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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Inconseguimento Incendiário

 

Por motivos profissionais de tempos a tempos percorro o território nacional, a larga maioria das vezes fora das rotas turísticas.

Em 2003 vi arder vastas áreas do território que pouco tempo antes tinha visitado e fotografado. Senti aquele aperto no peito de quem está a perder parte de si.

Desde então tenho prestado mais atenção aos fogos e às consequências e aos sucessivos Governos que enquanto os incêndios lavram, enquanto os bombeiros lutam e algumas vezes perdem a vida, vão-nos dizendo que desta vez é que é, que vamos mudar a legislação para acabar com os incêndios.

Em 1998 cumpri serviço militar em Cascais. Era competência daquela unidade a patrulha do parque florestal Sintra-Cascais. Por alegada falta de pessoal a unidade trocou a competência com os Bombeiros Voluntários de Cascais à troca do almoço, e assim todos os dias tínhamos a visita dos bombeiros no nosso quartel.

Continuo a defender que o exército em parceria com a Força Aérea deveriam patrulhar o território do mesmo modo que a Guarda Florestal patrulha as matas de Monsanto em Lisboa.

Eu cumpri serviço militar e por isso mesmo tenho propriedade para dizer que o exército pode patrulhar matas. Não querem dar o tempo por perdido? Enquadrem as patrulhas em exercícios militares.

Pegando ainda neste campo, continuo sem compreender como é que pagamos pequenas fortunas pela concessão dos meios aéreos de combate aos incendidos, que muitas vezes verificamos nas noticias não voarem pelos mais diversos motivos, quando esse custo poderia ser muito inferior se a competência fosse da Força Aérea Portuguesa.

Porque andamos a pagar a mais por um serviço pior?

Outra questão é a limpeza das matas. Há uns anos que se vem falando na obrigatoriedade de limpar as matas.

Muita gente tem pequenas propriedades arborizadas de onde vai retirando um pequeno extra que adiciona ao ordenado de um trabalho “normal”. A limpeza das matas implicaria ou pagar a alguém para o fazer, o que retiraria a receita extra do terreno para a transformar numa despesa, ou o dono teria de abdicar do seu trabalho para limpar as matas. Visto assim é natural que as pessoas deixem andar, confiando à sorte.

Para além disso o ordenamento florestal é um inconseguimento.

No outro dia, numa incursão ao norte do país, escutava uma rádio local, talvez a Rádio Terra Quente, onde faziam um apanhado a um senhor que tinha plantado eucaliptos. O locutor da rádio dizia que ele tinha que pagar uma elevada multa porque não podia plantar ali eucaliptos e o senhor lá ia respondendo que tinha ido ao ICNF e que lhe tinham dito que podia, até porque um vizinho, do qual ele já tinha feito queixa por não poder plantar eucaliptos, tinha-os plantando sem que nada lhe tivesse acontecido.

Facto é que percorremos largos quilómetros por esse país fora, cheios de matas de eucaliptos.

Nestas alturas lá vêm as conversas politicas que temos de apostar nas matas com espécies autóctones mais resistentes ao fogo. Passado pouco tempo logo descobriremos que a resistência rende pouco ou a longo prazo e os eucaliptos rendem mais.

Não compreendo também como é possível que um sujeito preso por ter provocado um incêndio, passado poucos meses esteja na rua sem que sequer se coloquem mecanismos que verifiquem onde andam estes sujeitos.

Um incendiário é um terrorista sem pátria, sem religião ou ideologia.

Não sou a pessoa mais indicada para sugerir seja o que for. Sou apenas português que assiste ao país a arder.

Por motivos profissionais de tempos a tempos percorro o território nacional e para a semana voltarei a percorrer as estradas do país.

Para a semana deixarei de tirar fotografias a paisagens luxuriantes para olhar para veles e montes cinzentos com cepos de árvores ardidos como fósforos num imenso cinzeiro.

Para a semana, mais uma vez, vou concluir mais uma vez que a conversa que os sucessivos Governos, anos após ano nos vão dando sobre o combate aos fogos é apenas conversa de silly season.

Deixo apenas a questão, quando é que o PEV que vai insistindo nas questões do amianto como se fosse o mal do mundo, ou o PAN que vai defendendo os animais que mais despertam a sensibilidade da comunidade, começam a insistir nos debates quinzenais nas questões que defendem o nosso território no que toca a fogos e os que lutam na defesa deste território, os bombeiros.

 

 

DSCF2402.jpg

Uma das fotos que eu tirei o mês passado.

 

Crise de identidade (momentânea)

Saí do barco com a sensação de não saber quem era. Levei a mão ao bolso e percebi o porquê desta dúvida – tinha deixado a carteira no barco, com todos os documentos que me identificam como cidadão. Sobressaltei-me e por segundos senti-me perdido. Reagi e enfrentei a maré humana, com o vigor de quem luta pela sua própria existência.

 

Pelo caminho alguém me diz que se é uma carteira que procuro está em poder do pessoal da Transtejo. Atrapalhado agradeço... Ou agradeço atrapalhadamente, já não me recordo bem. Continuei a correr no sentido do barco, antes que zarpasse e levasse nas suas entranhas parte de mim.

 

Com a respiração inconstante justifico o meu regresso ao marinheiro: Esqueci-me da carteira. “Está lá em cima, com o Mestre” – responde-me. Apresso-me e subo as escadas do catamarã de dois em dois. Entro na cabine de comando e o Patrão da embarcação, diligente, tem a minha carteira na mão. Prontamente a entrega dizendo: “Íamos agora tentar averiguar de quem seria.” Agradeço, sem sentir qualquer necessidade de verificar o seu conteúdo. Não por pudor, apenas por ter a certeza que tudo estava bem. Só abri a carteira quando fui ao café e, até ao momento, não efectuei nenhuma busca exaustiva. É desnecessária.

 

Já por uma vez tinha passado pela traumática experiência de perder a carteira nos transportes públicos. Na altura nada apareceu. Foi um ver se te avias de burocracias. Hoje, o medo de travar novamente uma batalha de formulários voltou a assolar-me.

66. Catamara.jpg

Felizmente esse cenário não se confirmou. A minha momentânea crise de identidade foi rapidamente curada. Ao pessoal da Transtejo, especialmente à tripulação do Sé, e a quem possa ter encontrado a minha carteira estou profundamente agradecido.

 

O presente relato serve também de aviso à navegação para todos os que se acotovelam para criticar e rebaixar os funcionários do sector público. No cômputo geral o funcionalismo público é eficaz e de trato afável. E houvesse melhores condições de trabalho, que mais competente seria. Na esmagadora maioria das experiências que tive com instituições públicas conto pelos dedos de uma mão as vezes que fui maltratado. Claro que bestas há por todo o lado. Incluindo no horário nobre televisivo, em que inúmeros comentadores debitam o seu ódio visceral a tudo o que é público, incluindo os seus funcionários.

 

Os trabalhadores da Transtejo zelam pelo transporte dos seus utentes de forma segura e o mais eficiente que lhes é possível. Prestam um serviço público inestimável e fazem-no de forma cordata, muitas vezes ao arrepio daquilo que estão a sentir e das injustiças que são alvo. Queira o Governo e a Empresa Pública, olhar para estas pessoas doutra forma, devolvendo-lhes dignidade profissional e melhorando as suas condições de trabalho.

 

Montijo, 10 de Agosto de 2016