bem menor que que Freitas do Amaral.

A amplitude entre Freitas e Soares era bem menor do que hoje entre Le Pen e Macron e o único destes me garante a continuação da democracia é Macron.

 

Não há como ignorar um conjunto de charneira a que Macron pertence e Le Pen não. Por isso, por ser democrata, só resta apelar ao voto em Macron porque momentos de exceção pedem sacrifícios excecionais.

 

Deixo A Marselhesa, o hino francês que ilustra bem a luta que aí vem:

 

Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L'étendard sanglant est levé
L'étendard sanglant est levé:
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats!
Ils viennent jusque dans vos bras
Égorger vos fils et vos compagnes

Aux armes citoyens
Formez vos bataillons
Marchons! Marchons!
Qu'un sang impur
Abreuve nos sillons

Que veut cette horde d'esclaves
De traîtres, de rois conjurés?
Pour qui ces ignobles entraves
Ces fers dès longtemps préparés
Ces fers dès longtemps préparés
Français, pour nous, ah quel outrage
Quel transport il doit exciter!
C'est nous qu'on ose méditer
De rendre à l'antique esclavage

Aux armes citoyens..

Quoi! Des cohortes étrangères
Feraient la loi dans nos foyers!
Quoi! Ces phalanges mercenaires
Terrasseraient nos fiers guerriers
Terrasseraient nos fiers guerriers
Grand Dieu! Par des mains enchaînées
Nos fronts, sous le joug, se ploieraient
De vils despotes deviendraient
Les maîtres de nos destinées

Aux armes citoyens..

Tremblez tyrans, et vous perfides
L'opprobe de tous les partis
Tremblez, vos projets parricides
Vont enfin recevoir leur prix!
Vont enfin recevoir leur prix!
Tout est soldat pour vous combattre
S'ils tombent nos jeunes héros
La terre en produit de nouveaux
Contre vous, tous prêts à se battre

Aux armes citoyens..

Français en guerriers magnanimes
Portez ou retenez vos coups
Épargnez ces tristes victimes
A regrets s'armant contre nous!
A regrets s'armant contre nous!
Mais ce despote sanguinaire
Mais les complices de Bouillé
Tous les tigres qui sans pitié
Déchirent le sein de leur mère!

Aux armes citoyens..

Amour Sacré de la Patrie
Conduis, soutiens nos braves vengeurs
Liberté, Liberté chérie
Combats avec tes défenseurs
Combats avec tes défenseurs
Sous nos drapeaux, que la victoire
Accoure à tes mâles accents
Que tes ennemis expirants
Voient ton triomphe et nous, notre gloire

Aux armes citoyens..

Nous entrerons dans la carrière
Quand nos aînés n'y seront plus
Nous y trouverons leur poussière
Et la trace de leur vertus!
Et la trace de leur vertus!
Bien moins jaloux de leur survivre
Que de partager leur cercueil
Nous aurons le sublime orgueil
De les venger ou de les suivre

Aux armes citoyens
Formez vos bataillons
Marchons! Marchons!
Qu'un sang impur
Abreuve nos sillons

(nunca) Desperdiçar Abril

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O Capitão estendeu a mão e disse: “toma, isto é para ti”. Aceitei. Observei incrédulo o que tinha agora em meu poder. Um lápis azul. Um banal lápis azul. Com a particularidade de estar quebrado… Perguntei para que precisava de semelhante objecto, ainda por cima partido. O Capitão sorriu pacientemente e explicou o significado daquela simbólica oferta. Que representa a liberdade, o direito que as pessoas têm de questionar, o dever que as comunidade têm em escolher seu rumo. E o imenso presente da democracia. Esse conceito tão radical que consiste em ter uma classe política saída do povo, escolhida pelo povo e que governe para o povo.

