Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Trabalhadores com asas

São recorrentes os elogios tecidos aos criativos que dirigem as campanhas publicitárias da Red Bull. E merecidos. Não há dúvida que são originais e eficientes. Confesso que também eu sou fã das animações criadas para vender a imagem de que todos e todas podemos ser passarinhos.

 

Mas, recentemente, houve dois spots radiofónicos em concreto que me despertaram a particular atenção e me fizerem reflectir. O primeiro retrata um episódio passado num qualquer escritório, no início da hora de almoço, em que um chefe pergunta ao subalterno se viu os emails que lhe enviou. Este último responde afirmativamente e que a sua caixa de correio electrónico ia rebentando. E o chefe retorque se assim é, onde pensa ele que vai. O trabalhador explica que vai almoçar. O chefe acha isto uma afronta, mas o empregado descansa-o e encoraja-o a ir consultar a sua caixa de email. O chefe fica espantado com a rapidez, que só se torna possível pela ingestão de Red Bull. No segundo spot, o chefe telefona ao empregado de manhã cedo, a perguntar se já viu o mail, que tem de se corrigir o relatório, o qual deve ser previamente apresentado ao director de tal departamento... Cada vez que o chefe menciona um item, o trabalhador interrompe-o e conclui a frase ou ideia. No fim, o chefe admirado pergunta como é que ele está a fazer isso tudo. O trabalhador desvenda o segredo: está a beber um Red Bull!

 

É evidente que estas situações são ficcionais; caricaturas do nosso quotidiano. No entanto, ambas vão beber inspiração à realidade e existe um denominador comum. Estes trabalhadores são vistos como indivíduos com poderes sobre-humanos, só possível pela ingestão de bebidas energéticas. O mais perverso é que os chefes parecem estar cientes disso, pois ficam admiradíssimos pela eficiência e rapidez protagonizada pelos funcionários. De qualquer forma, não se coíbem a solicitar tarefas hercúleas aos seus subalternos, mesmo à hora de almoço ou de manhã cedo, antes mesmo de chegarem ao local de trabalho.

 

Hoje em dia, a pressão e a polivalência são brutalmente impostas aos trabalhadores. É sempre preciso produzir mais, com mais velocidade e qualidade incólume. O trabalhador tem de dominar inúmeras técnicas e ferramentas. Simultaneamente, cada vez se paga menos e se oferecem vínculos mais precários. Nunca, como nos tempos que correm, o fosso entre salários mais baixos e de topo foi tão evidente. Num assédio constante, que o comum dos mortais dificilmente aguentará, pede-se mais, mais e mais. Contrapartidas? Poucas ou nenhumas. Apenas a noção incutida a martelo, de que se pode sentir um privilegiado por ter um trabalho e vários problemas de saúde, física e mental. Mas isso não é problema. A pessoa é sempre descartável (e de forma ecológica, porque é biodegradável).

110.trabalhadores com asas.jpg

 

A famigerada quarta revolução industrial, onde se advoga que toda a força de trabalho humana será substituída por robots, já começou. A questão é que de momento, essa máquinas são humanas e propulsionadas a Red Bull. Trabalhadores alados que se desmultiplicam em tarefas e extravasam a linha do humanamente possível. E que provavelmente saem mais baratos às corporações. Sinais dos tempos...

Scottin na UE porque juntos somos mais fortes

 

Quando se julga que o mundo está louco, se calhar está um pouco pior que isso. Ainda por cima tornou-se num mundo pouco coerente que segue ao sabor do vento.

Theresa May perante as noticias de um possível novo referendo na Escócia que resulte na saída desta do Reino Unido diz: “Quando trabalhamos juntos e nos empenhamos, somos uma força imparável.”.

Quão infeliz pode ser uma frase quando esta surge na sequencia do Brexit que na sua natureza resulta de uma falta de empenho (o Reino Unido nunca teve os mesmos condicionalismos que os restantes membros), falta de vontade de trabalhar juntos. A União Europeia não tem conseguido no seu todo impor-se aos EUA, nem à Rússia nem à China nem sequer às questões com o DAESH e consequentes refugiados. No seu populismo de algibeira o Reino Unido diz que numa dimensão muito mais reduzida consegue fazer, apelando ao “juntos” o que uma força muito maior não consegue.

