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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Mercado de Habitação:Bolha Imobiliária (parte2)

Muito se fala em Portugal sobre a crise da construção civil, e não é para menos uma vez que tem sido uma parte substancia do motor económico português.

O problema deste mercado é que é em larga medida baseado em valores que pouco ou nada resultam da realidade, do valor real do produto, mas de quanto é que o comprador está disposto a pagar.

Até meados da década de 90 não era muito fácil adquirir habitação própria devido ao juro elevado mas à medida que o juro foi descendo a banca foi facilitando a concessão de crédito e a venda de imoveis disparou.

valor imoveis.jpg

Dados Prodata

taxas de juro.jpgFonte: Inês Quental de Melo

 

 

É hoje fácil de perceber para quem mora nas áreas suburbanas de Lisboa que a construção não respeitou regras urbanísticas, paisagísticas nem sequer de qualidade deixando aos futuros proprietários o ónus elevado da manutenção dos imoveis adquiridos.

Há banca foi permitido conceder credito a quem podia e a quem mal podia na esperança de um futuro melhor.

Aos construtores as licenças foram dadas sem critério e mesmo quando nem sequer existiam licenças, lá se aprovava depois de construir e raros são os casos de obras que foram demolidas pela falta de licenciamento. É mais fácil encontrar hoje construções semiconstruídas e abandonadas por falência do construtor do que as demolições provenientes de construção sem licenciamento.

Mas num mercado em que o valor do arrendamento é semelhante e em alguns casos até mais caro do que a aquisição da habitação, é natural que a maioria prefira adquirir a sua própria habitação ainda que se esteja muitas vezes a comprometer para a vida.

E isto é fácil de perceber. O custo das habitações não parou de subir e chegou a um patamar tão elevado que já não estava acessível para a maioria uma vez que o custo de consumo subiu francamente mais do que a média salarial, a banca solucionou a questão de um modo airoso. Subiu o prazo da hipoteca para 40 anos de modo a diluir o valor.

Quem não adquire habitação fá-lo porque não pode ou porque não quer. Não quer quando não se quer comprometer a longo prazo com um crédito que se arrasta por décadas. Isto aplica-se sobretudo a pessoas em que a sua actividade laboral peça com frequência deslocações.

Não pode quem não tem acesso ao crédito porque não tem rendimentos suficientes ou quem não tem estabilidade laboral suficiente como é o caso dos professores os das profissões precárias a prazo e a recibos verdes.

A subida do valor imobiliário interessa não só ao construtor como ao Estado que arrecada mais impostos. Interessa a quem arrenda porque lhe permite subir o valor do arrendamento.

Os únicos prejudicados são os que têm direito à habitação mas que na verdade não é bem um direito, é uma condenação para a vida toda.

E repare-se, se eu adquirir um imóvel por 100 mil euros e o arrendar, eu ganho mais do arrendamento do que tenho de pagar ao banco. Durante o início da crise era fácil encontrar cartazes colados onde no mesmo cartaz se ofereciam para adquirir casas e ao mesmo tempo aluga-las, eventualmente até ao vendedor.

Ao contrário do que nos querem fazer crer, o sector da construção e imobiliário não fazem parte do motor da economia, são antes lastro pesado a médio e longo prazo para o país.

 

Concluo esta questão sobre a construção e imobiliário com um pequeno pensamento económico:

Cada vez que um de nós se dirige ao banco para pedir um crédito imobiliário, vai lá no sentido de pedir adiantado o dinheiro que ainda não tem mas espera vir a ter.

O banco, por seu turno também não tem esse dinheiro mas espera vir a lucrar de algo que não tem sendo portanto um intermediário.

O banco para me emprestar dinheiro vai pedi-lo aos investidores internacionais a uma determinada taxa de juro. O banco em cima desse juro soma o seu juro, ou seja, o seu lucro.

Vamos imaginar que eu preciso de 100 mil euros e o banco concede-mos por um juro de 2% tendo este de pagar 1% aos investidores. Eu terei de pagar ao banco 102 mil euros, o banco lucrará 1000 euros e para fora do país seguirão outros 1000 euros para o lucro do investidor.

Quer isto dizer que ao considerarmos o mercado imobiliário como um motor da nossa economia, o que estamos a fazer é fazer com que a riqueza produzida escorra para investidores internacionais. Quer dizer que dar crédito sem critério levou a banca a ficar em muito maus lençóis como bem sabemos mas que a sua falta de rigor somos nós que a pagamos seja nos milhões para o BPN, para salvar o BES ou para salvar a Caixa Geral de Depósitos.

O mercado imobiliário especulativo castra-nos a produção de riqueza e responsabiliza directa e indirectamente pela ingerência da banca.

Enfim, o povo paga…