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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Nero ri-se

 

Do alto da sua imortalidade, Nero ri-se. Com preverso prazer vislumbra as labaredas a varrerem Portugal. Cada nova frente, cada coluna de fumo, é um bálsamo para o incendiário. E a cada gargalhada do pirómano, nova chaga se abre no país, que se pinta de cinza. Algumas gangrenam. Como que apodrecido, o país jaz.

 

Sentimos a impotência, a estupidez e a maldade a cada novo incêndio que deflagra. E a contínua conversa de que é preciso é coiso, e tal, e mais não sei quê. Mas nunca se coisa, nem tal, nem não sei quê... A cada ano se repete a mesma desgraça. São feridas na natureza que dificilmente sararão; património insubstituível; vidas perdidas e famílias desmembradas; projectos em suspenso. E uma aposta ambiental no país permanentemente em causa.

 

Mas temos a legislação, alguns meios e muita experiência. O que falta então? Falta que das palavras passemos à acção. Que os incêndios não sejam tema de conversa apenas no Verão, mas que se comecem a prevenir logo no Inverno. Passa por equipar e dignificar os bombeiros, sejam eles voluntários ou sapadores. Eles que são de uma entrega e dedicação inesgotável. Falta, essencialmente, pensar e executar o ordenamento do território, com especial ênfase no planeamento das nossas florestas. E coragem política para encarar os interesses instituídos.

 

Se nada for feito, Nero continuará a rir. Pensando que onde os romanos falharam pela força do gládio é agora facilmente subjugado pela força do fogo.72. Nero Ri-se.jpg

Mercado de Habitação:Bolha Imobiliária (parte2)

Muito se fala em Portugal sobre a crise da construção civil, e não é para menos uma vez que tem sido uma parte substancia do motor económico português.

O problema deste mercado é que é em larga medida baseado em valores que pouco ou nada resultam da realidade, do valor real do produto, mas de quanto é que o comprador está disposto a pagar.

Até meados da década de 90 não era muito fácil adquirir habitação própria devido ao juro elevado mas à medida que o juro foi descendo a banca foi facilitando a concessão de crédito e a venda de imoveis disparou.

valor imoveis.jpg

Dados Prodata

taxas de juro.jpgFonte: Inês Quental de Melo

 

 

É hoje fácil de perceber para quem mora nas áreas suburbanas de Lisboa que a construção não respeitou regras urbanísticas, paisagísticas nem sequer de qualidade deixando aos futuros proprietários o ónus elevado da manutenção dos imoveis adquiridos.

Há banca foi permitido conceder credito a quem podia e a quem mal podia na esperança de um futuro melhor.

Aos construtores as licenças foram dadas sem critério e mesmo quando nem sequer existiam licenças, lá se aprovava depois de construir e raros são os casos de obras que foram demolidas pela falta de licenciamento. É mais fácil encontrar hoje construções semiconstruídas e abandonadas por falência do construtor do que as demolições provenientes de construção sem licenciamento.

Mas num mercado em que o valor do arrendamento é semelhante e em alguns casos até mais caro do que a aquisição da habitação, é natural que a maioria prefira adquirir a sua própria habitação ainda que se esteja muitas vezes a comprometer para a vida.

E isto é fácil de perceber. O custo das habitações não parou de subir e chegou a um patamar tão elevado que já não estava acessível para a maioria uma vez que o custo de consumo subiu francamente mais do que a média salarial, a banca solucionou a questão de um modo airoso. Subiu o prazo da hipoteca para 40 anos de modo a diluir o valor.

Quem não adquire habitação fá-lo porque não pode ou porque não quer. Não quer quando não se quer comprometer a longo prazo com um crédito que se arrasta por décadas. Isto aplica-se sobretudo a pessoas em que a sua actividade laboral peça com frequência deslocações.

Não pode quem não tem acesso ao crédito porque não tem rendimentos suficientes ou quem não tem estabilidade laboral suficiente como é o caso dos professores os das profissões precárias a prazo e a recibos verdes.

A subida do valor imobiliário interessa não só ao construtor como ao Estado que arrecada mais impostos. Interessa a quem arrenda porque lhe permite subir o valor do arrendamento.

Os únicos prejudicados são os que têm direito à habitação mas que na verdade não é bem um direito, é uma condenação para a vida toda.

