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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Que dure; que seja perpétuo… Que logo se veja.

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A certeza é hoje efémera. Mas o futuro é mais que certo. O amanhã chegará, forçoso, já ao virar do dia. Quer estejamos cá, quer não. E na velha telefonia, o som estridente da música ligeira teima em persistir. Na resiliência de se fazer ouvir; na insistência de ser intemporal. Na casmurrice da sua intolerância cultural.

 

As paredes caiadas, aos poucos cobrem-se de negro. É inevitável junto àquele braço de rio… Ou será perna? Pouco importa a anatomia fluvial. Tão certo como o tempo que passa é o facto daquela água ali não voltar. Mais triste seria se fosse aprisionada no espaço e no tempo. Encarcerada na terra madrasta. Porque não se volta ao lugar onde se foi infeliz. Onde se passou, simplesmente, para deixar aluvião. Trabalho árduo, que molda o território e forma riqueza. Mas será essa a riqueza necessária?

 

No faustoso depósito de sedimentos cresce o lamaçal do desenvolvimento. Sem o vapor de outrora e sem a alternativa devida. É tudo maior, melhor, mais higiénico e mais longe. Atolada fica a pessoa: singular ou colectiva. Enquanto isso, o interesse estabelecido paira agilmente sobre esse obstáculo. Certo que um novo voo trará a prosperidade ansiada pelos seus parasitas. Mas o que é estudado, projectado, calculado, prometido, devido, errado e esquecido teima em não chegar. Respiramos por momentos, aliviados da asfixia mediática que nada esclarece, mas muito adormece. E mesmo que chegue: trará a riqueza necessária? Algo que dure; que seja perpétuo?

 

O tijolo está parado e não constrói comunidade. Ele até é edificado, mas falta o cimento que o fixa. E o que ainda prevalece de pé arruína-se. A chaminé abate e o património esbate-se. Ausente da memória dos que não são de cá e esperam clarividência. A velha coloca a cadeira de metal na eira à espera da chuva no nabal que não chega. É corroída pelo sal e atacada pelo sol. A velhota? Não, a cadeira. Na realidade, ambas. A velha há muito que sente a ferrugem. De dia para dia inclina-se como a chaminé; vai perdendo a construção da sua vida. Sabe que não durará, nem será perpétua. Mas quer deixar legado; transmitir importância. Contribuir para a riqueza necessária.

 

No fogareiro assam as bifanas. O seu perfume já ensopa o ar. Estão quase no ponto de se aconchegarem no pão. Chegam no momento certo para embelezar o Carnaval quinhentista dos santos populares. Ou provavelmente não passam do final de ano. As ruas enchem-se de curiosos que colocam os olhos no céu, olvidando as ruelas. Ansiosos de ver no fogo-de-artifício o futuro terreno que os astros escondem. Mas o fumo esfuma-se. Não dura, nem se torna perpétuo. Certo que cria riqueza. Mas será esta a riqueza necessária?

 

Do alto do seu chão, a prepotência eleva-se. Ao nível de todos os outros, mas com a soberba que a ilude. Vangloria-se, pois mais ninguém o faz. Mesmo os seus já duvidam. Vocifera a planície de ideias que não é, nem nunca foi, planalto. Promove-se e rouba o palco que devia ser comunitário. De instantâneo em instantâneo, até ao instante final. Certa que se chega e se esgota a si mesma. E tem razão, esgota-se a sim mesma! Tal como os demais se sentem esgotados… Da ausência de algo que dure, que seja perpétuo. E do permanente e irritante: que logo se veja.

 

Montijo, 30 de Dezembro de 2016

António Costa desaponta com TSU

 

Hoje a minha confiança em António Costa ficou beliscada ao ouvir o debate quinzenal no parlamento.

Os argumentos que usou poderiam ser usados por Pedro Passos Coelho há dois anos atrás, uma espécie de tentativa de deitar areia nos olhos dos outros protegendo os seus com a prenda de natal de Assunção Cristas, uns óculos para míopes.

A polémica centra-se sobretudo em torno do aumento do salário mínimo nacional (SMN) e do modo como este está a ser negociado.

Há sensivelmente quatro anos atrás o povo saiu à rua depois de Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar anunciarem uma transferência do peso da TSU das empresas para o empregado. Foi a maior manif dos últimos tempos com o povo a sair à rua por todo o país que contou com o apoio de mais de um milhão de protestantes. O Governo abanou mas não caiu.

