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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Angola Ameaça Portugal

 

 

 

Em 2007 Pedro Mantorras, na altura a promessa de um novo Eusébio no Benfica,  foi apanhado por uma fiscalização a conduzir com carta de condução angolana já caducada em 2006 e que, para alem disso deixou de ser válida para circular em Portugal por revogação do convénio com os PALOP.

A resposta de Luanda não tardou e nos dias seguintes os portugueses em Angola deixaram de poder conduzir com carta portuguesa.

Poderemos dizer que seria uma medida de igual proporção, e foi, mas o timing diz-nos que foi uma resposta em vingança e não como algo ponderado e legislado em consonância com algum tipo de critério.

A liberdade e a democracia não abundam em Angola, uma revolução que tornou numa máfia a que podemos chamar de oligarquia um clã que defende os seus mesmo quando isso penaliza o país.

Esse é o caso mais recente entre Portugal e Angola.

Manuel Vicente, vice-Presidente de Angola está envolvido num caso de corrupção ao a um procurador pelo encerramento de duas investigações sobre branqueamento de capitais.

Com base neste caso de corrupção a PGR levantou um processo contra Manuel Vicente e não contra Angola.

José Eduardo dos Santos e o Governo Português deveria ser o primeiro a querer ver apurados factos se fizessem parte de um Governo honesto. Mas não fazem e um dos membros do seu clã sendo atacado a sua defesa é “Angola”.

Angola passa a ameaçar Portugal para defender Manuel Vicente.

Ontem apanhei um comentador na Antena 1 a dizer que o problema é a morosidade dos processos judiciais em Portugal porque presume-se inocência até prova em contrário e consequente condenação. Tem razão. Mas passamos a ter uma justiça secreta da qual só sabemos o resultado final? Não me parece que esse seja o argumento.

Gostava de ser benevolente com o Governo Angolano e até com Manuel Vicente. Gostava de ter uma palavra em sua defesa. Mas não tenho. Não acredito na democracia angolana nem na existência de liberdade.

José Eduardo dos Santos transformou Angola numa empresa que serve apenas para lhe dar lucros a si e aos que ele acolhe à sua volta.

Desta feita a PGR afrontou o clã e a resposta, como sempre, foi em tom ameaçador para ignorarmos os factos senão as relações azedam.

António Costa defende-se pela separação de poderes e por hora deixa a coisa andar a ver no que dá. É preciso ter em mente os portugueses que vivem em Angola e no comercio que fazemos com os angolanos. Mas não me parece de todo correto abdicar de se fazer justiça porque um homem, que calha ser de um “Governo” está envolvido num processo.

Se a justiça for cega como dela se espera, este processo irá em frente porque a democracia não pode em tempo algum vergar perante as ameaças de mafias, terroristas, oligarquias ou clãs.

Reciprocidade Angolana

Quilómetros de Votos

(texto publicado no jornal digital, Distrito Online)

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Tempos atrás escrevi um devaneio intitulado “O Sonho de uma Noite de Alcatrão”, que pode ser lido aqui: http://marealta.eu/o-sonho-de-uma-noite-de-alcatrao-67952. A ideia para esse texto surgiu-me numa mesa de café, quando em amena cavaqueira com colegas de trabalho, provenientes de lugares díspares, chegou-se à conclusão de que este ano, os tapetes de asfalto novo têm sido um ponto comum entre vários municípios. Facilmente se chegou à conclusão que não será irrelevante o facto de estarmos em ano de eleições autárquicas…

 

No caso concreto do Montijo, muita atenção tem sido dada a esta vertente, com múltiplas visitas do edil ao andamento das obras, atestadas pelos milhares de instantâneos que teimam em registar esses momentos e difundidos de forma maciça no site e pelas redes socias. Nos últimos meses, não há pá que entre no chão deste concelho que dispense a fotografia da praxe, com o Presidente de Câmara a fazer papel de capataz.

