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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

As palavras proscritas

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O inesperado da escrita tem quase sempre algo de previsível. Nada de verdadeiramente original se escreve ou diz.

O experimentalismo assusta e mete muito medo aos possiveis experimentadores. O desconhecido é sempre temido. A escrita gera medos e estes, espelham a nossa consciencialização e as nossas interpretações de alguns receios, infundados, ou não. A sua exorcisação requer a passagem pelas práticas refexivas, sobre as essencialidades e a conceptualização de pensamentos e linguagens comuns.

A binariedade ente o certo e o errado, os juizos moralizantes e as dúvidas, estão a capturar os nossos desejos de normalização e a nossa sanidade mental. A legitimação de questões adjacentes, a nós mesmos, assim como a ratificação de algumas escritas, ou linguagens, estão a produzir discursos ambiguos, impercetiveis a muitas gentes.

As descrisões, por vezes, tornam-se mais apeteciveis que as causa.

Toda a escrita se confunde com as identidades, com as verdades e com as aprendizagens. Quando surgem crises identitárias, um dos seus primeiros reflexos é nos dado pelo o que os escritos nos dizem. Começam por surgir verdades, inverdades e pós-verdades, que se dizem e desdizem; as identidades fundem-se em controversas e em obscuridades e as aprendizegens refletem as crises sistémicas, que em nada beneficiam os aprendentes.

Ao encaramos a escrita como uma transposição do pensamento, como um exercicio de diálogos, permitimos incorporações, com ligações unicas, em que os agenciamentos e as performances ocupam lugar de destaque.

O devir acontecimental está a formatar-nos, e nós deixamos que tal aconteça, evitando a construção de pensamentos na diferença.

A dificil "arte" da intertextualidade, tão pouco praticada e tão dificil de exercitar, contribui para a profanação de alguns leitores que mereciam ser mais informados.

As palavras que já deviam ter prescrito, começam a retomar significado, recriam-se e cheias de vitalidade evocam causas que, há muito, deviam estar irradicadas.

Necessitamos "construir paisagens" e não nos limitar-mos a ser simples reprodutores. 

Isto tudo para não falar do novo Panteão da buçalidade instalado em Washingtom D.C.

Farinha do Mesmo Saco

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Há uns tempos pensei na possibilidade de abrir uma empresa em sociedade com um amigo. Antes de avançar era preciso fazer contas à vida e perceber que tipo de lucro teríamos e que tipo de salários conseguiríamos pagar.

No fim das contas verificámos que o lucro não era compensatório e se tivéssemos de pagar salários estes ou seriam balizados no SMN ou um pouco mais por recibos verdes.

A ideia caiu porque não poderia embarcar num modelo de negocio que condeno no que toca a colocar pessoas em condições precárias.

Quando apareceu a noticia que António Costa oferecia a descida da TSU a troco do aumento do SMN, disse logo que era um erro medonho.

Não sou profeta porque se fosse teria adivinhado que Passos Coelho também se oporia, mas estava mais que visto que esta solução não podia passar. E não passou.

O que ninguém estava à espera é que o sócio-gerente da Padaria Portuguesa (PP), Nuno Carvalho, que venho a descobrir que é o primo de José Diogo Quintela, se colocaria em frente ao microfone da SIC a debitar ideologia neoliberal. Segundo este a TSU pouco lhe afeta nas contas. O que ele quer é uma descida no IRC. O que ele quer é despedir trabalhadores ao sabor da maré.

Disse ainda que não pagava a nenhum trabalhador o SMN, só que com a recente revisão em 27 euros, colocou 25% dos trabalhadores da padaria portuguesa com o vencimento equivalente ao SMN. Pergunto-me se ele pagava 535€ só para não entrar nas estatísticas de empregadores que pagam o SMN.

Mas o tipo achou-se mal compreendido e voltou a colocar-se debaixo dos holofotes para dizer que a legislação está pensada para a industria e que obriga a uma grande ginástica aos empregadores no sector terciário. Diz ele que qualquer trabalhador que queira trabalhar 60 horas semanais iria desejar trabalhar na PP. Diz ainda que é extremamente penalizador que o valor das horas extra seja majorado face à hora normal.