Hoje António Costa faz precisamente a mesma proposta sem que ninguém dê conta e o povo segue sereno e nem sequer a oposição parece encontrar argumentos para mobilizar e inviabilizar o intento.

António Costa propõe um aumento do SMN para 557€ e ainda que muitos tenham demonstrado no interesse que esse aumento fosse mais ambicioso, ninguém se opõe ao aumento em si.

A questão está precisamente na TSU.

Para quem hoje está no ativo a ideia de uma reforma é uma incerteza até porque ano após ano o tempo se apresenta mais distante. Não existem garantias de uma reforma tal como não existe a garantia que um próximo Governo mais à direita não volte a delapidar o Estado Social promovendo as PPR em detrimento do compromisso do pagamento das reformas pelo Estado.

A proposta de Vítor Gaspar era de trocar parte da responsabilidade do empregador para o empregado de forma imediata com base no argumento que os aumentos de impostos por si criados seriam assim aliviados o que permitiria o aumento do emprego.

Certo é que nenhuma entidade patronal contrata mais funcionários porque tem mais dinheiro. Fá-lo se tiver de produzir mais. Na melhor das hipóteses um empregador com menos carga fiscal ou fica sossegado e amplia os seus lucros ou baixa o valor da venda dos seus bens ou serviços.

O único que tenho conhecimento que contrata só para gerar emprego é Rui Nabeiro, uma exceção que confirma a regra.

António Costa propõe exatamente o mesmo que Vítor Gaspar com uma nuance apaziguadora.

Enquanto Vítor Gaspar colocou a situação numa troca direta, António Costa faz uma troca com o futuro usando exatamente dos mesmos argumentos. como essa troca não tem efeitos imediatos, o povo permanece sereno.

Nesta altura é mais fácil mascarar a descida da taxa da TSU porque o desemprego tem vindo a descer, ou seja, há mais gente a contribuir e menos gente subsidiada, mas num sistema deficitário em que as gerações não se têm renovado com uma taxa de natalidade demasiado baixa, não tardará muito para que a mascara caia.

Tal como a gestão do BES, também aqui António Costa empurra o problema com a barriga para a frente, para um tempo que talvez já não esteja no Governo. Quem vier atrás que feche a porta…

Estranhamente Jerónimo de Sousa responde com argumentos liberais alegando que esta medida irá promover o emprego com base no salário mínimo e que deveria ser o mercado aberto a definir o valor dos salários. (francamente não entendi)

Certo é que António Costa desapontou-me em larga medida e depois da reunião do PCP e do BE, neste debate da AR a geringonça funcionou de modo muito desafinado.

 

Os Direitos Humanos : os de cá e os de lá

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Não se pode analisar a situação que se vive em Alepo sem se fazer uma incorporação de situações já vividas, no passado.

Afinal quem está em guerra?A Rússia? O Irão? A Síria? A Turquia? O Afeganistão? O Libano? O Iraque? A Arábia Saudita?O Daesh?

As batalhas sucedem-se, assim como os cessar-fogos. Tudo pára e recomeça vezes sem conta. Só não pára o sofrimento e a crise humanitária. Ao tentarem eliminar os "focos de resistência" justificam massacres e dão alimento aos sentimentos de vingança. Quando tudo parece estar a terminar, volta a recomeçar Os bloqueios são intermináveis e as evacuações inviáveis.

Desconstruindo o nosso imaginário, necessitamos construir novas formas de intervenção, as atuais não estão a resultar. Ao tentarmos mortificar instituuições que se dizem normalizadoras talvez consigamos encontrar respostas.

A História é factual assim, tudo o que está a acontecer é um contributi para a História. Seja mau, seja bom, faz-se História. Faz-se História quando os acontecimentos nos surgem contra-corrente; faz-se História porque as evidências não nos mente. Se as fragilidades reforçam a luta, faz-se História. Alepo está a construir a sua e, não é uma História bonita de ser contada.

Se as fragilidades reforçam a luta, faz-se História

Estes "movimentos perpétuos" tornam-se condutas desviantes, fugindo ao realismo e ratificando a transgressão. Assad transgride; Putin transgride; o Daesh transgride.....

As análises focadas no medo, mais não fazem do que refletir retóricas já   desacreditadas. Apela-se a práticas que, ao tentarem vingar, procuram desenhar modelos de atuação sobejamente conhecidos e muito pouco crediveis.