 

Todos os dias úteis, como um pêndulo, usufruo do percurso turístico na cidade do Montijo, proporcionado pela carreira urbana 402 dos Transportes Sul do Tejo. Quem conhece sabe do que falo. Não será exagero referir que esta passa por metade das ruas da cidade, no trajecto entre o Bairro da Bela Vista e o Cais do Seixalinho. Curiosamente não passa por uma única rua que tenha sido alcatroada recentemente… Prova clara que, invariavelmente, a propaganda não tem correspondência com a realidade.

 

O estado degradante da Estrada do Seixalinho (municipal 501, salvo erro), única via de ligação ao Cais do Seixalinho, é exemplificativo do tipo de escolhas que se vão fazendo. Não devemos esquecer que a deslocalização do cais de embarque da ligação Montijo / Lisboa, embora seja uma obra da Transtejo, sempre foi bandeira orgulhosamente ostentada pelos diversos executivos socialistas e vinha acompanhada da promessa de uma nova estrada, com passeios e ciclovias. Dando de barato o facto de só no final de 2016 se terem começado a reparar as estradas do concelho, mais uma vez a via que possivelmente mais necessitará de obras fica esquecida. Até quando? Será que se espera a aterragem do primeiro low cost para levar a efeito a requalificação de uma estrada vital na mobilidade dos montijenses?

 

Uma rede rodoviária cuidada é vital para a qualidade de vida dos munícipes. Mas é também evidente que a sua correcta manutenção, com intervenções atempadas, evitariam que estas vias de comunicação chegassem ao actual estado de degradação, visível em vários pontos. Esse esforço diário compete aos serviços camarários; que devem ter orientações nesse sentido por parte de quem exerce o poder. A manutenção da rede rodoviária não pode ser uma espécie de evento olímpico que aparece de 4 em 4 anos.

 

 

O problema é que a simples e normal manutenção das estradas e caminhos por parte dos serviços camarários não tem o mesmo impacto e visibilidade pretendida do ponto de vista da estratégia política. Os autarcas, geralmente, apostam na recta final do mandato para lançar todas e quaisquer obras, muitas das quais deveriam ter sido iniciadas em anos anteriores. Com isto esperam recolher os quilómetros de votos que os reelejam. Cabe à população separar o trigo do joio, percebendo que o seu voto deve avaliar todo o quadriénio anterior, e não apenas o ano final, bem como ponderar as diversas alternativas que se apresentem a eleições.

 

Montijo, 23 de Fevereiro de 2017

LIVRE de Reclamações

Como autor do guião desta pequeba rábula convido os leitores do blogue a ouvirem este ficheiro audio:

LIVRE de Reclamações - Episódio Montijo


O podcast LIVRE de Reclamações, da responsabilidade do Núcleo Territorial do distrio de Setúbal do LIVRE ( pretende, de uma forma divertida, abordar assuntos que estão na ordem do dia nos diferentes concelhos do distrito de Setúbal. Este primeiro episódio é relativo ao Montijo. Sigam o podcast para ficarem a par de novos conteúdos. 

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Donald  

Confesso que fui dos que nunca acreditou que Donald Trump ganhasse as eleições presidenciais nos EUA. É irrelevante, neste momento, toda a questão referente aos mais de 2 milhões de votos que Hillary Clinton recolheu nas urnas. O sistema de sufrágio está implantado desta forma e todos à partida tinham conhecimento dos seus cambiantes. Mas o que me levava a imaginar impossível a sua eleição eram duas premissas que me pareciam evidentes aos olhos de todas as pessoas: o seu nome, que me fazia lembrar um personagem de Walt Disney, e o seu aspecto, que me fazia lembrar um personagem de Matt Groening. Vivia na ilusão que o Donald era uma caricatura saída de um qualquer talk show de cariz humorístico. Tal equivaleria a dizer que iríamos ter um personagem fictício animado, a conduzir os destinos da Casa Branca. Para ajudar à festa havia o seu discurso e ideias difundidas, que não pareciam de forma alguma do plano doreal, nem tampouco ajustadas ao mundo do século XXI. Equivoquei-me…