Para tentar criar alguma empatia com o leitor/ouvinte/telespectador, colocou-se nas nossas pantufas e diz “bom, eu antes de ser patrão, quando era funcionário, já pensava assim… “. Visto daqui ele não precisava de ser patrão para ter uma mente retorcida, mas lá teve a sorte de ter um primo que lhe patrocinou o negócio e lhe deu a visibilidade.

Melhor que este só me lembro de Armando Pereira, dono da Altice (acionista Portugal Telecom) ao declarar que só paga salários porque é obrigado.

A história já era medonha o suficiente para as redes sociais se insurgirem contra a PP.

João Miguel Tavares que afina pelo mesmo diapasão vem defender o primo do Quintela e diz que “não senhor, esta canalha de preguiçosos ganha afinal 877 euros por mês”. Bom, na melhor das hipóteses JMT teria de dizer que este é o custo da empresa e não se referir ao valor como sendo o SMN até porque faz para ali um malabarismo contabilístico convenientemente desmontado por José Soeiro.

O que ele não diz é que existem sítios no mundo onde não existem subsídios de férias ou de natal, existem até locais onde o período de férias nem é pago. Existem sítios no mundo em que não existem contribuições e os impostos até são menores. O que ele não diz é que nestes sítios o valor salarial é francamente superior e contas feitas, depois das somas e das subtrações, ficamos na cauda dos ordenados médios da Europa, isto para engordar a bolça desta malta, os que “arriscam ao investirem”.

E é mesmo isso que diz António Costa, o publisher, que continuará a frequentar a PP porque Nuno Carvalho arriscou investir (o que não era dele) num período de crise e por isso merece agora o sacrifício dos seus funcionários e portugueses em geral.

Bom, a questão não se refere propriamente à criação de emprego ou até à necessidade que esta e outras empresas possam ter de contratar com o SMN. Talvez a guerra de palavras não esteja suficientemente clara, mas o problema aqui é que Nuno Carvalho julga que é porreiro ser escravo e todos deveríamos aceitar isso como norma.

O que ninguém diz é que o tipo que trabalha 8 horas na verdade não trabalha bem 8 horas. Vamos assumir que o tipo demore 1 hora entre a sua casa e o seu emprego ao que podemos adicionar mais 1 hora de almoço, e JMT esta não é remunerada, não se preocupe. O tipo normal dedica hoje 11 horas do seu dia ao emprego. Se o senhor quiser praticar uma base de trabalho em 12 horas diárias isto quer dizer que o sujeito despende 15 horas em função do emprego e se dormir 8 horas, que é o mais natural depois de trabalhar 12, sobra-lhe 1 hora para TUDO o resto. Isto não é escravatura? JMT esta matemática não lhe serve?

A coisa já era degradante pela mão de Nuno Carvalho e os que vieram defende-lo por muitas voltas que tenham tentado dar, não conseguem defender o indefensável.

Apareceu José Diogo Quintela na sua cronica no Correio da Manha ( a ausência do til não é gralha) a tentar fazer deste enredo um tema cómico.

Não sei muito bem como sacar de uma piada quando esta tem por finalidade servir de defesa em causa própria, a coisa perde até a piada porque por ser em causa própria dá um ar de quem se está nas tintas e a gozar com a malta, sobretudo os seus funcionários.

Eu aceito que JDQ seja um tipo porreiro. Tenho amigos que não são de esquerda e tenho muitos mais que não são da minha esquerda. E percebo que ele queira defender o seu primo, a sua PP e em ultima instancia defender-se a si próprio, mas quando colocamos os outros como números de Excel como fazia Vítor Gaspar, quando a dignidade humana passa para o acessório, mais vale estar calado porque quanto mais se mexe pior cheira.

Não vou dizer que vou deixar de ser cliente da PP porque nunca fui, mas se a ocasião se proporcionar, certamente que evitarei e escolherei a pastelaria do lado.

Mesa do canto

Para um lado, os homens falavam da bola. Do penalti por assinalar e do fora-de-jogo posicional. Da táctica e da técnica. Por outro lado, as mulheres discutiam as últimas revelações das novelas televisivas. Suas voltas e reviravoltas. Também dissertavam sobre os e as concorrentes do último reality show, seus defeitos e qualidades. Naquele café, a animação era muita. E eu esquecido numa mesa do canto, de costa voltadas para o televisor, queimava tempo para ir buscar o miúdo aos treinos.

