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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O Novo Normal: A Decadência

 

Existe um programa na Antena 1 de seu nome “O novo normal” de Fernando Ilharco. Uma rubrica francamente interessante e que recomendo. Mas para o efeito pego-lhe apenas no titulo do programa: O novo normal.

Esta madrugada perdi o meu tempo a assistir à praticamente totalidade do debate entre Hillary(ante) e Trump(a). É de reparar que começo já aqui a deturpar depreciativamente os nomes dos candidatos.

Não consegui ver a totalidade e desisti quando faltavam 15 minutos para acabar. Depois das energias retemperadas forcei-me a ver o que faltava sendo que na verdade não perdi nada.

Começando pelo alvo mais fácil, Donald Trump(a). O sujeito está ao nível nas personagens mais torpes da historia da humanidade. Quando diz “afro-americano” o que na boca dele se lê é: “preto que por azar nasceu na américa” e o mesmo se aplica a todas as etnias que vai referindo pelo discurso.

A história desta semana sobre a “conversa de balneário” eu aceito-a como sendo isso. E não nos vamos armar aqui em santos porque já assisti a comentários destes quer por parte de homens quer por parte de mulheres sem que eles ou elas fossem fora de contextos específicos menos respeitosos com os “alvos” dos seus comentários. Mas aqui estou com o argumento de Hillary, não é este caso em particular, é a soma de todos os comentários, sobretudo aqueles que não fazem parte de “conversa de balneário” e que surgiram já em campanha.

Trump mais uma vez diz que vai usar da força para conseguir fazer vingar as suas palavras. Todos devem estar recordados dele dizer que irá obrigar o México a pagar-lhe um muro novo entre os dois países. Desta feita vai obrigar os países a receberem os seus cidadãos quando estes estejam ilegais nos EUA. Consigo imagina-lo numa fronteira a pegar numa pessoa como quem pega num gato e a dizer: “I came here to return your trash”.

Trump julga-se uma espécie de um aspirador endeusado. Ele diz até que pela mão dele o soldado americano que morreu ainda estaria vivo, mas mais para a frente sugere resolver pela força a questão Síria, aumento e proliferação do armamento nuclear, posições pouco politicas, mas muito musculadas quanto à Rússia e ao seu apoiante Putin. Trump salva um soldado, mas arrisca-se a matar milhões senão mesmo toda a humanidade.  

Donald Trump é uma espécie de criança enjaulada no corpo de um velho aspirador. Fala sem medir consequências do que diz ainda que acredite que seja um aspirador genuíno.

Mas Donald Trump depois tem razão no que toca á polémica dos e-mails. Hillary diz que depois de ser “apanhada na curva” apagou 33 mil emails pessoais. Trump não acredita e eu também não. Diz que eram sobre o casamento da filha e sobre as aulas de yoga. TRINTA E TRÊS MIL e-mails? Trump não acredita e eu também não.

Mas quando se refere a Hillary como mentirosa como se ele fosse o dono da verdade, a verdade é que já várias vezes este foi apanhado a mentir e talvez o procurador que ele iria nomear para prender Hillary acabasse por prender também Trump.

Trump tem razão quando diz que ela faz serviço publico há 30 anos e que ele só aproveita dos buracos fiscais que Hillary abre para beneficiar os seus amigos e nós sabemos que a ideia de esquerda nos EUA não existe e que os lóbis têm um peso enorme. Quando toca a dólares não há ideologia e naturalmente que republicanos e democratas comem do mesmo prato.

Obviamente que em terra de cegos quem tem um olho é rei e Hillary é quem tem um olho, míope, mas tem um olho. Trump só tem o aspirador e não chega para as suas aspirações.

Facto é que este é o novo normal, um debate entre duas pessoas que não servem para liderar os destinos de uma potencia daquela (ou de outra) dimensão, cheiros de rabos-de-palha e que forçam as pessoas a escolher entre o mau e o péssimo e mesmo assim, dizem as sondagens, o resultado não é certo, dizem muito do quão degradante são estas eleições.

Eu não votaria neles, isso é certo.

Um país, duas classes

Vivemos numa sociedade de classes. Mesmo tanto tempo depois dos regimes absolutistas ou autoritários e da revolução industrial continuamos divididos ente capital e proletariado, patrões e trabalhadores ou, como agora é costume dizer-se, entre empreendedores e colaboradores. A semântica tenta atenuar o fosso, mas este mantém-se; mais polido é certo, mas também mais profundo.

 

Surge esta reflexão na sequência das entidades ouvidas em sede de determinado assunto. Isto é, sempre que o assunto são direitos dos trabalhadores ou legislação laboral ouvem-se sindicatos e associações profissionais, bem como as confederações patronais. Mas quando o assunto é legislação ou normas fiscais empresariais, tal já não sucede. Nunca, ou raramente, são ouvida as instituições ligadas aos trabalhadores.

 

Então, mas não serão os trabalhadores parte activa do sucesso e lucros de uma empresa? Não será a mão-de-obra indispensável para o desenvolvimento e crescimento das companhias?

 

A resposta só pode ser afirmativa. E se assim é, a nossa comunicação social deve habituar-se a procurar o contraditório em toda e qualquer temática. Mesmo que o público não goste; mesmo que o patrão não queira. Essa maturidade social é fundamental para o nosso progresso como comunidade. Em democracia é essencial ouvir as partes para estabelecer consensos, mas também para construir opinião. No intuito de edificar uma sociedade mais informada e também mais evoluída.

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Montijo, 9 de Outubro de 2016

A política como motor da mudança

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A política não pode, nem deve, ser apenas a arte do possível, como muitos advogam. À política cabe o papel maior, de ela própria, moldar a realidade, participando activamente na sua construção e imprimindo um cunho progressista, que atenue o fosso entre classes, caminhando para o esbatimento destas, e que promova uma igualdade efectiva no acesso às oportunidades.

 

Tal não significa o crescimento eterno preconizado pelo modelo capitalista, base de um neoliberalismo feroz, que delapida recursos naturais e promove desigualdades. A solução está num novo modelo de desenvolvimento que aposte na redistribuição da riqueza existente, bem como na pré-distribuição, e na descarbonização da actividade humana. Uma economia de menor escala. Uma aposta na actividade local. Criar novas formas de interacção e troca comercial, mais cooperativas e menos competitivas.

 

À política cabe, no quotidiano, bater o pé ao modelo de desenvolvimento forçado pelos interesses corporativistas. E criar um caminho alternativo em harmonia com o meio-ambiente e no respeito pela natureza e pela dignidade humana. Dizer basta aos que dizem que a realidade sempre se impõe. Porque esta realidade urge ser alterada. Porque esta realidade carece de fundamento ideológico; de princípios éticos, de urbanidade. Precisamos de uma realidade que respeite a humanidade e o planeta que a mesma habita…

 

Que a política seja o motor desta mudança essencial. Se necessário for, que se crie uma geringonça para esse efeito. Que se conciliem opções; que se consensualizem opiniões. Lembrando que as possibilidades são infinitas quando existe vontade e querer. Mas que existe também uma urgência! É tempo arrepiar caminho. Ou amanhã será tarde demais.

 

Montijo, 7 de Outubro de 2016

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