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Depois, quando me apercebi que os desgraçados dos estado-unidenses em particular, e o mundo em geral, teriam de levar com aquele personagem demente pelo menos durante 4 anos, fui dos que acreditou que Donald iria normalizar o seu discurso e ideias, institucionalizando-se à medida do cargo que ocuparia. Mas, uma vez mais, errei redondamente. O seu fanatismo continua em alta e sem previsão de abrandamento.

 

Agora, perante as evidências, tenho medo e não arrisco prognósticos. Espero sempre o pior e não fico espantado perante nenhum dos seus tweets, que como sabemos é a nova forma de governar naquele país. Pela primeira vez vejo-me perante a circunstância de desejar ferverosamente que um político não cumpra o que prometeu durante a campanha. Que minta; que seja o maior mentiroso à face da terra. Ou então que lhe dê uma crise de amnésia, que o faça esquecer a sua agenda, baseada no medo, no ódio e na intolerância. Que isola o país e periga o mundo.

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Infelizmente, embora Donald Trump possa se assemelhar a um vilão dos filmes de animação, ele é bem real. Convém estarmos atentos e vigilantes. E dar tolerância zero aos seus perigosos devaneios.

 

 

 

Montijo, 10 de Fevereiro de 2017

Na Falta do Diabo que sirva Centeno

 

Em Julho do ano passado Pedro Passos Coelho tentou fazer duas coisas: a primeira foi alarmar os portugueses numa altura em que ainda se batia na tecla que o Governo da geringonça não era legítimo e tentar alarmar os mercados como fez com o chumbo do PEC – IV provocando nova crise. “Vem aí o diabo” dizia ele qual velho do Restelo. Dizia até que a degradação económica chegaria ainda antes das autárquicas. Só que as autárquicas estão aí à porta e os resultados continuam a ser positivos na maioria das frentes e na falta do diabo, usa-se o Centeno que também serve. Passos Coelho e a herdeira de Paulo Portas, Assunção Cristas precisam de ter alguma coisa para apontarem ao Governo. Não quero dizer com isto que não tenha existido uma conversa que indicasse a possibilidade da não apresentação das declarações de rendimentos da futura administração da CGD até porque isso ficaria em linha com o discurso da não diferenciação com a restante banca. Mas não há nenhum documento e mesmo que houvesse o enquadramento político mudou através da iniciativa legislativa do BE. Resta apenas a questão da resposta na comissão parlamentar. Como disse, acredito que o tema tenha sido abordado e talvez Centeno até se tenha comprometido a procurar uma solução para a questão. Assumir taxativamente que seria assim já não acredito porque não estaria só na sua mão como se veio a verificar. O diabo nao apareceu e Passos Coelho e restante PaF precisam de falar de qualquer coisa para que as pessoas não se lembrem que eles passaram cinco anos a mentir. Mentiram antes de serem eleitos com promessas que depois vieram mas em sentido oposto, mentiram durante toda a legislatura a dizer que a austeridade era o único caminho, mentiram nos resultados e por isso a cada orçamento fizeram-se várias correções sempre em baixa e os únicos resultados positivos tão elencados na campanha para as últimas legislativas, não foram resultados próprios sendo sim resultado das medidas do BCE para salvar o Euro e sobretudo para não deixar cair a Grécia. Na falta do diabo que se invente um demónio ou no mínimo uma assombração e que se lhe dê um nome: Centeno.