 

Pensava que tudo seria mais simples se me inserisse e participasse na maioria das conversas de ocasião. Se fosse um homem que gostasse de bola e perdesse horas a fio a discutir o tal cartão amarelo que ficou por mostrar ao minuto 13 da etapa complementar. É que aquilo é assunto que dá pano para mangas. Muita malta consegue estar toda a semana útil a discutir o golo anulado do domingo passado. É um desbloqueador de conversa, um quebra-gelo. Se dois homens partilham a paixão por um mesmo clube de futebol, automaticamente surge uma cumplicidade difícil de explicar. Porque na realidade ela se baseia em coisa nenhuma. Podem ter feitios totalmente contrários, valores antagónicos, pensamentos divergentes, mas quando se fala do clube, toda a racionalidade se vê de repente posta de parte. Que se celebrem as vitórias e se arranjem desculpas para as derrotas. Mantenha-se um sabor enciclopédico de tudo o que envolve o clube. As conquistas e troféus. Os resultados e as datas. O nome de todos os jogadores do plantel da última década e dos melhores ou mais marcantes que passaram pelo clube. E caso falte assunto, que se beba do sumo dos 3 jornais diários desportivos, que alimentam o mundo da bola. Por lá há sempre polémica. Programas televisivos sobre bola também não faltam. Não me refiro apenas à transmissão dos jogos de futebol. Há programas, com horas de duração, a falar sobre bola. Exaustivamente; repetidamente.

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Este é o quotidiano e o que realmente importa. Entretanto, eu penso na política nacional, na deriva internacional, nas alterações climáticas, em Almaraz, nos transportes públicos, nos direitos laborais, no Serviço Nacional de Saúde, na escola pública, na actividade cultural, na corrupção, no presente e no futuro… E no que vou fazer para jantar. Penso ainda, que talvez fosse mais feliz, e muito menos esquecido a uma mesa do canto, se ligasse um bocado à bola.

 

Alcochete, 26 de Janeiro de 2017

O sonho de uma noite de alcatrão

 

 

A fresadora de pavimentos desperta-me. De um salto me levanto, tentando descobrir de onde vem o ruído. Quando chego à sala-de-estar percebo que está ali a sua origem. Mas que raio?!

 

Aproximo-me do senhor de capacete na cabeça, que faz questão de colocar a gravata por cima do colete refletor. Telemóvel numa mão e rádio na outra agita os braços freneticamente, dando indicações que os restantes trabalhadores fingem perceber e cumprir. Meio estremunhado pergunto-lhe qual a razão para semelhante estaleiro montado na minha habitação. Antes de me responder pede-me para o tratar por engenheiro e não por senhor (“senhor é o meu pai”, diz ele galhofeiro). Com a condescendência que normalmente se destina aos menos capacitados recordou-me que estávamos em 2017. Eu continuava sem perceber. O engenheiro, entediado, remata que é ano de alcatroar o concelho.

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De forma infrutífera tentava explicar que não carecia tal incómodo e que estava muito contente com o actual pavimento da minha habitação. O engenheiro só abanava a cabeça enquanto se fingia ocupado. Os trabalhadores numa azáfama constante preparavam o terreno para o tapete de asfalto já pronto a ser estendido. Roguei ao engenheiro que parasse com os trabalhos. “Nem pensar!” – Responde – “Então depois do transtorno que deu trazer toda a maquinaria e material até ao sexto piso, agora queria que cessasse a obra?!”

 

Uma série de flashes cega-me momentaneamente. Por trás destes surge o presidente da câmara, com seu sorriso de crocodilo. Sovaca-me, passando o braço por cima do meu ombro direito e apertando com a mão o meu ombro esquerdo. Uma nova e rápida bateria de flashes ofusca-me. Já não vou a tempo de dizer aos fotógrafos que o lado direito é o meu melhor perfil…

Entre frases de ocasião, e tão repentinamente como chegou, o presidente esgueira-se porta fora. Afinal havia todo um vórtice de obras, arranjos e arranjinhos municipais que reclamavam a sua presença para o habitual corte de fita e o consequente registo fotográfico para a posteridade (e propaganda). Da panóplia de chavões com que me brindou retinha as seguintes pérolas: “isto agora é que vai ser, com novo pavimento na sala-de-estar”; “colocamos sempre os interesses dos munícipes em primeiro lugar”; “esta obra é de grande qualidade”; “cumprimos as nossas promessas”; ou “não esqueça o que esta câmara fez lá para Outubro deste ano”.