 

A quebra do lápis azul permitiu subir as persianas e deixar entrar a luz, no país mergulhado numa longa noite de 48 anos; abrir as janelas e expulsar o cheiro a bafio. Para além do seu simbolismo, o lápis partido quer também gravar memória. Para quem ninguém esqueça o que o país passou e as lutas que travou. Deixando o alerta de que outras formas de ditadura se podem abater sobre nós; num cardápio infinito de sistemas autoritários. Que não basta dizer que vivemos em democracia; é preciso exercitá-la e exercê-la. Participar activamente no quotidiano da construção de um país com uma democracia ainda relativamente jovem e por vezes débil. A cidadania não deve refutar o seu papel central na consolidação da mesma.

 

Que se calem as armas e se soltem as palavras. Que a luta siga, mas no campo das ideias. Que se discutam modos e modelos; princípios e ideais. E que o salutar confronto de opiniões seja profícuo e resulte em consenso, sempre que possível.

 

O Capitão lá seguiu seu caminho. Com o cravo na ponta do fuzil e uma esperança imensa de continuar Abril.

 

Hoje, 43 anos após o grito da revolução temos uma sociedade que parece adormecida e que descansa sob a sombra das suas conquistas. A liberdade, a democracia, a solidariedade são vistos como direitos adquiridos. Mas apenas no plano individual; egocêntrico. Que isto de respeitar o espaço de outrem, ouvir a sua opinião ou perceber as suas necessidade e anseios, é uma grande chatice. No fundo, o melhor que Abril nos deu, foi o feriado do dia 25…

 

A campainha da porta toca com insistência acompanhada de batidas constantes. Mas quem, neste dia feriado, ousa interromper o meu descanso? Agora que me preparava para ouvir o Zeca numa versão para piano preparada para a sessão solene transmitida pela televisão. Sim, porque eu sou um revolucionário! Neste dia faço sempre questão de ouvir o cantautor, cujas palavras esqueço o resto do ano. Espreito pelo óculo da porta. É o Capitão. E parece irritado. Grita que lhe devolva o lápis. Não sou digno de ser seu fiel depositário. Que me aburguesei. Não no que concerne aos hábitos, isso pouco interessa, mas no plano do pensamento. Tem razão…

 

Mas eu não quero devolver o lápis. Sei que provavelmente ando a desperdiçar Abril, mas não quero voltar à longa noite, agora que gozei a luz do dia. Gosto de respirar liberdade, embora pouco ou nada faça para a repor. Sim, porque esta coisa da liberdade é um recurso efémero, que se esgota por muitos lados.

 

Abro a porta da rua resignado, com o lápis quebrado na mão aberta. Mas nesse instante estou também resolvido a não ser um mero consumidor de liberdade. Quero ser seu actor; seu produtor. Quero contribuir para a sua reposição. O Capitão estuda meu semblante, entende-me e recusa a devolução do lápis azul. Passa o braço por cima do meu ombro num abraço fraterno. Juntos descemos a avenida que por enquanto ainda é livre, mas que necessita da contribuição de todas e todos para assim se manter. Para que nunca se desperdice Abril. E para estarmos à altura do seu legado.

 

Montijo, 24 de Abril de 2017

Arrufo de namorados ?

Não sou pessoa de alinhar em teorias da conspiração. Costumo estruturar a minha linha de pensamento em factos e dados concretos. Mas é inevitável que, de quando em vez, o nosso pensamento vagueie por campos mais recônditos, formulando hipóteses aparentemente fantasiosas, mas que podem ser verosímeis. Vem isto a propósito do ataque químico na Síria e consequente escalada entre os dois lados conflito, que, invariavelmente, são a Rússia e os Estados Unidos da América (EUA). Na sequência dessa acção Trump decide bombardear uma base aérea do governo sírio, supostamente responsável pela utilização de gás Sarin. Putin denuncia o ataque, ensaiando algumas palavras de ocasião, pois para os russos os rebeldes sírios é que devem ser responsabilizados.