E repare-se, se eu adquirir um imóvel por 100 mil euros e o arrendar, eu ganho mais do arrendamento do que tenho de pagar ao banco. Durante o início da crise era fácil encontrar cartazes colados onde no mesmo cartaz se ofereciam para adquirir casas e ao mesmo tempo aluga-las, eventualmente até ao vendedor.

Ao contrário do que nos querem fazer crer, o sector da construção e imobiliário não fazem parte do motor da economia, são antes lastro pesado a médio e longo prazo para o país.

 

Concluo esta questão sobre a construção e imobiliário com um pequeno pensamento económico:

Cada vez que um de nós se dirige ao banco para pedir um crédito imobiliário, vai lá no sentido de pedir adiantado o dinheiro que ainda não tem mas espera vir a ter.

O banco, por seu turno também não tem esse dinheiro mas espera vir a lucrar de algo que não tem sendo portanto um intermediário.

O banco para me emprestar dinheiro vai pedi-lo aos investidores internacionais a uma determinada taxa de juro. O banco em cima desse juro soma o seu juro, ou seja, o seu lucro.

Vamos imaginar que eu preciso de 100 mil euros e o banco concede-mos por um juro de 2% tendo este de pagar 1% aos investidores. Eu terei de pagar ao banco 102 mil euros, o banco lucrará 1000 euros e para fora do país seguirão outros 1000 euros para o lucro do investidor.

Quer isto dizer que ao considerarmos o mercado imobiliário como um motor da nossa economia, o que estamos a fazer é fazer com que a riqueza produzida escorra para investidores internacionais. Quer dizer que dar crédito sem critério levou a banca a ficar em muito maus lençóis como bem sabemos mas que a sua falta de rigor somos nós que a pagamos seja nos milhões para o BPN, para salvar o BES ou para salvar a Caixa Geral de Depósitos.

O mercado imobiliário especulativo castra-nos a produção de riqueza e responsabiliza directa e indirectamente pela ingerência da banca.

Enfim, o povo paga…

Não há discursos como estes - Avante (2015/2016)

 

 

Uma coisa que eu não aprecio é políticos e politicas cata-vento.

O PCP e os seus militantes dizem que são sempre rígidos perante a sua ideologia e no seu discurso, descubro eu que sofrem de um mal muito nacional, a memória curta.

Não há muito mais que um ano, discutindo com um militante comunista, ia-lhe dizendo que o discurso de Jerónimo de Sousa começada a dar a ideia de um possível diálogo de convergência. Eram mensagens subliminares, num discurso em que em quase tudo metia o PS no mesmo sado de gatos do PSD e CDS mas que quanto mais se aproximavam as eleições mais ia dizendo “se o PS estiver a fazer um Governo verdadeiramente de esquerda…”. Mas este discurso só apareceu a duas semanas das eleições.

Antes disso eram completamente contra esse tipo de ideias. Podemos verificar isso aqui, aqui ou aqui.

O discurso passava muito por “não podemos convergir com um partido responsável pela entrada na troika em Portugal”.

Direi eu que os partidos responsáveis pela entrada na Troika em Portugal foram todos os que estavam na oposição e chumbaram no parlamento o PEC-IV. Mas aqui tenho de dar o benefício da dúvida dada a subjectividade da questão. Teria resolvido ou apenas adiado?

A 15 de Setembro de 2015, num debate entre Catarina Martins e António Costa, tudo muda. Ao minuto 61, depois de uma hora a explorar os podres do passado do PS, Catarina Martins diz com ar de quem tem os trunfos todos na sua mão que tem 5 questões que bloqueiam a “geringonça” e que se o PS ceder o BE avança na convergência.

A comunicação social sempre a dar destaque a Mariana Mortágua que aparece SEMPRE a acompanhar Catarina Martins, o BE passou de moribundo a terceira força politica nas sondagens.

O PCP tinha duas hipóteses: ou encarneirava na convergência ou mantinha-se fiel ao seu discurso de sempre e poderia acabar como a ovelha negra da história permitindo um Governo de direita ou forçar uma coligação entre o PS e o PSD.

A “geringonça” foi o compromisso possível para nenhuma das partes abdicar da sua palavra para com os seus eleitores e ao mesmo tempo dizer que bloqueou um Governo de direita.