 

Acordo com o toque da campainha da porta da rua. Felizmente tudo aquilo não passava de um sonho. Já desconfiava. Porque mesmo dentro daquele pesadelo espantava-me o surrealismo. Quem é que seria àquelas horas? Fui atender:

- Quem é?

- É o Presidente da Câmara.

 

 

Montijo, 20 de Janeiro de 2017



O pobre banqueiro e o contribuinte que o aguenta

 

 

… e Fernando Urlich diz que não foram os contribuintes a pagar os problemas da banca…

Segundo este, ele e a banca “dele” é afinal a vitima que de 2001 a 2017 perderam 35 mil milhões de euros.

Lamentável os azares dos desgraçados dos acionistas.

Bom, por principio um investimento em ações é um investimento de risco. Naturalmente que quem investe espera lucrar, mas é preciso saber que está a assumir um determinado risco. Uns arriscam em empresas mais duvidosas onde podem ganhar mais, mas podem perder tudo, outros apostam em investimentos de menor risco onde a probabilidade de ganhar ou perder muito é menor. Não deixa de ser um risco.

Em 2001 o BPI, apenas o BPI, apresentou um lucro de 133,3 milhões de euros. O BES no mesmo ano apresentou um lucro de 197,4 milhões de euros. Já a CGD apresentou um lucro de 653,8 milhões de euros.

Em apenas 3 bancos nacionais e apenas no primeiro ano referido por Fernando Urlich foi gerado um LUCRO de quase mil milhões de euros.

Não me recordo que nessa altura ele ou outros banqueiros estivessem preocupados na exploração que faziam aos contribuintes.

Recorde-se que por esta altura quem não conseguisse pagar um credito perdia o bem, mas ficava com a divida sendo naturalmente penhorado até ao tutano e consequentemente, abrindo falência.

Segundo este os contribuintes entram com um valor entre 4,4 e 6,4 mil milhões de euros como se fosse da responsabilidade do contribuinte, qual fiador de Urlich et al, desaparecer com erros de gestão da dita banca.

Recorde-se que não há muito Pedro Passos Coelho destruiu 2 mil milhões de euros de Estado Social por imposição da Troika e sabemos muito bem as consequências dessa destruição.

E vem Fernando Urlich dizer que o contribuinte passou ao lado dos problemas da banca?

Para Urlich um tipo que é acionista e arrisca-se a ganhar, mas perde, está no mesmo patamar do contribuinte que não arriscou nada, mas perde na mesma.

Já Fernando Urlich et al lá continuam com os seus erros e prémios pornográficos.

Para estes sim, a crise passou ao lado. Para apagar impunemente estas borradas da banca consegue o contribuinte aguentar? “Ai aguenta, aguenta…

Yes He Can, Sorry.

 

Amanha toma posse Donald Trump, o mais improvável dos eleitos.

Acho que nunca ninguém acreditou que isto fosse possível. Ninguém acreditou no Partido Republicano até que foi tarde demais, ninguém acreditou na América e no mundo até que fecharam as urnas e Hillary saiu derrotada, provavelmente nem sequer Trump julgou ser possível sequer passar nas primárias.

Até ao ultimo momento houve a esperança vã que os resultados fossem impugnados ou até mesmo que ele desistisse de tomar posse. A esperança foi a ultima a morrer…

Amanhã Donald Trump toma posse de uma senão a mais poderosa nação das ultimas décadas.

A partir de amanhã teremos um tipo que quer levantar muros entre os EUA e o México. E não vale a pena reclamar muito porque aqui bem mais perto temos feito o mesmo nas fronteiras com países extracomunitários e não se tem feito grade coisa quanto ao facto.

Trump escolheu para o ajudar a governar pessoas que estão nos antípodas do que desejamos para um futuro humanitário, solidário e ecológico. Está-se nas tintas para o ambiente, para as minorias e tudo o que não é branco e americano é passível de ser eliminado se interessar à sua estratégia.

A história recente diz-nos que mandatos republicanos têm sido marcados por conflitos. George W. Bush no Iraque e Paquistão, George Bush também no Iraque e no Panamá.