Desesgotar a Geringonça

Os acordos à esquerda estão a ficar esgotados? - a questão tem vindo a ser, cada vez mais, recorrente. Os partidos da Geringonça negam-no, mas para, por exemplo, P. Passos Coelho e Arménio Carlos (duas personagens difíceis de confundir), a resposta é afirmativa. Se, por um lado, o assunto tem vindo à baila a propósito do impacto político e mediático da revogação da descida da TSU - antecipada e sucedida por várias outras divergências e faltas de articulação dentro da maioria parlamentar - também é verdade que grande parte das medidas inscritas nos documentos de «posições conjuntas» entre PS e Bloco, PCP e Verdes foram já cumpridas ou estão previstas no Orçamento de Estado de 2017. Podemos perguntar-nos como é que, no espaço de tempo curto de pouco mais de um ano, estes acordos tão marcantes estão já a ser considerados “esgotados”: foi falta de ambição?, excesso de prudência? ou não há nem havia, afinal, muito mais áreas e propostas em que as diferentes esquerdas estejam de acordo?

Talvez a resposta possa estar escondida atrás de um talking point muito apreciado à direita: o de que a Geringonça não passa de uma coligação negativa. Apesar deste argumento poder ser parafraseado como “fomos tão radicais e violentos que três forças que se odiavam mutuamente durante 40 anos se puseram de acordo só para correr connosco”, não deixa de ser verdade que, na maior parte das áreas da governação, os acordos assentam em larga medida na ideia de reverter a acção do governo PSD/CDS-PP - que se traduz num cancelar de medidas concretas ou, mesmo quando não é o caso, pelo menos em seguir como linha orientadora a ideia de reversão da austeridade. A importância do gesto de rejeição da PàF não deve ser menosprezada, mas, com a maturidade que a maioria de esquerda está a ganhar, faz sentido começar a pensar num novo plano. Há dois anos atrás, poucos concebiam como possível uma solução de governo com todos os partidos de esquerda; hoje em dia, tornou-se natural e rotina que PS, BE e CDU negoceiem compromissos diariamente. Chegou a altura de se ultrapassar a fase em que nos unimos por medo do regresso da direita e começar, sem prejuízo de se continuar a anular o mal que foi feito, a discutir uma agenda mais estruturada e coesa que possa responder à raiz de problemas.

Francisco Louçã propusera, ainda em Novembro, um novo acordo, que incidisse sobre o sistema bancário. Esta semana, o secretário-geral da CGTP pediu um compromisso à volta das questões laborais. Sobre que áreas incidiria, afinal, um entendimento mais alargado? E que forma assumiria? O que poderia estar em cima da mesa?

Para fazer um parêntesis e voltar um pouco atrás, pensemos na força relativa, por esses Europa e Mundo fora, de duas abordagens diferentes. Não é muito difícil, por exemplo, comparar o poder e popularidade de Bernie Sanders com o de Jeremy Corbyn ou Alexis Tsipras. Ou compreender que Benoît Hamon conseguiu gerar uma mobilização muito maior do que Arnaud Montebourg. Devemos olhar para estes exemplos de vários pontos de vista e ter em conta muitos, muitos outros factores; mas não creio que seja irrelevante a dimensão maioritariamente positiva ou negativa de cada projecto. E aqueles que vão para além da resistência aos cortes no estado social, do combate à desregulação financeira, da reversão da austeridade sobre a classe média, da luta contra o armamento nuclear e as intervenções militares (por exemplo), e dão mais um passo - seja esse o RBI, o salário mínimo europeu, uma transição energética, a expansão do serviço de saúde, etc - têm tendência a conseguir um entusiasmo maior. Num país como Portugal, assolado por anos e anos de crise, pessimismo e depressão, esse entusiasmo faz falta.

Nas circunstâncias actuais, e com os constrangimentos orçamentais que continuam a limitar a nossa liberdade de acção e a exigir do Governo um malabarismo difícil, não é imaginável que a esquerda se sente hoje à mesa para amanhã implementar um rendimento básico para todos, ou um sistema de ensino radicalmente diferente. Mas podemos, pelo menos, aproveitar o momento de indefinição para ultrapassar uma nova barreira, e começar a negociar um projecto transformador de longo prazo, uma espécie de agenda de esquerda para a década que inclua o acesso gratuito ao ensino superior, uma meta ambiciosa de produção de energias renováveis, a laicização total do estado, a implementação de mecanismos de democracia directa - etc, etc, etc…

Energia - Negócios da China.