Dito isto, é ou não legitimo que a Escócia peça uma saída do Reino Unido como o Reino Unido pediu da União Europeia?

Ah, falta a coerência e esta saída não dá jeito nem é popular.

Novo Aeroporto do Funchal com Busto de Boo

Está na moda batizar aeroportos cá por Portugal. Nada de errado nisso exceto quando passa para o patamar da parvoíce.

Hoje foi oficialmente batizado o Aeroporto do Funchal de Aeroporto Cristiano Ronaldo.

Não tenho nada contra ou a favor da pessoa de Cristiano Ronaldo. Nunca jogou pela minha equipa e apoiarei, como a qualquer outro, quando representa as cores nacionais. Mas falamos de um jogador no ativo que tem 32 anos. O que é que ele fez de concreto por Portugal? Joga na seleção? Quantos não jogaram já? Não será esse o fator discriminatório. O que é que ele tem feito que não tenha já sido feito no passado por outros que o precederam e que tiveram de desbravar caminhos que antes ainda não existiam?

Não lhe retiro o mérito ou a qualidade enquanto jogador, mas não deixa de ter 32 anos.

E se amanhã lhe se espalha o baralho e ele mata alguém? Ou se perde no álcool? Ou se descobre algum tipo de corrupção como aconteceu com Messi? Ou se torna um fanático religioso e apoia o terrorismo?

E se?

Estas homenagens fazem-se pelo mérito de uma vida e Ronaldo tem 32 anos.

Miguel Albuquerque tem a desculpa mais mal engendrada da história recente. Segundo ele a troca de nome do aeroporto irá trazer mais turistas à região. É saído que quando se escolhe um destino de férias opta-se sempre por aeroportos com nomes vistosos.

Porque é que ele não diz que Ronaldo tem inundado a ilha com o seu dinheiro e que assim cativa-o a enviar para lá mais uns milhões. Era mais honesto e não inventava desculpas que querem certamente fazer do povo tolo.

E o busto?

Fantástico. Para quem seguia o Dragon Ball deve lembrar-se do Boo, um personagem do lado do mal, cor-de-rosa feito de pastilha elástica e que deu muito trabalho a Songoku. Bom, hoje colocou-se o busto de Boo no Aeroporto Cristiano Ronaldo.

 

 

 

Que se segue? Uma reserva antecipada no Panteão Nacional? Presidente Honorário do país?

A FORMIGA E A CIGARRA segundo Jeroen Dijsselbloem

 

Há uns anos em conversa com uma historiadora, dizia-me ela que a veia austera e rigorosa dos países do norte europeu estava relacionada com a religião, mais concretamente os protestantes. Já o sul da Europa sofria da falta de iniciativa porque passámos seculos com medo de quem reinava e de quem falava em nome de Deus.

Se a norte a afirmação levanta-me certas duvidas, já pelo sul estou certo que somos mesmo ovelhas à espera da ordem do pastor e dos seus cães que mais parecem lobos.

De qualquer forma Jeroen Dijsselbloem faz desta bipolarização uma revisitação à fábula de La Fontaine “ A formiga e a Cigarra” mas sendo para adultos acusa-nos de gastar o dinheiro em mulheres e álcool.

Desde já devo discordar no que toca a álcool. Portugal consome 10,3 litros de álcool per capita enquanto os Países Baixos consomem 9,2. À cabeça da lista a Áustria com 12,2, em 3º a França com 11,8 ou o Luxemburgo em 6º com 11,4.

Se o álcool não é, teriam de ser com as mulheres. Esta afirmação começa logo mal por ser machista e ainda assim podemos esmiuçar. Numa população de cerca de 10,5 milhões de habitantes residentes, 5,5 milões são mulheres. São 4,9 milhões de homens, mas arredondo para 5 milhões já que se a ideia de Jeroen Dijsselbloem era apontar gastos com intuitos sexuais, assumo que lésbicas também possam gastar com mulheres.

Só que destes cerca de 1 milhão tem menos de 15 anos e não gasta com mulheres, pelo menos valores expressivos. Mais meio milhão está acima dos 70 anos e já não tem gastos destes.

Segundo Jeroen Dijsselbloem 3,5 milhões de pessoas, na sua maioria homens, dão cabo da economia nacional com gastos supérfluos em mulheres.