Nos debates quinzenais a “geringonça” vai-se defendendo e viram-se todos para atacar a direita, cá fora vão lançando umas farpas para legitimar a sua independência politica. Não se comprometem no Governo ainda que estejam claramente dentro dele.

É com o PCP, PEV e BE que as medidas são aprovadas ou não em parlamento. É com o apoio destes que o OE é ou não aprovado. Não estando representados no Governo, são cúmplices.

Por isso acho curioso ouvir o discurso de Jerónimo de Sousa vir agora, depois de dizer que só formaria com o PS um verdadeiro Governo de esquerda se o PS assumisse medidas de esquerda, dizer que este é um Governo minoritário do PS como se o seu aval fosse coisa somenos.

Podemos comprar o discurso de 2015 e 2016 em que o PS foi referido 20 vezes face a meras 3 referencias este ano para os camaradas verem que ainda são diferentes.

Não me inquieta minimamente que o PCP/PEV/CDU seja diferente. Inquietamente a falta de espinha dorsal em que se quer agradar a gregos e troianos mas sem coragem para assumir que nem sempre é possível ganhar tudo nem a coragem de assumir o protagonismo que lhes era exigido.

O mesmo se aplica ao BE.

Indie quê? IndieotaFESTAval

Abaixo transcrevo o último texto de opinião publicado no Diário da Região:

Opiniao_Diario-Reg_2016-09-02.jpg

É já no próximo mês de Setembro, entre dia 8 e 10, que o Montijo receberá (o que se espera ser) a primeira edição do IndieotaFESTAval. Certame cujo cartaz é composto exclusivamente por novas bandas e autores nacionais, que se movimentam pelo meio mais subterrâneo, isto é, ainda sem a visibilidade e notoriedade desejada. Aquilo a que se convencionou chamar de universo Indie, que não é mais do que artistas a tentarem singrar na música por modo próprio, recorrendo apenas à sua arte.

 

A ideia não podia ser mais pura. Um grupo de jovens que, simplesmente, gostariam de ver na sua cidade as bandas que costumam ouvir na rádio e na net. Bateram a umas portas; empenharam muito do seu tempo; passaram algumas noites mal dormidas. E o resultado final estará patente nos 3 dias de festa, que contarão com diversas actuações, e que pode ser consultado no seguinte endereço: https://indieotafestaval.wordpress.com/#content. As sonoridades abrangerão um vasto leque musical, das mais melodiosas às mais ásperas. O certame terá lugar em 2 palcos distintos, a saber: TimeOut Bar e Bota’baixo Bar, ambos no centro do Montijo.

 

Curioso é o facto de nesse mesmo período, grosso modo, ter lugar a terceira edição da Feira Quinhentista da Aldeia Galega. Será uma oportunidade única de cruzar o tradicional com o moderno. Uma simbiose que com certeza resultará numa salutar interacção entre públicos, que se deslocarão à cidade por diferentes motivos, mas que podem ser surpreendidos e saírem desses dias de mescla cultural um pouco mais ricos.

 

Vulgarmente se diz que no Montijo nunca se passa nada. Se assim é, o segundo fim-de-semana de Setembro será excepção. E como tal deve ser aproveitado. O IndieotaFESTAval é uma iniciativa particular, mas que tenta estabelecer parcerias com privado e público, envolvendo assim a comunidade naquilo que se espera vir a ser uma grande celebração da cultura musical. Na minha modesta opinião este evento pode colocar o Montijo na rota dos principais festivais de Verão, deixando a sua marca indelével na cultura alternativa. Sim, estou a colocar a fasquia alta. Por isso mesmo deve ser acarinhado pelos montijenses e pelas suas instituições. Até porque esta iniciativa pode muito bem tornar-se num importante dinamizador da economia (e cultura) local. Caso o evento seja um fiasco, ninguém pode dizer que não tentaram. Mas fiquemos cientes que quem mais perde é a própria cidade.

 

Eu estarei presente nesta celebração da música portuguesa. Assim, daqui por uma dúzia de anos, quanto o IndieotaFESTAval tiver créditos firmados na cena alternativa nacional poderei orgulhosamente afirmar: eu estive naquela primeira edição... E foi espectacular!

indie.bmp

 

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