 

 

Esta semana tem sido estranha no que toca às energias e mais estranho é o facto de pouca gente na verdade se preocupar

No inicio da semana o Secretário de Estado da Energia pediu uma investigação à reguladora para apurar o aumento do custo energético.

Logo após esta noticia aparecem outras que começam a dar indícios de justificações.

A primeira justificação aparece dia 8 no Expresso onde o titulo nos diz que “Elétricas obrigadas a investir €800 milhões para evitar apagões em Portugal”.

O que este artigo nos vem dizer é que foram feitos os agora afamados testes de stress e que existe a possibilidade de não existir capacidade de resposta lá para 2030. Diz ainda, e bem, que se deve decidir antes do problema surgir de modo a anula-lo ou minimiza-lo tanto quanto possível.

Mas mais para a frente percebe-se que o que se pertente é manter em funcionamento centrais térmicas altamente poluentes como é o caso de Sines que ainda funciona a carvão. Segundo a EDP são muito eficientes, mas a comprar com o quê? A verdade é que a central de Sines está no Top europeu das mais poluentes e já devia estar encerrada há muito. Elevar a fasquia da necessidade só serve para alongar o tempo de vida desta central, um pouco como se está a fazer com Almaraz sendo que os riscos e poluição são diferentes, mas que o principio é o mesmo: manter o investimento a gerar rendimento o máximo de tempo possível.

Mas este tipo de justificação acaba por ser estranho porque logo depois sai nova justificação: A construção de três novas barragens no Tâmega.

Segundo os promotores esta obra representa uma potencia instalada equivalente a 6% do consumo energético atual.

Os promotores onde incluo o Governo começam logo por destacar as vantagens e dizendo que esta obra vai com 7 de 15 anos de construção, portanto, vejam-se as vantagens e ignorem-se os defeitos.

Esta previsto finalizar esta obra em 2023 o que já entra em conflito com a justificação anterior. Ora se esta está em andamento, porque é que é preciso investir mais 800M €?

Ora o GEOTA diz que não é bem assim e com sua licença, vou colar aqui o que nos interessa ler sobre o tema:

“Autoriza-se o avanço das barragens do Sistema do Electroprodutor do Tâmega (Daivões, Gouvães e Alto Tâmega) com o argumento de que as obras já começaram. É falso [ver “Ponto de situação | fevereiro 2015 vs. fevereiro 2016”]. Não há obras significativas nem qualquer intervenção nos cursos de água (Tâmega e Torno/Louredo). Em Daivões e Alto Tâmega a montagem de estaleiros e abertura/melhoramento de acessos começou a ser feita apenas em janeiro de 2016, já depois de o Governo ter anunciado que a reavaliação do PNBEPH abrangeria apenas as obras que não se tinham iniciado…

- A avaliação desenvolvida confirma a inutilidade das novas barragens que, no seu conjunto, representarão apenas 0,5% da energia do País (3% da eletricidade). As barragens permitidas por esta avaliação, Foz Tua, Fridão e Sistema Electroprodutor do Tâmega (Daivões, Gouvães e Alto Tâmega) produziriam apenas 0,4% da energia do País (2% da eletricidade);

- Foram anunciados os custos da denúncia dos contratos de Fridão (EDP) e Sistema do Electroprodutor do Tâmega (Iberdrola), mas não foram avaliados os custos para o País e os cidadãos-consumidores. Estimamos esses valores como sendo pelo menos 30 vezes superiores aos da paragem dos projetos. Com esta decisão, o Governo autoriza a EDP e a Iberdrola a tirar às famílias portuguesas 10 400 M€, ou seja, triplica a dívida tarifária e impõe um encargo de 2 600 € a cada família, equivalente a um acréscimo médio na fatura elétrica de 5%;