Ainda assim não podemos deixar de reparar que este tipo de gastos iria impulsionar o mercado interno e isso não se verifica. Poderíamos considerar que para alguns gastarem era porque havia consumo e com consumo alguém teria de produzir.

O que ele não nos diz é que não são 3,5 milhões, antes talvez uns 3500 que encabeçam o poder politico e económico do país e que sequestram os rendimentos da produção laboral nos seus mealheiros e o que não fica nos mealheiros destes é para os mealheiros cada vez mais gordos promovidos como canalha como Jeroen Dijsselbloem. São esses que ganham da usura. O país está assim, o sul da Europa está assim, não é por culpa das mulheres, mas porque passamos o tempo a engordar agiotas nacionais e internacionais.

Eu gasto dinheiro com mulheres. Com duas que tenho em casa. Com uma partilho custos e rendimentos, outro gasto em educação, saúde e no que lhe possa dar para ter uma infância rica, fértil e feliz. Estes são os meus gastos com mulheres. E quanto a álcool, se fosse à minha conta morriam de fome.

Quando se fala que é preciso um 25 de Abril para a Europa, é porque a União Europeia e as suas instituições são governadas por tipos como estes com agendas próprias, com preconceitos, que favorecem poucos à custa de muitos, que separam em vez de unirem.

Palavra dita não volta atrás e as desculpas subsequentes não o socorrem. Não vou aqui tentar ofende-lo de nenhuma forma. Julgo que já o fez de modo suficiente e consistente a si próprio.

Hora de pôr a Troika em Tribunal!

São Jorge é um filme poderosíssimo. Tira todas as máscaras políticas e sociais e concentra-se na procura da verdade e do que ocorreu a todos nós nos terriveis anos da troika de 2011 a 2014. Explica,sem reservas,que empresários e trabalhadores foram vítimas,que a troika atacou todos e que a crise apenas foi uma "oportunidade" para as empresas perdadoras, aquelas que intimidavam e assustavam os já endividados e enredados em problemas. São Jorge é um milagre. Vê-se, sente-se e assimila-se de forma dolorosa que todos fomos vítimas. Que a crise não é nenhuma oportunidade. Que os portugueses nunca viveram acima das possibilidades. Que a banca actuou como quis. Que todos sofremos com medidas que não nos levaram a lado nenhum. E que até agora não houve culpados. É certo que o futuro nos diz que a banca tem de ser regulada,que as empresas perdadoras não podem continuar a operar,que os administradores de insolvência têm de responder perante os tribunais. Mas também é tempo de acertar contas com o passado recente. E esse tempo é agora. O LIVRE, no programa das Europeias, tinha no seu programa a medida "colocar a Troika em Tribunal".O tempo é agora porque os culpados estão à vista e a memória está bem presente. Porque a culpa não pode morrer solteira.Porque o sofrimento tem de ter uma resposta. Por tudo isto, é tempo de pôr a Troika em Tribunal.

 

Adenda- Corram para o cinema.São Jorge é imperdível,uma obra-prima. E honesto.

Como a Primavera nasceu LIVRE

DSCF2252.JPG

 

Faz hoje três anos que o LIVRE se viu como partido politico formal com efetivas responsabilidades e deveres após ter sido aprovado pelo Tribunal Constitucional.

O caminho já se fazia há algum tempo num percurso para o qual parecíamos sempre atrasados. Na verdade, direi que tem sido um percurso dicotómico em que politicamente estamos adiantados para o nosso tempo, no nosso trabalho rotineiro sempre à pressa porque estamos atrasados ou porque não o queremos estar.

Três anos intensos que às vezes parecem 30.

Nestes três anos conheci centenas de pessoas. Não, o LIVRE não é imune a aproveitadores, alpinistas e outros que tais. Neste percurso de três anos conheci também pessoas de duas caras, uma para a camara da televisão, outra para o bastidor, mas até hoje a erva daninha tem sido sempre diferenciada da floresta e passo por cima desses detalhes.

É preciso reconhecer que tenho tido o prazer de conhecer pessoas de elevado caracter, dedicação e competência. É preciso desconhecer para não reconhecer.

