Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Liberdades que limitam a liberdade

 

A luta pela liberdade deixou de ser um fim em sim mesma e agora essa luta começa agora a asfixiar até mesmo aqueles que lutaram pela liberdade. Criámos um monstro.

Confuso?

Tenho assistido a uma imensa polémica em torno de Ricardo Araújo Pereira quando vários opinadores começaram a criticar as entrevistas quem tem dado a propósito do lançamento do seu livro, em particular quando referiu que nos dias de hoje já não poderia fazer piadas sobre o coxo, o marreco e o mariconço.

 

 

 

Foi-me chamado a atenção através de um opinador em particular, Paulo Côrte-Real no blog Jugular que se diz muito ofendido por sempre ser chamado durante a maioria da sua vida de mariconço.

Quando me encontro rodeado de pessoas da politica e de associações, sinto que tenho de pensar muito bem nas palavras que digo porque já sei que há sempre alguém que se melindra com qualquer coisa. Há sempre alguém com hipersensibilidade a um qualquer tema e que tem sempre a ideia de ter um conhecimento mais profundo do que todos os outros.

Devo dizer duas coisas: a primeira é que por norma tropeço com as suas hipocrisias com alguma frequência. Em espaço aberto são as vozes que criticam os outros, com portas fechadas fazem do mesmo tipo de piadas que anteriormente criticaram.

Quantas piadas já ouvi da boca de gays sobre as suas “bichices”? E destas piadas fazem uma valente galhofa sem qualquer tipo de pudor ou auto-sensibilidade.

A segunda coisa que devo dizer é que por norma esta malta não serve para harmonizar a sociedade, tornando-a mais tolerante para com o próximo. Serve antes para polarizar criando um monstro pró e outro contra e no fim, acabamos por ver um país que legisla na castração da liberdade de expressão em nome da liberdade dos atos.

Sou provocador e uso anomalias sociais para, generalizando, brincar com os meus amigos que são passiveis de ser rotulados dentro dessas anomalias.

Naturalmente que os meus amigos sabem que estou a brincar com eles e não levam a mal, mas essa provocação revela que essas anomalias existem. Eu não as dizer não faz com que não existam e o que esta malta fundamentalista do pau oco a única coisa que fazem é fazer com que as pessoas se encolham nas palavras e não nos pensamentos nem os eventuais atos.

Não é ao travar as línguas que mudamos as mentalidades e isso é bem evidente nos nossos dias em que as “extremas-direitas” ganham terreno.

Se eu não as travar posso tentar desmontar-lhes o argumento e demonstrar vantagens de ver a coisa de outra perspetiva. Se eu forçar o silencio, na verdade não estarei a silenciar nada como é evidente em todos os regimes castradores de liberdade que existiram até hoje. As pessoas sempre encontraram formas subversivas de falar.

Existirão sempre pessoas capazes de se rir de si próprias e das suas fragilidades, existirão sempre pessoas que se rirão das suas opções, de piadas sobre o seu fenótipo ou da sua sexualidade. Existirão sempre os que não aceitam a sua condição e se sentirão ofendidos pela piada que não é feita para ofender.

Tentar limitar o uso da palavra, mesmo quando não nos agrada, é castrar a liberdade conquistada.

Temos a liberdade de existir e de nos expressarmos tal como os outros. Temos ainda a liberdade para não ver determinado canal, para não ler determinado jornal, para não frequentar determinado estabelecimento, ou seja lá o que for aquilo que nas palavras dos outros nos incomodem.

A minha liberdade termina onde inicia a liberdade do próximo e em momento algum apoiarei algo que diminua quer a minha liberdade quer a do próximo. Hoje será o outro, amanhã poderei ser eu.