- Não foram avaliados os impactes cumulativos de todas estas barragens: na degradação da qualidade da água, nos obstáculos à conetividade dos ecossistemas, na erosão costeira, no microclima que afetará a produção de vinho. A destruição que as novas barragens vão causar à fauna, flora e vegetação do Vale do Tâmega têm sido simplesmente ignoradas: muitas das espécies identificadas nos Estudos de Impacte Ambiental são protegidas ao abrigo da Diretiva Habitats, da Convenção de Berna, Diretiva Aves e são consideradas “Vulneráveis pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal;”

O GEOTA atempadamente avisou-nos do aumento da fatura, do impacto ambiental e da inutilidade real desta empreitada com custos ao contribuinte. Dizia ontem o representante do GEOTA que nos últimos anos devido à crise e ao aumento da eficiência energética o consumo tem caído pelo que não se justifica o aumento de potencia instalado já que não se prevê um aumento significativo do consumo. (Devo confessar que nesta ultima parte, sobre o aumento do consumo, discordo).

O que me inquieta vai mais alem.

Estas noticias referem-se a Portugal, um país mediterrânico em que 90% dos dias faz sol, sol esse que nunca nos envia faturas pelo seu uso e nem sequer está sujeito às nossas alterações climáticas. Questiono-me qual o motivo de não apostarmos fortemente na energia solar já que é o nosso maior recurso e estamos preocupados em investir em centrais térmicas obsoletas, em hídricas com pouca expressão produtiva face ao impacto ambiente e económico que causa e incluo neste campo a prospeção de hidrocarbonetos nas nossas costas, algo que podemos considerar a energia do passado.

 

As energias como é tradição fazem parte dos packs de enriquecimento de construtoras e grandes grupos económicos. Não é a necessidade ou a projeção no futuro que os move. Não é esta obra publica que irá resolver os problemas do país nem a hipotética potencia instalada.

Isto é negociata que tentam justificar com o injustificável. O país não precisa de mais betão nem poluição. Precisa é de pensar e olhar pelos olhos de quem vislumbra o futuro.

O sonho do precário é ser colaborador.

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A vida do colaborador dos nossos dias foi descrita há uns dias por Miguel Dias aqui neste espaço.

Mas o colaborador é um privilegiado nos nossos dias porque durante o seu percurso teve a oportunidade de sonhar e ter esperança por dias melhores, por uma carreira como as de antigamente em que se ficava na empresa e se ia progredindo até à reforma.

Existem outros que não chegam a esse luxo: os precários e os colaboradores-precários.

Recordo-me de José Sócrates no Governo, ainda longe desta fase de pantomimeiro, dizer para quem quis ouvir que os trabalhadores deveriam tornar-se polivalentes a bem da produtividade. A verdade é que esta ideia resulta em duas coisas e nenhum se relaciona com produtividade ainda que possa rimar. Uma é a precariedade do tipo que me bom português é pau-para-toda-a-obra, a outra é que o tipo por mais formação que tenha é tomado por mão-de-obra não especializada e recebendo como tal.

Sabemos que 30% da massa laboral tem um vencimento abaixo de 600€ mensais. Adicionamos os 10% declarados como inscritos no desemprego, adicionamos ainda reformados e pensionistas que recebem abaixo de 600€ e os jovens que ainda não fazem parte da força de trabalho e começam desde cedo a ser precários. Exagero se disser que mais de metade da população do país vive mal?

O colaborador-precário entra com um contrato a termo incerto para que ele perceba que a sua vida é como o seu contrato, uma incerteza. Quem o contratou recorda-lhe com frequência que tem sempre hipótese de incorporar a maior empresa do país, o IEFP. O colaborador-precário quer queira quer não é pau para toda a obra sem hipótese de contestar e quantas mais valências disser que tem, maior será o numero de tarefas que lhe são atribuídas.