Devo dizer que nestes dias não estou com elevados índices de motivação. Estou triste com a humanidade. Como é possível eleger Donald Trump? Como é possível sentir alivio porque um partido conservador foi eleito na Holanda? O medo que sentimos na incerteza das eleições francesas, alemãs, italianas. Parte do Reino Unido decidiu afastar a ilha para mais longe da Europa. Erdogan tenta regressar com o império otomano. A Rússia tenta voltar ao poder e influencia da União Soviética, custe o que custar. O poder no Brasil foi tomado de assalto e a comunidade mundial não parece inquieta com o facto. Os refugiados não chegam a ser peões deste jogo, apenas mosquitos a zumbir no noticiário da noite.

Às vezes parece-me que a sociedade não evoluiu dos gritos de euforia de um enforcamento ou um apedrejamento e continuamos a vibrar com uma boa sangria, dos outros, claro.

Para um partido que olha para um futuro progressista do Homem livre, do homem digno e em dignidade, de uma europa unida sem velocidades a diferenciar, de ar puro e rios limpos, em que o sucesso de uns não assenta na desgraça e miséria dos outros nem deixa ninguém esquecido, tenho de dizer que às vezes sinto o LIVRE demasiado à frente do seu tempo, tão à frente que ainda não vejo o destino no horizonte.

Felizmente é apenas uma fase minha e uma fase do mundo e como dizia hoje Ofélia Janeiro numa rede social: “Enquanto houver quem acredite que o LIVRE ocupa um espaço único no panorama politico nacional, tem pernas para andar.”

Quanto mais o mundo se entorta mais falta faz quem o tente endireitar e enquanto tiver a companhia desta gente que acredita que o futuro pode ser melhor, enquanto eu não sonhar sozinho, as tristezas vêm e vão e eu continuarei a dar o contributo.

Parabéns ao LIVRE e às pessoas livres que o constituem.

 

Obrigado pela viagem.

10 de Março – sexta-feira – manhã

Os primeiros raios solares e a azáfama matinal da cidade acordam o sem-abrigo. Sozinho, encostado com seus cartões e suas mantas a um moderno edifício da ribeirinha capital, que funciona como única parede de sua casa. A fachada é espelhada e o indivíduo aproveita a oportunidade para ajeitar o seu impermeável vermelho, roçado pela acção dos agentes meteorológicos. Fá-lo lentamente, ainda sentado na calçada. Passa os dedos pelo cabelo para pentear suas madeixas, encontrando alguma resistência. Parece sentir necessidade de se relembrar da sua condição humana. Ou então precisa somente de companhia e aquele reflexo na fachada do edifício será o mais parecido que consegue arranjar...

IMG_20170223_073630_284.jpg

 

Ao levantar-se vai sacudindo a roupa que traz no corpo. Uma clara inversão da normalidade. Quem dorme já vestido? E, mesmo assim sendo, quem é que sacode a roupa quando se levanta da cama? Não faz sentido.

 

Após essa tarefa fica estático por segundos, observando o autocarro que passa; o mesmo que me transporta. Denoto a inveja no seu olhar ao pensar que aquelas pessoas se deslocam para os seus trabalhos; que vestem roupa lavada; que já tomaram o pequeno-almoço; que dormiram em camas de verdade, em quartos com 4 paredes. O homem pega numa pedra que arremessa contra o veículo. Esforço inglório. Fata-lhe força. Não chega a percorrer metade do trajecto pretendido e perde-se no meio do relvado contínuo à calçada.

 

Nesses momentos penso na caridadezinha que de quando em vez fornece uma refeição aos indigentes, mas não resolve o problema, apenas o empurra com a barriga para o futuro. E no negócio que gera e na visibilidade que traz aos envolvidos na mesma. Que raio de civilização andamos a construir? Onde, para lá de todos os avanços tecnológicos e de toda a riqueza acumulada, não conseguimos dar respostas cabais aos problemas reais. O ciclo parece perpetuar e aprofundar desigualdades. E não tem fim à vista.

 

Um ardor invade-me as entranhas e acompanhar-me-à durante largas horas. Mas estou certo que esse desconforto se atenuará e desaparecerá. O facto de ter consciência e percepção destes fenómenos, não me faz menos hipócrita que a restante sociedade. Se calhar, ainda me faz mais...