 

Mas não eram estes dois senhores da guerra que ainda há pouco tempo trocavam rasgados elogios? Não foi o regime russo acusado de ter influenciado as eleições estado-unidenses no sentido de Trump ser eleito? Não têm ambos um discurso crítico da União Europeia? Todas estas manobras em torno da Síria parecem orquestradas. E este interesse súbito de Trump, com a desculpa de que o ataque químico o sensibilizou, é uma clara falácia, pois o que não têm faltado nestes últimos anos na Síria são atentados aos direitos humanos.

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A Síria serve de palco para estas duas nações, que durante décadas dominaram o Mundo. Actualmente vêem a sua hegemonia ameaçada pela Europa. Por um lado temos uma Rússia de volta as costas à União Europeia, extremando posições. Por outro, uns Estados Unidos que se congratula com o Brexit e anseia por outras saídas. Portanto, podemos dizer que ambas as potências apostam todas as fichas no desmoronamento da União Europeia.

 

Mas é pertinente perguntar em que medida a questão Síria pode ameaçar o edifício europeu. Na minha modesta opinião, duas questões fundamentais têm abalado a União Europeia e ameaçado a sua coesão: a austeridade imposta, consequência do modelo neoliberal, como resposta à crise económica; e a crise dos refugiados, mercê da instabilidade no Norte de África e no Médio Oriente, mas com origem principalmente na Síria. E é este último ponto que pode ser fulcral em toda esta situação.

 

A cruel encenação criada por EUA e Rússia em terreno sírio perpetua a guerra civil. Isso continuará a alimentar a vaga de refugiados que pressiona a União Europeia, onde esperam encontrar a paz necessária para encetarem uma vida normal. Tal cenário, associado à ainda frágil situação económica, desbrava o terreno para que os populismos floresçam, vistos como resposta por uma população europeia habituada a um nível de vida e progresso indisponíveis no quotidiano. A congratulação com o Brexit ou o apoio a movimentos populistas deixam clara a agenda dos EUA. A Rússia vai pressionando a Ucrânia e criando consensos aqui e além, sempre na tentativa de atingir a União Europeia.

 

É simples perceber qual o resultado para a União Europeia caso os populistas cheguem ao poder ou influenciem o governo das maiores economias da União e não apenas de países como a Hungria ou a Polónia. As medidas proteccionistas ganharão terreno e as fronteiras voltarão a erguer-se. Os referendos ao euro ou à continuação na União Europeia ocorrerão em catadupa. A previsão lógica é o desmoronamento da União Europeia e a sua extinção.

 

Com o fim do projecto europeu renasceria o mundo dos dois blocos, onde a hegemonia seria repartida por Rússia e EUA. Esse seria o objectivo das duas potências, que desta forma retirariam o bloco Europeu da equação. A Europa estaria novamente dividida e as tensões entre os diversos estados escalariam, podendo mesmo colocar em causa o mais longo período de paz que o velho continente já viveu.

 

Certamente que só daqui por muitos anos perceberemos o que está por trás da situação síria. Se é que alguma vez saberemos a verdade. Podemos nunca descobrir se este arrufo de namorados entre Trump e Putin é verdadeiro ou uma mera encenação. Sinceramente espero que a hipótese que levanto nestas linhas seja uma ideia delirante e sem qualquer relação com a realidade. E julgo que a maioria de vós também…

 

Montijo, 22 de Abril de 2017

Matar é crime mesmo que por negligencia. Vacinação Obrigatória

Epá, morreu porque não se vacinou. Temos pena!

 

 

Anda para aí malta bem formada que defende a liberdade de escolha no que toca à vacinação, mas debrucemo-nos um pouco sobre o assunto:

O que está aqui em causa é a liberdade individual em que cada um escolhe o que é melhor para si.

Sublinhei ‘para si’ porque a nossa liberdade termina na fronteira onde começa a liberdade do outro.

Existem muitos casos em que a liberdade é limitada por causar transtorno a terceiros.

Uma que se enquadra, há alguns anos seria normal escutar a frase “entre marido e mulher não se mete a colher” e o mesmo peso era aplicado aos filhos. Hoje essa “liberdade” é crime.