Tal como o colaborador, o esforço é contraproducente.

O sonho do colaborador-precário é ser colaborador.

Existe ainda um degrau para descer. O tipo do outsourcing.

Quem trabalha ou já trabalhou com eles, ou é um deles, sabe do que falo.

Se há alguma coisa em que seja preciso encontrar culpados e se estes existem na empresa, o culpado será um destes.

Uma vez desapareceu um envelope com 30 contos onde trabalhava. Existiam 3 pessoas envolvidas e duas eram de uma empresa de outsourcing. A culpa foi para os que eram externos.

Isto acontece porque é fácil trocar. São descartáveis como preservativos. Deles espera-se a melhor qualidade ao menor preço.

E mesmo entre funcionários, se aparecer um trabalho mais chato, ele é atribuído ao tipo do outsourcing só porque sim, porque se pode fazer isso e o chefe só quer saber se o trabalho é feito, não importa por quem.

O tipo do outsourcing é frequentemente lembrado da sua posição ao mesmo tempo que lhe é dada a ideia que um destes dias, se for um bom escravo, poderá subir a colaborador-precário.

Pior?

O tipo a recibos verdes, o prestador de serviços, o precário.

Este tipo trabalha à tarefa e trata do lixo laboral. O que ninguém quer fazer é para o precário porque ele quer ganhar dinheiro e por isso faz tudo. Nos últimos tempos estes sujeitos foram coagidos a abdicar do recibo verde e a formar empresas unipessoais ou a agrupar-se em pequenas empresas. Muitos deles ao fim de um ano abrem falência. É-lhes oferecido um rendimento superior, mas ninguém lhes explica que esse valor absorve também as responsabilidades e quando chega a altura de acertar as contas com o fisco esta malta percebe que afinal foi enganada e aquele valor não era uma melhoria, mas sim uma armadilha.

O dono da empresa conseguiu um ano com menos custos e menos responsabilidades. Resta, entretanto, encontrar mais um desesperado para enganar.

A maioria destes salta de empresa em empresa encontrado condições semelhantes, adiando sonhos de vida ate que a determinada altura acostumam-se à ideia que a vida será um eterno purgatório.

Ao menos o colaborador do Miguel teve a oportunidade de sonhar…

Resistir a Trump é Vogue!

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 2017 Apresenta-se tenebroso. Bad. Com um bad hombre a liderar os Estados Unidos da América, com a Europa perto do pesadelo da eleição de uma “caneta” francesa, a resistência é vital para a democracia. E nestes tempos curiosos várias formas de resistência, mais ou menos discretas, têm surgido e surpreendido. Desde programas de culinária que têm muita comida mas que apresentam uma abordagem política, onde Anthony Bourdain é o nome maior, até à insuspeita e considerada leve e fútil industria da moda, a resistência às medidas e à visão política de um senhor cor-de-laranja é clara, constante e notória. Tom Ford, Marc Jacobs e Sophie Theallet  são estilistas que se recusaram e recusam  a vestir a primeira dama. Gigi Hadid, a top-model sensação, participa com a irmã em marchas anti ban. As Kardashians (sim, as próprias!) escrevem comentários de repúdio às medidas anti emigração do governo dos EUA. Mas ninguém bate a revista Vogue com os melhores artigos anti Trump, com factos claros e bem escritos, que superam o Guardian e a CNN, não apenas pela qualidade da escrita mas porque conseguem chegar discretamente e eficazmente a diferentes públicos. No meio de muitos artigos sobre roupa, sapatos e cabelos ( bons , huge, the best, artigos de moda já agora), passando por celebridades e dietas, os artigos políticos da Vogue denunciam a hipocrisia do Trump ao acusar Hillary durante a campanha de coisas que como Presidente já fez (e são apenas 10 dias de mandato) http://www.vogue.com/article/donald-trump-hillary-clinton-five-attacks, dão destaque à resistência feminina na vanguarda anti Trumpista  http://www.vogue.com/article/sally-yates-women-against-immigration-ban ou espelham a perigosidade dos alternative facts e as invenções de assustadora Conway http://www.vogue.com/article/bowling-green-massacre-twitter-reacts Tudo isto bem embrulhado em cores e cortes de cabelos, vestidos, sapatos, e resistência activa bem- escrita e com factos contra o Presidente dos EUA. Quem disse que a política não está na moda? It’s Vogue!

