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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A suspensão da individualidade

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Vulgarmente tentamos encontrar nos outros aquilo que nos identifica. Ou melhor, projectamos a nossa personalidade em outrém, firmes de que as restantes pessoas pensarão como nós. Nada mais errado. Até porque existem cada vez mais pessoas interessadas em abdicar da sua individualidade a troco de uma subida na escala social. O lugar-comum de que as pessoas são todas diferentes parece começar a desvanecer. As modas e tendências sempre foram apanágio disso mesmo. Mas agora falamos na uniformização das características e formas de estar. Uma espécie de formatação do indivíduo.

 

A frontalidade e a coerência (para com os outros e para connosco) são característricas cada vez mais raras. A conivência com o status quo abre portas para oportunidades que de outra forma dificilmente surgirão. A tal escalada social permite um desafogo na vivência quotidiana maior. A contrapartida é abdicar de muitos dos nossos princípios; deixar de defender aquilo em que acreditamos; por de lado o que nos define; deixar de fazermos sentido...


Valerá a pena renunciar à nossa essência em troca de um carro mais potente ou de uma férias nas Caraíbas? É uma questão de perspectiva e de coluna cervical. Até agora nunca estive disposto em penhorar a minha dignidade. E, pelo que me conheço, dificilmente colocarei no prego aquilo que sou.


Montijo, 16 de Setembro de 2016

A triste história da Justiça Portuguesa e o juiz de Mação.

Uma série de gente não gosta de Sócrates. Porque é arrogante, concordo. Muitos chamam-lhe mentiroso. Outras nem sequer o suportam. Todos têm histórias de amigos, de amigos de amigos que sabem que Sócrates fez isto ou aquilo. Até aqui tudo bem. O problema está quando o rumor, o diz que disse, leva à prisão preventiva de alguém por nove meses. O problema está quando um juiz insinua na televisão que não tem dinheiro em nome de amigos, tal como Sócrates tem (e provas?). O problema está quando esse juiz não consegue deduzir acusação a Sócrates e vem para a televisão gabar-se de ser poupado, trabalhador, o “saloio de Mação”. O problema está quando a justiça pode prender sem acusação, com fortes indícios que afinal são apenas rumores, e um juiz pode vir insinuar que afinal não vai prender Sócrates (porque foi isso que o juiz Carlos Alexandre veio fazer) mas que fez tudo bem e que a sua honra está intacta. Portugal precisa de um debate profundo sobre justiça. Portugal precisa de perceber que o rumor não basta e que o tempo da caça às bruxas já passou. E que prender sem provas é inconcebível e imoral. E que hoje foi Sócrates mas amanhã podemos ser nós. E que este juiz, moralista e mesquinho não nos representa. Pelo menos, a mim não.