 

Morreu uma jovem de 17 anos, que frequentava a mesma escola que eu frequentei, porque os seus pais acharam que a vacinação era desnecessária.

Esta decisão devia ser crime.

A primeira toma da vacina contra o sarampo é ministrada aos 12 meses de idade, não por acaso, ela acontece ao mesmo tempo que se perdem as defesas adquiridas por via da mãe durante o período perinatal.

Com 12 meses de idade falamos por quem ainda não pode falar por si e não pode nem escolher nem se defender.

É responsabilidade da comunidade garantir que esta pessoa atinja a idade de poder escolher por si.

A paternidade não é a aquisição de um produto e como tal existe um cerno numero de pressupostos que devem ser garantidos. Ao cuidador cabe entre várias coisas garantir condições de saúde.

A existência da condição da opção abre-se portas aos cuidadores que escolhem ir contra o melhor interesse daquele que ainda não pode decidir por si.

Esta jovem morreu com 17 como poderia ter morrido com 3 anos, ou 7 ou 10.

Não vacinar não só devia ser obrigatório como crime.

Não para mim que estou vacinado e como tal, exceto alguma complicação inesperada, estou salvaguardado. Crime porque alguém é condenado a ficar 18 anos à sua sorte.

Já por aí vi comentários de pena pela perda dos pais. Tenho pena da jovem, dois pais não.

Acredito que as suas convicções não comprometessem o seu papel de cuidadores, mas as suas convicções estão erradas e se não é crime para serem condenados, a tristeza e o arrependimento serão pena suficiente.

 

Pelo interesse das crianças, defendo que o Plano Nacional de Vacinação seja obrigatório e gratuito e sem opcionais para carteiras mais abastadas.

Está Lisboa a ser vendida a Turistas?

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Sou uma recente Lisboeta obrigada a mudar de casa. No meu calmo bairro, o prédio foi vendido. Imediatamente o meu pensamento foi contra os turistas e a ocupação da cidade por turistas. Este pensamento idiota demorou menos de 15 segundos porque eu também sou proprietária de uma casa e sei que nós, os proprietários, queremos um inquilino estável na casa. Mudar permanentemente de inquilino é um inferno com contratos, fiadores e documentos. Eu espero sempre que os meus inquilinos fiquem o maior tempo possível. O tempo que se perde com a mudança de inquilino é verdadeiramente precioso e é dinheiro. Por isso, decidi investigar porque foi vendido o prédio e a quem. Bem, a casa foi vendida porque o senhorio precisa de dinheiro para obras em sua casa e na dos filhos. E precisa do dinheiro o mais rápido possível. As casas estão a ser vendidas a portugueses que as querem habitar e não sub-alugar. Choque! As casas estão a ser vendidas para habitação permanente.

Não é minha intenção negar o fenómeno airnb e a turistificação da cidade. E não é minha intenção negar que os preços das casas subiram. Mas faltam-me dados para afirmar que “nós” estamos a ser expulsos de Lisboa pelos turistas quando a grande maioria fica apenas 3 / 4 dias em hotéis e hostels. Mais ainda, conheço casos de donos de casas a quem o aluguer da mesma a turistas os livrou das preocupações com créditos bancários.

Por isso, o debate está inquinado ou a minha perceção é que está? Vejo Lisboa mais bonita e mais cara, vejo uma verdadeira cidade europeia. Onde jantar fora é um luxo mas onde ainda é possível sair com amigos sem ficar sem orçamento. Aliás, como na grande maioria das cidades europeias. E vejo turistas a trazerem dinheiro e vida a bairros antes esquecidos e vejo uma Europa que se move e se conhece. E vejo uma Lisboa que se renova.

E arranjei casa. Em Lisboa. E no bairro.

Rememoriando

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Vivi Abril com 15 anos e, com 15 anos, não se vive, devoram-se os dias. Não existem camuflados que disfarçem sentimentos, travões que sustentem correrias, nem barreiras que nos façam parar. As sombras dos acontecimentos comportavam-se em constantes heresias.