Um novo tipo de "despotismo esclarecido" surge em Alepo, no Iemém, em Angola....

Alteram-se racionalidades e, em simultaneo, surgem novos enquadramentos; crescem fundamentalismos acompanhados de novos e condenáveis experimentalismos; enfatizam-se os bombardeamentos mas ignoram-se as pessoas.

Descompliquemos.

Existem os Direitos Humanos de cá e, os de lá.

Quando estas gentes chegam à Europa, estes Direitos são ativados. Quando estão em Alepo, são esquecidos.

A necessidade de fazer silêncio, em torno de uma guerra, começa a provocar ruidos em teses anacrónicas, repetidas até à exaustão. Mas esta evidência não tem contribuido para o esclarecimento das realidades. Pois, existem muitas realidades. As realidades vividas, as contadas, as recontadas, as passadas....Em Alepo a realidade é o agora, é o presente, tudo o resto faz-se História. 

A singularidade com que este assunto tem sido abordado, corresponde a uma pluralidade de retóricas, apoiadas em poderes questionáveis. Precisamos, urgentemente , de clareza nas idéias e nas ações.

Os discursos românticos, tão apegados aos discursos de ocasião e ao populismo, em nada contribuem para o esclarecimentos dos povos. Protela-se uma situação de resolução, necessáriamente, urgente.

A gaguez do pensamento maioritário, na Europa, começa a dar-me razão: existem os Direitos Humanos de cá e os de lá. Assim torna-se dificil pensarmos pensamentos com os quais não existe qualquer tipo de afinidades.  Deparamo-nos, diariamente, com a glorificação da mesquinhez, da mediocridade e da caridade. O apelo ao assistencialismo continua a servir para "lavar as almas" dos crentes, de qualquer religião.É necessário existir guerra, refugiados e espoliados, para que se pratique o assistencialismo e a caridade, para que as religiões existam, para que os crentes se possam purificar.

Nada disto faz sentido. A palavra solidadriedade tem de ser levada à letra.

Existe uma urgência hunanitária `à espera de resolução em que é preciso garantir que a desculturação não se venha a verificar. Estas gentes precisam de ajuda, de proteção, mas precisam continuar a ser gente.

Com o torbilhão constante em que o meu pensamento vive e com o permanente sonho lirico da verdade e da justiça, insinuo-me , dentro de um espaço alternativo, tornando-me impactante com uma especie de fratria onde ainda habita a vontade de solidariedade e do respeitos peloa Direitos Humanos.

A quem incomida o esclarecimento? A quem incomoda uma imformação verdadeira?.

É preciso provocar.Provocar discussão, provocar reflexão, provocar confrontação ideológica.

As roturas sistémicas, por vezes, são necessárias. A criação de margens às nossas utopias apenas contrubuem para eternizar os limites à reflexão.

Pois então reflitamos:

O que fará Assad quando tomar Alepo?

Alepo é "só" uma cidade.

Alepo é "só" mais uma vitima.

Alepo é "só" Alepo

 

Liberdades que limitam a liberdade

 

A luta pela liberdade deixou de ser um fim em sim mesma e agora essa luta começa agora a asfixiar até mesmo aqueles que lutaram pela liberdade. Criámos um monstro.

Confuso?

Tenho assistido a uma imensa polémica em torno de Ricardo Araújo Pereira quando vários opinadores começaram a criticar as entrevistas quem tem dado a propósito do lançamento do seu livro, em particular quando referiu que nos dias de hoje já não poderia fazer piadas sobre o coxo, o marreco e o mariconço.

 

 

 

Foi-me chamado a atenção através de um opinador em particular, Paulo Côrte-Real no blog Jugular que se diz muito ofendido por sempre ser chamado durante a maioria da sua vida de mariconço.

Quando me encontro rodeado de pessoas da politica e de associações, sinto que tenho de pensar muito bem nas palavras que digo porque já sei que há sempre alguém que se melindra com qualquer coisa. Há sempre alguém com hipersensibilidade a um qualquer tema e que tem sempre a ideia de ter um conhecimento mais profundo do que todos os outros.

Devo dizer duas coisas: a primeira é que por norma tropeço com as suas hipocrisias com alguma frequência. Em espaço aberto são as vozes que criticam os outros, com portas fechadas fazem do mesmo tipo de piadas que anteriormente criticaram.