 

O Colaborador

O Colaborador trabalha afincadamente. Entra cedo e nunca tem horário de saída. Esmera-se para ficar bem visto aos olhos do patrão. Não acredita nos sindicatos nem em comissões de trabalhadores, considerando que tais estruturas são um empecilho ao crescimento. O Colaborador tem a sensação de que as coisas estão melhores. Pelo menos parece-lhe que agora é tratado de forma mais condigna, desde que começou a ser designado como Colaborador. A organização, que outrora era a empresa, passou a adoptar este tratamento para com os seus funcionários. Realmente ser tratado como trabalhador parecia algo insultuoso; um tratamento antiquado, reflexo do século passado. Trabalhadores são os pedreiros e o pessoal da fábrica. Ele até trabalhava, melhor colaborava, num escritório de uma seguradora. Sim. Definitivamente o substantivo Colaborador enchia-lhe o peito de orgulho. Outras coisas haviam que lhe pareciam ser um melhoramento na sua vida. Por exemplo, agora já não recebia um ordenado mínimo. Que nome mais reles, esse... Tinha direito a uma retribuição mínima mensal garantida. Olarila, essa e que é essa!

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Decididamente a globalização e a deriva neoliberal da economia começavam a dar os seu frutos. O Colaborador só não percebia porquê que caía na sua conta cada vez menos dinheiro, ao mesmo tempo que a banca cobrava mais despesas de manutenção, taxas e taxinhas várias. Mas o Colaborador aguentava estoicamente. Já lhe tinham explicado que a conjuntura económica não era a melhor e que todos teriam de fazer sacrifícios. O Colaborador sentia lisonja em ser tratado ao mesmo nível dos restantes, apesar de lhe parecer que às altas chefias não tinha chegado o aviso (o memo) da necessidade de fazer sacrifícios.

 

Certo dia foi dito ao Colaborador que a organização se iria reestruturar e que isso seria uma excelente oportunidade para ele sair da sua zona de conforto e mudar de vida. O Colaborador aplicou-se ainda com mais afinco à rotina laboral. Raramente via a mulher e filhos durante a semana. Aos sábados ainda ia à organização colocar mais umas papeladas em ordem sem garantia de qualquer retribuição. Ao domingo, morto de cansaço, dormia o dia inteiro. Mas o Colaborador explicou à esposa que poderia ser esta a oportunidade que aguardavam.

 

Passados 3 meses, o Colaborador é finalmente reestruturado... Agradeceram os seus valiosos préstimos e a lealdade apresentada ao longo dos últimos 30 anos e oferecem-lhe uma carta para apresentar no Instituto do Emprego e Formação Profissional, bem como um boné com o logótipo da organização. O Colaborador não consegue entender como se tinha chegado àquele ponto. A linguagem e a forma como tinha vindo a ser tratado este assunto não adivinhava tal desfecho. O Colaborador só desejava que pudesse voltar a ser tratado como trabalhador, ou mesmo como funcionário. Mas era tarde demais. Agora, com 55 anos de idade, sentia que a sua vida estava verdadeiramente fodida. Perdão, com esta oportunidade que lhe era proporcionada teria agora a liberdade de fazer o seu próprio horário e usufruir de todo o oxigénio que conseguisse respirar, enquanto passava o tempo nos bancos de jardim dos formidáveis parques municipais.

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Montijo, 2 de Fevereiro de 2017

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