Só me restava viver e tudo merecia ser vivivdo. Mas caravanas das memórias ficaram para as poder rememoriar.

Esta urgência em celebrar Abril fez das minhas rotinas, festas, daquelas que nunca queremos que terminem.

Nem sempre força significou razão, nem sempre razão foi sinónimo de raciocinio. As ideias radicalizavam-se e, por vezes, eram acompanhadas de ações.

A minha casa já não tinha paredes.

Festejar Abril foi festejar a vida, mas daquelas coloridas, das que merecem ser vividas. Quando a vida sonhava comigo, o despertar obrigava a que os sonhos se afinassem com as realidades.

Viver Abril com 15 anos, não é viver. é engolir o mundo. Abril comia-se, bebia-se e vestia-se. Devorava-se numa só garfada, bebia-se num só golo e vestia-se com a primeira peça de roupa que nos saltava do armário.

Abrl não se vivia, corria-se. Nem os limites de velocidade existiam, nem os acidentes nos assustavam.

Conheci as pessoas certas nas horas exatas. Sempre tive essa sorte.

Estive sempre do lado certo, por mais que os outros o achassem errado.

Nunca apelei a negacionismos, tudo o que fiz e vivi, foi sempre o correto. Hoje só resta o que eu quis, mas o que ficou eterniza-se comigo. Nunca fiz da História um antidoto para eliminar passados, o que vivi já ninguém mo tira.

Era preciso experimentar novos pensamentos, dentro das teorias. O encaixe não nos servia. As ortodoxias dos pensamentos limitavam os desejos, era preciso transgredir, era preciso dar vida aos sonhos. As peregrinações dos ideais resultavam em novas razões, em profanações consentidas.

A vida espelhava paixão.

Afirmávamos ideais, engolíamos livros, discutíamos com tantas certezas e convicções que, acreditávamos viver a verdade.

Viver Abril com 15 anos é fazer do devaneio dos nossos ideais, utopias vividas.

Que bom é continuar a acreditar em utopias.

E assim, constitui-me em Abril.

 

 

 

Um D. João Português (ou a Decomposição Cultural da Sociedade)

Muitas foram as vozes e, acima de tudo, os cliques de indignação pelas redes sociais, quando no final do ano passado Luís Miguel Cintra anunciou o fim do Teatro da Cornucópia. Muita dessa revolta teve origem geográfica no Montijo. Também por isso é difícil entender as cadeiras vazias num sábado à noite, no Pólo do Afonsoeiro da Junta de Freguesia. Como se a apresentação e leitura do primeiro acto – Na Estrada (da Vida) –, duma peça teatral suis generis, não fosse razão suficiente para ver aquela sala a rebentar pelas costuras…

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Um D. João Português, não é uma mera peça de teatro. É um projecto teatral de Luís Miguel Cintra, a partir da adaptação de um texto original de Molière (D. João Tinório, o dissoluto), que conta com o elenco da Cornucópia que o tem acompanhado, bem como com a co-produção da Companhia Mascarenhas-Martins e Teatro Viriato. Para além disso, esta primeira parte do projecto, é apoiada pela Câmara Municipal de Montijo, Junta de Freguesia da União das Freguesias de Montijo e Afonsoeiro e Universidade de Lisboa.

 

Para compreender melhor o que está pode detrás do pano deste plano teatral, ou seja, o que está na sua origem, era essencial ter presenciado a sessão de arranque deste sábado, dia 1 de Abril. Um D. João Português parece ser uma realização de uma vida, que tem sido uma pedra no sapato de Luís Miguel Cintra. E apenas se pode entender (e ver a luz do dia) na sequência do fecho do Teatro da Cornucópia e duma dupla inquietação. Por um lado, o dramaturgo e encenador que confessa não conseguir estar parado. Por outro, o grupo de pessoas que o tem acompanhado que confessam quererem continuar a fazer coisas em conjunto. Dentro daquela família sentimental que se criou ao longo dos anos.