Quantas piadas já ouvi da boca de gays sobre as suas “bichices”? E destas piadas fazem uma valente galhofa sem qualquer tipo de pudor ou auto-sensibilidade.

A segunda coisa que devo dizer é que por norma esta malta não serve para harmonizar a sociedade, tornando-a mais tolerante para com o próximo. Serve antes para polarizar criando um monstro pró e outro contra e no fim, acabamos por ver um país que legisla na castração da liberdade de expressão em nome da liberdade dos atos.

Sou provocador e uso anomalias sociais para, generalizando, brincar com os meus amigos que são passiveis de ser rotulados dentro dessas anomalias.

Naturalmente que os meus amigos sabem que estou a brincar com eles e não levam a mal, mas essa provocação revela que essas anomalias existem. Eu não as dizer não faz com que não existam e o que esta malta fundamentalista do pau oco a única coisa que fazem é fazer com que as pessoas se encolham nas palavras e não nos pensamentos nem os eventuais atos.

Não é ao travar as línguas que mudamos as mentalidades e isso é bem evidente nos nossos dias em que as “extremas-direitas” ganham terreno.

Se eu não as travar posso tentar desmontar-lhes o argumento e demonstrar vantagens de ver a coisa de outra perspetiva. Se eu forçar o silencio, na verdade não estarei a silenciar nada como é evidente em todos os regimes castradores de liberdade que existiram até hoje. As pessoas sempre encontraram formas subversivas de falar.

Existirão sempre pessoas capazes de se rir de si próprias e das suas fragilidades, existirão sempre pessoas que se rirão das suas opções, de piadas sobre o seu fenótipo ou da sua sexualidade. Existirão sempre os que não aceitam a sua condição e se sentirão ofendidos pela piada que não é feita para ofender.

Tentar limitar o uso da palavra, mesmo quando não nos agrada, é castrar a liberdade conquistada.

Temos a liberdade de existir e de nos expressarmos tal como os outros. Temos ainda a liberdade para não ver determinado canal, para não ler determinado jornal, para não frequentar determinado estabelecimento, ou seja lá o que for aquilo que nas palavras dos outros nos incomodem.

A minha liberdade termina onde inicia a liberdade do próximo e em momento algum apoiarei algo que diminua quer a minha liberdade quer a do próximo. Hoje será o outro, amanhã poderei ser eu.

Feira Dona Edite 3.0

O momento chegou em que Dona Edite, mulher honrada e esposa de pescador, se fez Feira. Não uma Feira qualquer, não senhora. Antes uma Feira Independente. Plena e pujante e fértil e inteira. Que isto de arranjar as sobrancelhas e fazer o buço era questão de grande importância e merecia um evento à altura. Portanto, emancipou-se, cortou amarras e zarpou rumo ao imenso desconhecido cultural.

 

Expurgam-se os tempos, expurgam-se as vontades. Espera lá; será mesmo assim? Pouco importa… Dona Edite adapta-se e é agora jovem, cosmopolita e intelectual. E independente, pois claro! Com destreza urde a rede que apanha as diferentes formas culturais e as interliga.

 

No próximo dia 17 de Dezembro de 2016, Dona Edite completa o seu terceiro semestre. Será que equivale a bacharelato? Possivelmente. Muitos já estariam licenciados, com equivalências que a pouco equivalem. Mas Dona Edite não afina por esse diapasão. Seu objectivo é o conhecimento perpétuo, a cultura infindável. Cruzar erudição e profano no aconchego do Montijo.

 

Nesse sábado haverá música e literatura, desenho e ilustrações, editoras independentes e tertúlias sobre o fenómeno do associativismo cultural. Tudo em rede, de malha fina, para ninguém cair, para nada ser desperdiçado. Acima de tudo Dona Edite será espaço de convívio e de encontro da cultura independente vulgarmente apelidada de “underground”. Mas nesta terra gostamos mais de chamar-lhe “underriver”, pois das águas do Tejo vem riqueza, origens e saber.

 

Dona Edite é oportunidade. De conhecimento, de encontro; de compra e de venda; material e cultural. É alimento para o espírito e enriquecimento para a mente. É redesenhar limites e projectar utopias. É construção de edifício cultural em tempo real. É persecução de uma identidade cultural cosmopolita para Montijo. Mas é também o enorme desafio, e a brutal coragem dos seus organizadores, de fazer uma Feira Independente nesta pacata cidade, que ainda se sente Aldeia Galega.