Com Clinton e Obama as intervenções que existiram foram sempre nas humanitárias, no âmbito da ONU ou da NATO em parceria e não com a iniciativa.

Esta história recente preocupa-me.

Deste lado do Atlântico temos Putin que governa um país que se quer impor no mundo ao mesmo tempo que internamente castra liberdades ao povo. Não pode haver homossexualidade, não pode haver contestação, até a violência domestica parece estar a desaparecer da Rússia porque deixa de ser ilegal. A mesma Rússia “comeu” parte da Ucrânia e vai-se metendo com o “ocidente” na Síria.

Ao mesmo tempo vai fazendo provocações militares um pouco por todo o planeta levando a passear um porta-aviões filho único e obsoleto, espalha força militar nas suas fronteiras a ocidente como aviso.

Obama tem enviado tropas para os países aliados junto da Rússia e expulsou os diplomatas russos.

Trump tomará posse amanhã e já está a criar problemas com a China.

Com a Rússia ainda não sabemos se será contra ou a favor.

Sabe-se que Trump não é politicamente correto, alias, não é politico, mas tem uma mala com um botão vermelho.

Os últimos 16 anos de mandatos republicanos não foram amistosos para o mundo, guerras que sabemos que só existiram por motivos económicos.

Se Trump alinhar com Putin a sua oligarquia ou as suas oligarquias irão invadir o mundo e será tudo pelo lucro de poucos às custas de muitos.

Se Trump se fizer americano fundamentalista contra o “comunismo” russo ou contra a “china, china, china, china, china”, arriscamo-nos na melhor das hipóteses a uma nova guerra-fria, na pior das hipóteses ao fim do mundo.

Amanhã Donald Trump tomará posse da Presidência dos Estados Unidos da América. Pela primeira vez a maioria das pessoas com peso mediático não querem fazer parte do mandato de um louco o que já diz muito do medo que estes, e eu, têm dos próximos anos.

A partir de amanhã também ele poderá dizer “Yes I can”. Ele poderá ser só uma constipação passageira que não deixará marca ou yes he can acabar com a vida na terra.

 

Vamos ter esperança, mais uma vez, que estes próximos 4 anos passem depressa e sem sobressaltos de maior.

Les lieux peuplez seront inhabitables,

Por champs avoir grande division:

Regnes livrez à prudens incapables,

Entre les frères morte t dissention.

Verde-cinza, ou a incineração do futuro

 Imagem: Ana Monteiro

 

Vai ser construída mais uma incineradora de lixo nos Açores, desta vez em São Miguel.

Para as pessoas com mais consciência ambiental, esta decisão é chocante, pois vai contra a imagem que se tem (e se quer propagar) dos Açores como região de natureza. Optar pela incineração nos Açores é contrariar todas as normas regionais, nacionais e europeias sobre a matéria, que privilegiam em primeiro lugar a redução da produção de resíduos e depois uma hierarquia para a respetiva gestão, que passa pela reutilização e pela reciclagem.

A pergunta obrigatória é: Porquê? E porquê agora, após décadas de contestação?

Uma primeira explicação é a ignorância. Ignorância sobre o impacte ambiental da economia neoliberal em que vivemos, baseada no consumo voraz dos recursos não renováveis do planeta. Ignorância da grande percentagem da população que não reutiliza, não recicla e não se importa. Mas ignorância também dos decisores autárquicos e governamentais, traduzida na inércia e falta de criatividade na resolução dos problemas ambientais.

Se a ignorância dos decisores é indesculpável (pois lhes pagamos para defenderem o interesse público), quero propor que a explicação para o seu comportamento é mais funda, e para a entender há uma data simbólica: 20 de agosto de 2012. Neste dia o presidente Cavaco Silva aprovou o regime jurídico da atividade empresarial local, proposto pelo primeiro-ministro Passos Coelho, autorizando os municípios a transferir para o setor empresarial (entre outras) competências de gestão de resíduos. As empresas assim criadas devem apresentar resultados anuais equilibrados, sendo financiadas por contratos programas e pela venda dos seus serviços às câmaras, ficando expressamente probidas (!) de receber subsídios ao investimento. A aprovação desta lei devia ter feito soar as campainhas de alarme. Como não se viu que tratar o lixo como uma mercadoria vai à partida criar conflitos insanáveis com o interesse público e os valores de sustentabilidade universais? Pois não se vê logo que considerar o lixo um recurso é um atropelo ao primeiro degrau da hierarquia de gestão de resíduos, a recomendação de reduzir a respetiva produção?