 

O facto de ser uma peça teatral composta por 4 actos, que serão alinhavados e apresentados em 4 lugares diferentes durante o ano de 2017, é uma das suas marcas idiossincráticas. Confirmados estão Montijo e Viseu. Muito provável, Guimarães. E em negociações, Setúbal. No próximo ano será apresentada a peça completa nas 4 cidades escolhidas. Mas a meu ver, e reconhecendo plenamente a originalidade desta faceta, essa não é a principal valia desta iniciativa. O que mais me cativa e chama a atenção é a forma como se partilha com o público o processo criativo que envolve a produção, encenação e montagem de uma peça teatral. O método implementado na sua construção, que pode diferir conforme o encenador, mas que não fugirá muito de caso para caso. E o trabalho que dá. O imenso trabalho desde a sua escrita (ou adaptação) até ao resultado espelhado no palco. Os ensaios de mesa, a troca de impressões, os ensaios de palco, as sensações, as correcções, o ensaio geral… As luzes, os adereços, a acústica… O pano que sobe; o público deslumbrado.

 

Não gosto da palavra privilegiado. Ou melhor, acho que a mesma deve ser correcta e pertinentemente utilizada. Mas provavelmente é o termo que melhor se aplicará àquela dezena e meia de pessoas, grosso modo, que estiveram presentes. O Afonsoeiro teve o privilégio de assistir ao arranque desta aventura teatral, que calcará terras lusas nos próximos 2 anos. Sentia-se no ar o cheiro às cinzas da Cornucópia, mas assistiu-se ao primeiro voo da Fénix. No final, as pessoas eram convidadas a deixar o seu nome e contacto, caso quisessem acompanhar o desenrolar desta andança. Ao sair, olho de soslaio para a folha depositada na mesa e conto não mais do que meia dúzia de entradas…

 

Faço-me à noite atormentado por sentimentos ambíguos. O prazer de me sentir mais rico e completo e a vergonha alheia de perceber que a minha terra por adopção não esteve à altura do acontecimento. Alguém lembrou a meio da sessão, que era noite de Benfica-Porto (mais um…). Soube o resultado no dia seguinte; nada de mal aconteceu. Nada perdi. Aliás acho que naquela noite ganhei mais que qualquer espectador daquele evento desportivo. São pontos de vista e formas de encarar a vida. Num país que sofre uma futebolização que dificilmente se percebe e entende. Esta é a sociedade que se sente ultrajada quando não assinalam uma grande penalidade a favor da sua equipa, mas não querem saber da extinção do ministério da cultura. A sociedade que se sente ofendida por um estádio de futebol estar às moscas, mas não querer saber do fecho de uma sala de teatro. E lamento dizer, mas não; a bola não é cultura. Pode ser considerada um fenómeno social e até pode ser muito interessante para ser estudada por entendidos. Mas não passa de um mero desporto, que ganhou adjectivação de espetáculo (discutível) e que hoje em dia podemos considerar entretenimento (e negócio).

 

Culturalmente somos um país condenado, enquanto não se alterar este modo de pensar. Quer isto dizer que toda a gente tem de gostar de teatro? Evidentemente que não. Mas o problema é que se passa exactamente o mesmo em eventos de outras expressões artísticas, que ou caem no mainstream, e as pessoas até vão porque parece bem, ou se quedam desertos. E o que mais irrita no meio disto tudo é a soberba com que a maioria das pessoas desfilam a sua ignorância. Porque é sempre mais importante saber o nome e a idade de todos os jogadores do clube de futebol de que somos adeptos, do que desligar a televisão e ler um livro…

 

Dia 22 de Abril, pelas 15:00, haverá nova etapa deste projecto teatral, Um D. João Português. Para alguns será apostar na continuidade, para outros é a oportunidade de apanhar este comboio já em andamento, mas em início de marcha. Mantenham-se a par das novidades neste link: http://mascarenhasmartins.pt/Um-D-Joao-Portugues. E apareçam.

 

Afonsoeiro, 3 de Abril de 2017

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