 

Portanto já sabem, sábado, dia 17 de Dezembro de 2016, entre as 14h e as 20h, todos ao espaço da Primeirinha, da Sociedade Filarmónica 1.º de Dezembro, à Praça da República, em pleno coração da cidade do Montijo. Instituição secular da cultura associativa do nosso município. Que demonstra claramente como 162 anos de história podem, simultaneamente, ser tão actuais. A Dona Edite dá uma mãozinha. A nós cabe participar de corpo e alma.

 

Mas enganem-se se pensam que isto fica por aqui… É o tempo de comer uma caldeirada à pescador, retemperar forças e voltar fora de horas e Fora de Portas. Sim, porque a cultura não se deve confinar a barreiras físicas. As paredes não são mais que um estado de espírito e condição temporária e perecível. Nesta edição 3.0, Dona Edite expande horizontes. Bateu à porta dos vizinhos, que amavelmente acederam. A partir das 23h faz-se ouvir em casas da noite montijense com créditos já firmados. Porque música também é cultura, O TimeOut Montijo e o Timila das Meias servirão de porto de abrigo. Para ouvir e conviver. O farol cultural estará ligado. Deixem-se guiar, caiam no engodo. E respondam positivamente à chamada.

 

Montijo, 12 de Dezembro de 2016

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( podem consultar o programa aqui: Feira Dona Edite 3.0)

Marcelo em defesa do regime... O Grande Capital

 

Se olharmos para a historia contemporânea, a que nos é observável a partir da II Guerra Mundial, temos experienciado algumas décadas de liberdade, democracia e prosperidade aparente da comunidade. Mais adiante justificarei porque me refiro à prosperidade como coisa aparente.

A liberdade depende da democracia e esta depende da prosperidade da comunidade. Se esta desaparecer, as outras estão condenadas ao fracasso e é esse fracasso a que estamos hoje a assistir.

A prosperidade da comunidade não é mundial, é apenas de uma parte do mundo que na sua maioria é a nossa realidade e a que nos é semelhante.

E mesmo essa prosperidade comunitária é sustentada numa hipoteca que se vai renovando ao longo do tempo. José Sócrates enquanto Primeiro Ministro disse-o com clareza: “Para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei".

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A verdade é que esta gestão de divida por norma sustenta-se na exploração do elo mais fraco, quem trabalha, e é gerível até ao dia em que uma crise ganhe dimensão suficiente para rebentar a bolha.

Vamos ser claros, passámos as ultimas décadas a comprar produtos onde era mais barato sem que isso melhorasse em grande medida as condições dessas comunidades e hoje estamos alarmados, depois de anos a enviar dinheiro para lá, que eles nos andem a comprar as “nossas” empresas.

O problema não é se o Governo é de centro-esquerda ou centro-direita porque a Europa tem assistido ao longo de décadas a esse vira-minhoto entre estas duas linhas, nem sequer é um problema da direita democrática ou republicana dos EUA.

O problema está noutra dimensão, na dimensão financeira governada pelos mercados e pelas multinacionais. Estas ganham tanto mais dinheiro quanto pessoas, famílias e empresas se endividarem. É a maneira de fazer mais dinheiro, de fazer pessoas e países hipotecarem-se ad eternum, e de forçar a tal gestão de divida.

A banca, seja nacional ou privada tem o papel mais importante desta governança, um perfeito intermediário entre a necessidade e a satisfação dessa necessidade.

Os últimos anos foram bem claros a esse respeito, no Chipre os cidadãos foram chamados a cobrir os prejuízos da banca de modo direto, em Espanha a intervenção da troika resumiu-se precisamente na ajuda à banca e por cá temos andado a salvar os bancos não de forma direta como no Chipre, mas através do aumento de impostos, de transferências de custos da banca para o Estado e em ultima análise, e a bem de uma aparente estabilidade, do aumento da divida publica.

Estamos neste momento com 133% de divida publica em relação ao PIB e continua a crescer, e só esse continuo crescimento é que mantem uma ilusão de estabilidade e até recuperação da crise. Mas ninguém pega muito neste aumento da divida.

Marcelo Rebelo de Sousa disse-o ontem às clara que partidos que Governam ou pretendem governar não podem fazer ondas sobre a banca. Disse mesmo às claras que a banca é o regime.