Muitos terão visto, para ser honesto, mas não me consta que tenha feito manchetes. De facto, esta lei (que também transforma a água em mercadoria) enquadra-se na lógica de privatizações que tem sido apresentada como a evolução natural da economia moderna. Acompanhado do mito da maior eficácia do setor privado e reforçado pela "inevitável" escassez de dinheiro do sector público, a mercadorização dos serviços públicos, apresentada como consensual pelos partidos dominantes, é aceite de forma acritica ou resignada pela população. "Não querem pagar mais impostos, pois não?", é o argumento.

Ao aprovarem a construção de duas incineradoras nos Açores os autarcas eleitos pelo PSD e pelo PS estão a ser coerentes com a ideologia neoliberal que domina os partidos do poder.

A gestão do lixo e o abastecimento de água à população são negócios. A dimensão das incineradoras é determinada pelo lucro do processo. O lixo é apresentado como um recurso, e a sua incineração como uma fonte de energia renovável. Não ver aqui um conflito com os valores de sustentabilidade ambiental é a confirmação de que a era da pós-verdade já chegou a este lado do Atlântico.

O Luto Continua...

 

 

O luto tornou-se nos últimos tempos, sobretudo em 2016 em algo banalizado. Vamos fazendo umas publicações nas redes socais sobre artistas, cientistas ou políticos que nos vão deixando com um rasgado pesar.

A espaços, menores, vamos lamentando os que morrem no mediterrâneo a fugir da guerra, mas apenas quando a mortandade é excecionalmente mais elevada para justificar a noticia, a espaços ainda menores lá vamos demonstrando algum incomodo com Alepo.

Ontem assisti a dois funerais.

O primeiro, o de Mário Soares seria o funeral obvio, já escrevi umas palavras sobre o tema e não regressarei a ele.

O outro, parecendo que não, está relacionado.

Parece que não porque não tem corpo físico e as exéquias precederam o funeral em si em 9 dias.

Refiro-me obviamente ao fim do mandato de Barack Obama, ao seu discurso de despedida, à tomada de posse de Donald Trump dia 20 deste mês, à conferencia de impressa deste ultimo já no dia de hoje.

Sinto aquele nó no estomago que sentimos na antecipação de algo que pode correr francamente mal. Um louco prepara-se para tomar posse de uma das potencias mundiais e mesmo já fora da campanha eleitoral continua no mesmo registo incauto, medonho, erróneo, doente, discriminatório, poluidor, constrangedor…

Tenho a estranha sensação que ou assisto a um momento histórico ou ao fim da história.

Por toda a Europa os radicais de direita, esses que durante tanto tempo se esconderam debaixo de pedras já gritam alto e bom som com atrevimento e sem medo.

A China investe sem parar em armamento e a Rússia não fica muito atrás.

Nós por cá nem vamos dando conta porque andamos entretidos com o juro de 4% da venda de divida publica.

É nesta altura que é suposto deixar de ser ateu e acreditar num milagre de Lazaro para a democracia, para a liberdade e para a justiça?

“Prefiro jogar”

Temos sempre a ideia de que os nossos filhos não ouvem o que lhes dizemos. Essa foi sempre a minha convicção, quando martelava o meu descendente com as noções básicas da urbanidade e sã convivência. De como devemos saber estar e como devemos agir. Como ele é praticante de desporto, e como também eu o fui enquanto jovem, tentei incutir nele a ética desportiva e o respeito pelo adversário. Uma mentalidade de salutar competitividade desportiva. Além de saber perder, e encarar esse facto com naturalidade e espírito crítico pela sua actuação, é essencial saber ganhar. E ter a percepção que a vitória não pode nem deve ser obtida a qualquer custo.