É por isso que pouco importa as atrocidades que se fazem por esse mundo fora contra as pessoas desde que o “regime” seja a favor da banca.

Os partidos que defendem que a saída do Euro e da UE são a salvação não estão a fazer nada de diferente dos partidos de extrema-direita que começam a ganhar terreno por esse mundo fora. Nenhum deles, no entanto nos diz em que medida é que o regresso do Escudo irá melhorar o nosso futuro, porque o Escudo não irá melhorar em nada, provavelmente, muito provavelmente irá mesmo piorar.

O problema é de outra esfera e dessa, como disse Marcelo, o melhor é não falar nem se atacar porque quem fala de modo diferente é contra o regime e quem fala contra o regime é radica.

Bom, a verdade é que por esse mundo fora as pessoas fartaram-se do tal regime e na falta de solução melhor e credível, tenta-se qualquer coisa diferente.

Foi assim que o Syriza ganhou as eleições gregas e por cá a malta de esquerda aplaudiu como uma lufada de ar fresco. O processo oposto passou-se recentemente nos EUA com Trump a vencer as eleições expressando-se contra o regime ao mesmo tempo que assumiu beneficiar dele.

Os norte-americanos não são tão diferentes de nós quanto isso. Não há motivo para lhes chamar de burros por terem votado Trump. Estou certo que muitos dizem como cá: “políticos são todos iguais, querem é tacho…”.

E quando o tacho deles já não resolve os meus problemas enquanto cidadão e quando já votei em todas as hipóteses que pareciam razoáveis e sem que isso trouxesse nada de novo, então é altura de votar em algo diferente.

Neste momento a grande derrotada é a democracia e com ela a liberdade, a estabilidade e a prosperidade. Para salvar a democracia é preciso fazer cair o regime da banca e os seus guardiões mantendo qualquer espécie de ideologia autoritarista e totalitarista longe do poder.

Esses são aqueles que quando não morres da doença te mantam pela cura.

Ditadores e revolucionários

Costumo reflectir sobre a legitimidade de impor regimes ou sistemas políticos a terceiros. Temos para nós a ideia que a democracia é o melhor sistema político e o mais evoluído. Com as suas nuances, esta pode ser parlamentar, presidencial ou uma mescla, mas no final do dia obedece à votação do povo, cuja vontade é soberana. Pessoalmente, acredito que “a democracia é a pior forma de governo, à excepção de todos os outros (…)”, tal como afirmou Winston Churchill. Mesmo assim custa-me, como já indiquei, a sobranceria de impor essa forma de organização a outros países. Mas, acima de tudo, indigna-me a incoerência como nos relacionamos, como país e como União Europeia, com diferentes ditaduras e falsas democracias. Isto também é verdade na posição perpetuada pelos partidos tradicionais, que antes de analisarem o tipo de regime ou a ausência democrática, vislumbram o alinhamento ideológico para com a sua doutrina.

 

Consoante o nosso interesse económico ou estratégico fechamos muitas vezes os olhos a determinados regimes ditatoriais. O caso de aceitação de entrada na CPLP da Guiné Equatorial é disso exemplo. O regime de terror imposto por Obiang foi propositadamente colocado em segundo plano, face aos barris de crude que fluem de seu território, um dos maiores produtores de petróleo da áfrica subsaariana. A China também tem sido parceiro de negócios de eleição, país que atropela constantemente os direitos humanos e onde se vive sobre um regime de partido único.

 

Simultaneamente, outras ditaduras são colocadas no outro prato da balança. É o caso da Coreia do Norte ou de Cuba. Como se houvessem ditaduras boas e ditaduras más… Esta é a hipocrisia da nossa sociedade, denominada de livre. O continente europeu é useiro e vezeiro neste tipo de situações. É certo que por todos os estados é o sistema democrático que vigora. No entanto, em muitos países ainda se alimentam monarquias. Não deixa de ser paradigmático que países que acreditam que o sistema democrático é o mais evoluído e o que melhor responde aos anseios da população, impondo essa crença a todo o custo, depois pactuem com sucessões dinásticas, onde o chefe de estado é escolhido apenas por uma questão de ADN.

 

Também é paradigmática a posição para com os regimes que ostentam “democracias de fachada”. É o caso de Angola, conhecida pelos constantes atropelos às liberdades individuais e pelo nepotismo e corrupção reinantes, ou da Turquia, membro da NATO e receptor de refugiados para a UE, que caminha a passos largos para o totalitarista.

 

Toda esta dissertação surge na sequência da morte de Fidel Castro e de tudo o que vem sido dito e escrito sobre a mesma. Há quem tente branquear o facto de ter implantado uma ditadura, anunciando as áreas da saúde e do ensino como atenuantes, e há quem o tente rotular como o maior sanguinário de todos os tempos. Na minha opinião é patética e desnecessária esta discussão. Tal como não existem ditaduras boas ou más, também não existem ditadores melhores ou piores. O adjectivo carrega em si todo o peso pejorativo que se lhe reconhece. Nada mais há a acrescentar.

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Fidel Castro cresceu revolucionário, mas fez-se ditador. É certo que nos tempos primordiais, em que era urgente depor o regime absolutista de Cuba, foi indispensável o recurso às armas. Esses foram tempos em que Fidel e seus companheiros se moviam por ideais e pela edificação de uma sociedade livre. Tudo o que se passou a seguir, ou seja, a substituição de uma ditadura por outra, foi uma opção. Muitos a defenderão mercê da conjuntura e dos condicionalismos geo-políticos. Eu acho profundamente errada e até mesmo “traidora” dos princípios de uma revolução que pretendia libertar o povo e não apresentar-lhe uma prisão remodelada.

 

É usual apontarem-me que todos os revolucionários se tornam ditadores. Nessas alturas costumo relembrar Mandela. Também ele se fez revolucionário e viu-se perante a inevitabilidade de abraçar a luta armada contra o brutal regime de apartheid da África do Sul. Mas, quando o seu tempo chegou, não se fez ditador; fez-se moderador e pacificador! Constituiu-se em cimento daquele grande e diverso país e com essa presença de espírito conduziu a nação na transição para a democracia, impedindo um banho de sangue e ganhando o respeito de todos. Hoje, dia 5 de Dezembro de 2016, faz 3 anos que faleceu Nelson Mandela. Esse sim, um exemplo a recordar e seguir.

 

Montijo, 5 de dezembro de 2016

Da ordem do Impercétivel

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Ontem foi feriado e como o tempo é pouco para ligar a tv, durante a manhã, decidi dar uma espreitadela. Devo ser muito azarada pois, só assisti a pedantices e alarvidades.

Ouvem-se comentadores debitarem disparates, assumidos ou não, verbalizarem frases sem sentido, mal conjugadas, palavras descontextualizadas...uma panóplia de disparates, transmitidos e retransmitidos, vezes sem conta.

Nas ruas, nos cafés, nos lugares publicos é frequente encontrarmos grandes déficits na expressão oral. Na escola, as crianças, possuem um vocabulário paupérrimo e muita dificuldade na narração de acontecimentos.

A iliteracia oral está crescendo, começando mesmo a revelar alguns sinais alarmantes, com o contributo dos midia.

O histroinismo cresce e começa a manifesta-se junto das populações menos escolarizadas.  Esta especie de delirio, quase coletivo, esta falta de engajamento com as regras do discurso oral, começa a gerar simbioses pouco crediveis e preocupantes.

Não sou nem nunca fui, uma purista da oralidade, nem da escrita, mas tudo tem os seus limites.Permitir que se atravanquem ideais através de oralidades duvidosas, conduz-nos a algo parecido com uma ignorância consentida.

Apelamos constantemente às nossas liberdades mas, ser livre não é fácil. Ser livre não significa acreditar no estado metafísico da satisfação. Ser livre implica agir, implica afetação à alegria, implica responsabilização. Ser livre é uma arte e um compromisso.

Mas, a liberdade de expressão está em causa quando a desinformação e a hipocrisia desconcertante, começam a fazer parte das nossas rotinas. Quando se questiona a comunicabilidade,  matando a conversação, começamos a caminhar na direção errada

É muito mais dificil produzir argumentos  de diferença do que evocar banalidades

A captura imanente do desinteressante gera espetadores mais recetivos às futilidades e à mediocridade.

Começamamos a cair na ordem do impercétivel. É como se existisse uma atração para incorporar o obsoleto; é como existir um tempo em que a existência cria obscuridades.

Urge introduzir sincronia dentro destas discincronias, é preciso fazer acontecer.