 

Parecia não estar a resultar. Teimoso e refilão. Obstinado na procura da bola. Vai aos arames cada vez que alguém lhe agarra a camisola ou em cada lance que se sente travado no limite da legalidade. Verdade seja dita, que não me lembro de o ver puxar a camisola de nenhum adversário. Mas já o vi ser expulso algumas vezes… Sempre em resposta a agressões, à excepção de uma vez que não parou de refilar com o árbitro, depois deste o ter amarelado por uma suposta falta que ele não cometera. No meu entender isto não revela um comportamento anti-desportivo. Antes alguém que tem dificuldade em lidar com injustiça e se recusa a assistir impávido e sereno. Isso só faz dele um bom carácter, nada mais…

 

O último jogo da sua equipa saldou-se por uma vitória pela margem mínima. Os momentos finais do jogo foram de verdadeiro sufoco. Defendendo de todas as formas possíveis e imaginárias, lá levaram a água ao seu moinho. No rescaldo da partida o treinador dissertava sobre a forma como perante um resultado tímido é necessário lançar mão de subterfúgios para “queimar tempo”, fazendo com que os ponteiros do relógio enervem o adversário e lhe retirem o discernimento necessário. Às páginas tantas lança a pergunta retórica, que é já um chavão futebolístico: “vocês preferem perder ou ganhar?” Silêncio sepulcral no balneário. Meu filho, astuto, do alto dos seus 15 anos de idade, dispara a resposta que não era pedida nem desejada: “prefiro jogar!” Atónito, e sem saber muito bem o que dizer, o treinador reagiu: “então, depois perguntas ao teu pai.” Era desnecessário. E o meu filho bem o sabia.

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É sempre um orgulho enorme para mim, quando sou surpreendido desta forma pelo meu filho. Provou não só que ouve o que lhe dizem em casa, como também que põe em prática e se revê em tais ensinamentos. É alguém que não embarca em chico-espertices, nem atalha caminho. “Mas olha que o mundo é dos espertos” – sinto o leitor a alertar. Pois os espertos que fiquem com essa visão do mundo. Eu prefiro lutar para construir um mundo melhor. E levo o meu filho comigo!

 

Montijo, 11 de Janeiro de 2017

Daniel Blake, vive

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Por um momento fiquei apático… Eu disse por um momento? Deve antes ter sido por um período considerável. Lembro-me de terem passado todos os créditos, mas não ter fixado nenhum nome, das luzes se ligarem, de todas as pessoas saírem da sala, incluindo aquela senhora de idade de andar arrastado. Eu continuei sentado. Olhos húmidos e incrédulo com o que acabara de visionar. Lembro-me do silêncio sepulcral na sala de cinema, apenas interrompido pelos regulares fungar dos espectadores (e alguns meus). Emocionei-me verdadeiramente ao ver “I, Daniel Blake”. Nada fazia antever este desfecho perante um diálogo surreal de abertura, ainda com o ecrã todo negro.

 

Desenganem-se aqueles que pensam que é somente um filme. É tudo menos um filme. É como ser arrastado por uma onda de realidade; perdão, arrasado por um tsunami de veracidade. Um olhar atento e profundamente crítico de uma sociedade moderna que perdeu os valores humanistas. E que maltrata que é fraterno e solidário. Extremamente materialista, mas que faz um esforço enorme em se desmaterializar. Não por uma visão de eficiência ou sustentabilidade. Mas por poupança. De quê? De tudo. De papel, de tinta, de energia, de espaços, de tempo, mas, acima de tudo, de pessoas. Na secreta esperança que se tornem invisíveis. Que desapareçam dos ficheiros e das estatísticas e dos indicadores. Que não sejam um número na taxa de desemprego, mas também que não sejam um peso para o Estado nos serviços de pensões. No fundo o ideal é que estas pessoas não existam…

 

Mas Daniel Blake não é um personagem ficcionado. E não desaparece quando a película do filme termina. Ele é bem real. É aquele com que partilhamos o banco do autocarro ou com que nos cruzamos na rua; é nosso parente distante ou nosso vizinho do lado; é o amigo de longa data ou o desconhecido que estende a mão. Daniel Blake, que só quer ser, nem mais nem menos, que um vulgar cidadão. Que cumpre seus deveres e espera que lhe sejam reconhecidos seus direitos. Mas que se vê vencido, melhor, esmagado por uma máquina burocrática especializada em fazer com que as pessoas simplesmente desistam. Num momento ou noutro da nossa vida, a maioria de nós certamente sentiu o mesmo. E nesse campo específico, todos somos, ou podemos vir a ser, Daniel Blake.

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Montijo, 8 de Janeiro de 2017

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